Terapia Comunitária



Índice

01 Terapia Comunitária – transcrição do DVD Terapia Comunitária – Conversa com Adalberto de Paula Barreto

02 Terapia Comunitária – texto de Luiz Fernando Sarmento

03 Terapia Comunitária entrevista com Adalberto de Paula Barreto – por Adriano De Lavor

04 Saiba + sobre Terapia Comunitária WWW.abratecom.org.br
          05 Livro de Adalberto de Paula Barreto - Terapia Comunitária- Passo a passo
               veja neste blog na página Links que eu gosto


01

Terapia Comunitária
transcrição do DVD
Terapia Comunitária
Conversa com Adalberto de Paula Barreto



 1 O que é Terapia Comunitária?

Primeiro situar: a Terapia Comunitária nasceu como um projeto de extensão do departamento de saúde comunitária da Universidade Federal do Ceará que durante estes 20 anos de trabalho em uma favela a gente criou um método de trabalhar as competências das pessoas das comunidades. Há uma tendência de se trabalhar quando se vai fazer um trabalho em contextos difíceis, onde se tenha a miséria, onde tem dificuldades é que a gente valoriza muito o que não funciona, o negativo, as carências. E esse método, baseado em cima das carências vai gerando dependências, a resposta vem de fora, é sempre uma resposta meio individual, baseada no técnico; a comunidade tem problemas e os especialistas são aqueles que tem as respostas, que vem dar de uma certa forma respostas. A nossa metodologia de trabalho a gente valoriza as competências das pessoas, embora a gente saiba que existam as carências e não vamos mexer nelas porque carências todos nós temos. Nós valorizamos a competência. A comunidade tem problemas, mas a comunidade também tem suas próprias soluções. Então a Terapia Comunitária é este método, onde a gente reuni as pessoas das comunidades, pessoas que tem algo em comum, comum unidade, pode ser sofrimento, exclusão, violência, migração. São pessoas que tem uma problemática em comum, tem algo em relação e que a gente se encontra não para trabalhar as carências, mas valorizar as competências. Então o ponto de partida do nosso trabalho é uma situação problema trazida por alguém. Pode ser alguém que traga uma história de violência, de depressão, uma preocupação com o filho doente e não sabe o que faz. Então nós partimos de uma situação problema trazida por alguém da comunidade, então geralmente aparecem várias temáticas, as pessoas propõem, o próprio grupo é quem escolhe, e aquele escolhido é objeto de aprofundamento. Então aquela pessoa que trouxe o problema ela tem mais ou menos uns 15 minutos onde ela fala da dificuldade, todos podem fazer perguntas, depois esta pessoa fica ao lado, quer dizer, ninguém faz mais pergunta a ela e vem o momento da reflexão do grupo que é sempre baseado em uma pergunta chave: quem já viveu um problema parecido e o que você fez para resolver. E ai as próprias soluções emergem da própria  comunidade, quer dizer eles têm problemas mas também têm as próprias soluções. Então a nossa função do terapeuta comunitário é suscitar a capacidade terapêutica da própria comunidade. Então esse é um trabalho que já tem 20 anos de experiência de prática a gente sempre nessas terapias a gente estimula as pessoas a falarem com a boca ou seja tem um ditado nordestino que diz quando a boca cala os órgãos falam aquilo que eu não digo com a boca eu vou dizer com depressão com gastrite com dor nas costas então a gente convoca as pessoas a falarem com a boca para não terem que adoecer então quando a boca cala os órgãos falam , e quando a boca fala os órgãos saram então as pessoas são motivadas a falar ou sejam remédio é a palavra ao falar as pessoas vão reduzindo aquele estresse vai se criando redes de identificações ela descobre que o problema não é só dela outras pessoas já passaram por aquilo dali outras estão passando outras iriam passar então a pergunta chave é quem já viveu algo parecido e o que é que você fez pra superar então a gente esta diante de uma situação problema mas também diante de uma série de possibilidades de resolução onde a gente vai vendo e resgatando as estratégia daquela comunidade, daqueles grupos, daquelas pessoas, e o que elas tem feito para superar estas dificuldades e ao acontecer isso vai se criando redes de solidariedade através das identificações e é muito típico quando nós terminamos a terapia comunitária todo mundo começa a criar redes imediatamente se o tema for depressão, os depressivos vão conversar uns com os outros se o tema for a violência, elas vão trocando então é o reforço dessas redes sociais solidárias esse é o que seria um pouco a terapia comunitária.       

2 Acolher ou Medicalizar?

Tem um outro aspecto da terapia comunitária é que ela é um método que permite intervir nos determinantes sociais da saúde. A OMS identifica cerca de 10 determinantes sociais: a exclusão, o stress, o stress prolongado, repetido, ao longo de muitos anos; encadeia muitos anos depois problemas cardiológicos, de diabetes, hipertensão, violência. Nós estamos intervindo. Nós estamos agindo hoje na saúde para que amanhã não se combata a patologia. Então, é um trabalho de prevenção, de promoção da saúde. Porque eu faço uma distinção entre a patologia, que só os especialistas podem intervir: os psiquiatras, psicólogos, os médicos. Mas existe o sofrimento. E este sofrimento, ele que é humano, que pode estar associado até a uma patologia ou não, este sofrimento pode não pode ser medicalizado, pelo contrário. Quando nós medicalizamos o sofrimento, nós estamos gerando dependências, estamos ao invés de apoiar e acolher nós estamos usando como se os remédios servissem para todos. Os medicamentos são necessários para quando se tem de fato uma patologia. Mas o sofrimento qualquer pessoa pode acolher, escutar. Você pode fazer vários métodos. Então, quando eu vejo uma mãe ansiosa, chorando, um pouco triste porque o filho dela entrou na droga ou acabou perdendo o filho, a pergunta é se essa mãe precisa ser acolhida ou medicalizada? Ela precisa ser acolhida.

3. Os Alicerces

A Terapia Comunitária é alicerçada em cinco eixos teóricos: O primeiro é o pensamento sistêmico, que nos mostra, que nos faz compreender o que aconteceu na vida do indivíduo, nós precisamos entender que para compreender o que acontece na vida do indivíduo, nós precisamos entender que tem a ver com a macroestrutura. Quer dizer se existe sofrimento, às vezes sofrimento tem uma dimensão também econômica. Muitas mulheres são violentadas se sujeitam a um relacionamento de violência, de submissão porque elas não tem autonomia, nem a educação para poder ter um trabalho, para poder ter isso. Então aprende a ver as coisas dentro de uma visão sistêmica. O segundo é a teoria da comunicação que nos lembra que todo comportamento tem valor de comunicação. Quer dizer, que nós precisamos entender o que acontece na própria sociedade, na comunidade, contendo valor de comunicação quando tem uma dor no joelho, uma gastrite. O que é que meu corpo está querendo comunicar? O meu corpo biológico. Mas, no corpo social quando a violência ta aumentando, o que isso reflete de toda essa estrutura  nacional, na sociedade brasileira, com as suas contradições. O terceiro são as bases da antropologia cultural, que valoriza a cultura. A cultura que é o arcabouço de uma sociedade. O que eu sou passa pelo: o que eu creio, como eu ando, o que eu gosto de comer, como eu me visto. Então, quando você destrói a cultura você tira do indivíduo o seu diferencial identitário. Então, a gente tem que ver a cultura como um valor que deve ser preservado, valorizado, estimulado e somado às outras coisas, às técnicas, a outros conhecimentos. Então a base da antropologia cultural pra gente entender isso: o negro, o índio, o que é que nós temos como riqueza, como recursos...e que a gente possa fazer uma integração dessa multiculturalidade, dessa multiplicidade de saberes construída em contextos diferentes. O outro é a resiliência. A resiliência nos lembra que a carência gera competência. Eu posso amar porque fui amado, mas eu posso amar porque não fui amado. Lá onde houve uma dor, um sofrimento você transforma esta carência em uma competência. Para usar a metáfora: a ostra que foi ferida não produz uma pérola, a pérola é resposta a uma agressão. Então, na própria capacitação das pessoas a gente faz elas descobrirem que detrás daquela ferida tem uma pérola, que aquela ferida, que aquele sofrimento é comum a toda comunidade e que o problema não é a pedra que está no caminho, mas o que nós fazemos desta pedra. E a pedagogia de Paulo Freire que nós estamos em um processo de aprendizagem. Ninguém é tão rico que não possa aprender, nem tão sábio que não possa aprender, nem tão ignorante que não saiba nada. Todos nós somos ricos naquilo que o outro é pobre. E todo aprendizado no coletivo, valorizando os recursos de cada um. Então, estes são os eixos teóricos. A terapia comunitária rompe com essa visão sistêmica que o povo é ignorante que precisa ser educado, que só existe um modelo verdadeiro que é o da ciência, ora nós achamos que as pessoas também sabem e que nós temos que trocar neste intercâmbio.

4. As Regras

Então a própria terapia comunitária que tem esses eixos teóricos quando nós começamos uma roda de terapia comunitária a gente lembra algumas regras fundamentais porque estamos em grupo que uma delas é fazer silêncio, quando o outro está falando “eu” respeitar, mas trata-se de um silêncio ativo não é apenas a ausência de palavras mas é ouvindo a história do outro, graças a história dele eu posso ouvir a minha. E quando ele fala de si, ele me ajuda a entender de mim. Quando eu falo de mim, eu ajudo os outros a entenderem de si. Então a segunda regra é: não pode dar conselhos, não pode fazer análise, sermão nem discurso; porque cada um é doutor de si. E quando falar, falar sempre o eu. E se fala de coisas que se vivenciou, não se pode falar da violência no mundo. È alguém que diz: “esta semana eu fui violentado”, “esta semana eu fui roubado” e “eu estou indignado, traumatizado por conta do que me aconteceu” e a partir dali começa a reflexão. E uma outra coisa importante na terapia comunitária porque é terapia comunitária sistêmica integrativa, ela integra o que vem da comunidade, da cultura local. Então uma das regras é: quando alguém está falando de alguma coisa, depressão ou está chorando, se alguém se lembrar de uma música, uma piada, uma poesia, uma história ou um provérbio, pode propor. Então a terapia por isso que ela é integrativa, porque integra o que se traz de música, de piadas, de histórias. Essas são as regras básicas que fazem com que este encontro de pessoas que falam de si, que guardam o silêncio, que dão respeito a palavra do outro, que não dão conselho nem fazem análise, que permite com que ela esta estruturada, essas regras, que faz delas um espaço de fato e de partilha, de crescimento, sem competição e sem síntese hegemônica, onde se exclui as diferenças. Nós concluímos na terapia comunitária, nós não buscamos consenso e a síntese vem com suas próprias contradições. A gente conclui com tudo que sem excluir nada, apenas lembrando quanta riqueza nós temos que cada um veja com qual destes elementos se identifica e ele possa ampliar seus recursos nas resoluções dos problemas.


5.Etapas

A terapia comunitária tem vários momentos (cinco momentos): o primeiro é o acolhimento, nesse acolhimento se explica o que é a terapia, se diz que é um espaço de acolhimento; de partilha das experiências de vida; se lembra as regras: fazer silêncio, não dar conselhos, falar na primeira pessoa, não julgar, nem fazer análise; depois das regras explicitas celebramos as festas, os aniversariantes do mês, uma festa que na sua cultura é importante, uma data significativa, onde se cantam os parabéns, e se conclui o acolhimento com uma dinâmica interativa, onde se canta, se abraça, que é para quebrar aquele gelo, que é porque estamos reunidos ali. Depois do acolhimento, tem a escolha do tema. Na escolha do tema, tem um primeiro momento que agente, solicita que as pessoas - lembrando o ditado popular “quando a boca cala, os órgãos falam” –, que as pessoas que ali estão, se puderem falar com suas bocas, falem; para que isso não vire patologia, vire doença alguns anos depois. Então pra trabalhar as questões do cotidiano. Do que falar... a gente pede que não se traga segredos pra terapia. Se falar das questões do cotidiano: daquilo que tira o sono da dona de casa; do pai de família, na educação dos filhos; do desempregado que está ansioso, está com insônia; de alguém que está com a auto-estima baixa; quer dizer, falar dessas questões do cotidiano. Não dos segredos. Os segredos a gente pede que não tragam. Depois... nesse momento, na escolha do tema, a gente pergunta: quem gostaria de partilhar. Sempre aparecem cinco, seis temas; depois que eles são identificados, a gente propõe ao grupo de escolher, de justificar porque este, “eu proponho este....” . então tem um momento pedagógico, para que as próprias pessoas vão aprendendo a, no fazer escolhas, buscar uma justificativa. Não é... e depois se faz uma votação, e, aquele que tem a maior quantidade de votos é o tema escolhido. E lá há um aspecto interessante, que não se trata de uma escolha objetiva; do tema mais importante. Não tem um mais do que o outro, mas tem aquele que mais me tocou. E quando as pessoas votam num tema, eles escolhendo um tema, eles escolhem a sua própria problemática. Não é... então, terminada a votação, depois da escolha do tema, tem a contextualização: a pessoa que falou do seu problema, que teve seu problema escolhido, ele tem cerca de quinze minutos pra falar um pouco mais, trazer novos elementos. E a gente lembra que todos podem fazer perguntas; só perguntas, só perguntas. Nada de análise. Nada de interpretação. Aí a pessoa vai falando, as pessoas vão perguntando e vai ajudando, ela e a comunidade, a contextualizar aquilo que aparentemente parecia uma coisa absurda, uma loucura. De repente contextualizado, compreende, sai do julgamento, e entende o sofrimento, a dificuldade do outro. Depois desses quinze minutos, mais ou menos, de perguntas, contextualização, nós encerramos. Pedimos ‘a pessoa que falou, que fique em “stand by”, que fique de lado, ninguém faz mais perguntas a ele, fica em silêncio. Então, passamos a etapa seguinte que é a problematização: a gente se dirige ao grupo, como unidade, nós ouvimos a estória de seu fulano, dona fulana, ele falando da estória dele, nos re-enviou as nossas, agora é o momento de nós falarmos de nós; aí, lança-se o mote, a pergunta chave: quem, dentre nós aqui presentes, já viveu algo semelhante e o que fez para superar... aí, vão emergindo do grupo as próprias soluções. Pessoas dizendo: “eu já tive isso...”, “eu fiz isso...”, “eu fiz aquilo...”. De repente, para uma problemática, aparecem quinze solucionáticas, não é, quinze soluções possíveis, criativas, que vem das culturas ali presente. Então, é um momento de muita riqueza. A gente descobre quanta riqueza têm aquele grupo, que também tinha seus problemas, mas ele têm muitas soluções. Isso dura, em torno de quarenta minutos, que é o momento mais importante, sempre entremeado de cânticos, de poesias, de piadas e por aí vai. E, então, chegamos a etapa final: que é o encerramento. A gente pede, nesse momento, para as pessoas ficarem de pé; e, aí, nós utilizamos um ritual de agregação - como o símbolo do nosso trabalho é a teia da aranha, inspirado na cultura dos índios Tremenbé, que a aranha sem a teia é como o índio sem a terra, que a aranha sem a teia é como a comunidade sem seus vínculos –, nós fazemos uma teia humana, nos balançando um pouquinho, lembrando que os acontecimentos da vida nos tiram da nossa rigidez mental, das nossas convicções, e que esse balanço, de um lado para o outro, é pra nos lembrar que a vida nos balança, com esses acontecimentos, e que nós não caímos porque estamos apoiados nos ombros ou nas mão, segurado uns nos outros. Pra re-descobrir a nossa dimensão humana, solidariedade, apoio um com o outro. E, aí, neste final, aquela pessoa que falou, que nessa segunda etapa ficou parada, a gente faz uma conotação positiva, um elogio a sua... por ter falado, e ao ter falado aquela dor, mostrou a sensibilidade de mãe, a co-responsabilidade de pai de família; à ele se faz  um elogio, admira-se o que tem de belo naquilo que ele falou. Lança-se, àquele grupo, o que é que eu vou levando desta roda da terapia comunitária de hoje, o que é que eu aprendi e das falas, aqui presentes, o que me tocou e que eu admirei. Aí, as pessoas começam: “dona fulana, eu vou levando a sua coragem... admirei muito aquela frase, que a senhora disse... eu achei muito sábia aquela sua resposta”. E aí vem... então, é o momento, mais intimo do grupo, mais até espiritual  – eu diria – porque, nesses momentos, aparecem músicas mais religiosas, onde fala: “segura na mão de Deus”, “segura na mão do irmão”, é... onde aquela outra, canta: “cura senhor onde dói”. Então, dependendo daqueles que estão ali presentes, as músicas religiosas, de várias igrejas, vários credos, ou até dança ou rito, saem. Então, é o momento de fechamento, onde a dimensão cultural se faz muito presente. Encerra-se a terapia comunitária. Geralmente nós fazemos uma seção; uma roda de terapia comunitária por semana. As pessoas vêm quando querem.

6. O terapeuta comunitário

Por isso, o terapeuta comunitário não precisa ter uma capacitação anterior. Ser médico, enfermeiro porque ele não está ligado a uma especialidade, a uma profissão. Ele transcende as profissões. É uma ação cidadã que pode envolver médicos, enfermeiros, dentistas, advogados, líder comunitários, pastorais das diversas igrejas, lideranças comunitárias, sindicatos. Então essas pessoas que querem ser terapeutas comunitários, na realidade, são facilitadores, e eles recebem uma capacitação, que por enquanto é pela Universidade Federal do Ceará, curso de extensão de 360 horas, que é dado em 4 módulos de quatro dias, com intervalo de dois ou três meses, é uma formação continuada, onde as pessoas aprendem, sobretudo, a trabalhar com a competência, a não julgar, a não condenar, a não fazer análise, apenas a fazer perguntas pra que as próprias pessoas se dêem conta que eles que têm problemas eles têm suas próprias soluções. Então, nossa função é mais de parteiro, parteiro das soluções; as soluções são dos outros. E, é verdade, que este trabalho exige da nossa parte profissional muita humildade, ou seja, muita consciência de que o nosso trabalho não é dar coisa, mas suscitar coisas que já existem nas pessoas.


7. Formação do terapeuta comunitário

      Para ser terapeuta comunitário, nós temos um perfil. Você não precisa ter nenhuma capacitação anterior, basta ser uma pessoa envolvida com o trabalho social. Você pode ser médico, pode ser assistente social, sociólogo, mas também, pode ser líder comunitário, líder de uma pastoral, dessas igrejas que temos pelo Brasil que estão querendo desenvolver um trabalho comunitário de mobilização dos recursos. Então se exige no mínimo isso. Que essa pessoa seja alguém comprometido com o um bem comum e não com interesses pessoais; que essa pessoa aceite fazer uma capacitação; que não seja alguém ligada nenhuma ideologia política ou religiosa que faça com que se olhe o mundo e as coisas dentro de um quadrado – quando falo em ideologia, eu penso na definição de um Psicanalista francês chamado René Caes, que diz: “a pior ideologia é aquela que diz não precisa pensar porque já foi pensado e que a gente apenas de apenas tem que obedecer e seguir”. Então, uma pessoa que não se dá o direito de questionar, se questionar, se dar o espaço pra dúvida, pra dizer: isso eu ainda não sei; não pode ser um terapeuta porque ele pode trazer mais problemas do que trazer resoluções. Geralmente, que essas pessoas que querem fazer a capacitação, como também é um trabalho de co-terapeuta é no mínimo de duas pessoas, o um terapeuta e um co-terapeuta. Bem, se tem uma instituição, se tem uma comunidade que quer capacitar alguém pra fazer um trabalho de roda de terapia comunitária que venha pelo menos dois, o ideal seria três da mesma instituição, da mesma comunidade, do mesmo bairro, porque eles vão trabalhar juntos. Essas pessoas geralmente quando se identificam, tem que conhecer antes qual é a proposta, trabalhar com essa diversidade, uma pessoa preconceituosa não dá para ser terapeuta comunitário, não é... Se explica um pouco. Aqueles que se identificam, nós entrevistamos, pra ver se a pessoa entendeu bem qual é a proposta. E começa a capacitação. São quatro módulos, de quatro dias, geralmente em regime de internato. Para que... Para que as pessoas se conheçam mais e a rede entre os futuros profissionais que vão fazer esse trabalho seja uma rede sólida, de apoio mútuo, porque nós precisamos um dos outros. Quatro módulos, de 4 dias, com intervalos de dois, três meses. E, esta pessoa, além de um curso, uma capacitação de 360 horas, tem que fazer 50 rodas de terapia comunitária para receber o certificado. Quem coordena hoje essa capacitação para que ela guarde os princípios é a ABRATECOM – Associação Brasileira de Terapia Comunitária -, para vocês terem uma idéia, nós temos 33 centros de formação em todo o Brasil, já foram capacitadas 12.500 pessoas, já foram atendidas mais de nove milhões de pessoas, neste trabalho. Hoje a ABRATECOM ela é responsável para supervisionar, para dar apoio a essas construções dessas redes de capacitação. E, por último, agora nós estamos começando a capacitar, com o apoio do ministério da saúde, os profissionais dos PSF, das ações básicas, para eles possam ter mais esse instrumento de intervenção coletiva.

8. Democratização do saber
     
      A terapia comunitária, por exemplo, ela é simples mas não é simplista. Esses eixos teóricos, se você mexer, tirar, ela cai. Agora ela foi simplificada por que não vai trabalhar com altas complexidades que exigi uma intervenção no intra-psíquico intracelular toda essa maquinaria que precisa ter. Nós vamos trabalhar com as interações e, não é... Nessas relações da convivência, do respeito à diferença, da tolerância diante da adversidade, e isso são seres humanos que brigam, são seres humanos que tem algo em comum. O que nos distanciam da nossa humanidade, às vezes, é nossa capacitação; são os títulos, que a gente ganha;  é o querer ser mais do que o outro; é no achar que ele tem mais direito que os outros. Não é. Então, ela é simples porque a vida das pessoas também são simples; os problemas, são simples, dolorosos e podem ser resolvidos. Eu acho, às vezes, que nós da academia temos uma tendência a complexarmos demais,  quase como: eu não digo disso, é pra dizer: é tão complexo, que só as pessoas que passaram por onde eu passei, que estudou a quantidade de anos que estudou, que tem os títulos que tem, só eu posso fazer. Parece uma linguagem sacerdotal. Como antigamente só o padre podia tocar no Cristo, o povo não podia, não tinha o direito de tocar nas mãos. Não é. Era uma coisa distante. Acho que quando a gente democratiza o saber, quando a gente se aproxima da nossa cultura, entra em sintonia com  ela - sem o preconceito do colonizador, de todos os seus níveis -, a gente se humaniza mais e acaba tendo uma qualidade de vida melhor.

9. Voltar às Origens    

      O meu primeiro universo foi o universo mágico religioso. Eu nasci na cidade de Canindé, que é um centro de peregrinação que fica a 100km de fortaleza, no sertão do Ceará. Eu vivia um tempo na casa dos meus avós que tinham uma pensão, uma pousada, um hotel, aonde os romeiros vinham pagar promessas a São Francisco, sempre trazendo um ex-voto, uma cabeça, um pé, que é a representação dos sofrimentos deles, e depositava na casa dos milagres. Então eu fiquei fascinado vendo aquele poder dos santos que salvavam aquelas pessoas perdidas e desestruturadas, sem lenço e sem documento, e eu quis então ser padre pra ser como são Francisco, eu digo: vou fazer isso também; eu vou ajudar a essas pessoas a salvar as suas almas. Meus pais me colocaram no seminário. Quando eu tinha dezessete, dezoito anos, eu fui fazer faculdade medicina. Aí então tive acesso a outro universo, o universo da ciência: onde tudo se explica. No terceiro ano da faculdade de medicina - eu fazia faculdade de filosofia e teologia juntas - Eu comecei a me dar conta que ao entrar na academia, a academia exigia a morte desse índio que me habitava. Existiam aqueles que não acreditavam mais num deus, em são Francisco, em padre Cícero; e esse imediatamente era promovido à cientista, ou seja, cientista é aquele renega sua identidade, que mata seu índio, que ridiculariza aquilo que foi herança dos seus antepassados. E existe aquele que ainda estavam ligados as suas crenças e não eram considerados como bons cientistas. E eu vivi então uma crise existencial muito grande porque eu tive a impressão que esses mundos aparentemente contraditórios eram muito semelhantes funcionavam todos dois baseados na exclusão do diferente. No primeiro mundo, o universo mágico religioso, aquele que não era católico-apostólico-romano era coisa do diabo, então não se podia ir numa rezadeira, e se ia, tinha toda aquela pressão da igreja pra dizer: isso aí é coisa do diabo; só Cristo, só Jesus salva; aquela coisa só, como se Deus, Cristo, não estivesse em outras formas culturais. E na academia, aquilo que não era cientificamente comprovado, era coisa de charlatão; não era sério. E isso me trouxe um sofrimento porque o que resta de um homem se tiram dele suas crenças, seus valores... Ele torna-se o que... um europeu, um americano, como se isso fosse o ápice da evolução, quando a gente sabe que não é bem essa a verdade. E nesse conflito o que me ajudou a ultrapassar foi o recurso da minha própria cultura. Em Canindé tem uma história que se conta: lá onde tem os ex-votos, o museu dos ex-votos, a casa dos ex-votos, tem um ex-votos de uma criança que se perdeu na floresta Amazônica. Essa criança, segundo a lenda, a história, depois de três dias que a família procurou, não encontrou nenhuma pista, então, desesperado que essa criança teria morrido, algum animal a ter comido, elas se ajoelharam e fizeram uma promessa pra são Francisco. Quando ainda estavam de joelhos, prometeram a são Francisco, se a criança estivesse são e salva, levariam um ex-voto para Canindé e se tornariam peregrinos pelo resto da vida. Diz a lenda, que eles ainda estavam de joelhos quando a criança apareceu, então: onde estava, de onde veio, e a criança relatou que um velhinho barbado, barbudo, deu a mão e a conduziu até a casa. Quem era esse velhinho... ninguém viu. Só a criança viu. Quando vieram pagar a promessa em Canindé, quando a criança vendo são Francisco pintado na parede: mamãe, era aquele velhinho. Então você imagina o poder do santo; aquela coisa. Este mito, esta história, povoava meu imaginário desde a minha infância. E agora fazendo filosofia e medicina essa história me veio e eu fiz uma nova leitura, eu disse: deixa me ver aqui, essa criança só foi salva, após três dias que a família procurou sem encontrar, ela só apareceu quando a família fez um apelo a seus valores culturais. Como eram católicos, fizeram a são Francisco. Tenho certeza, se fossem umbandistas,  teriam feito apelo a seus Orixás; se fosse uma outra religião, tivesse feito, teria encontrado. Então, foi quando a família fez apelo a seus recursos culturais a criança apareceu. Eu disse: ah! engraçado, tem isso.  Logo em seguida eu compreendi o sentido do mito: Adalberto essa história também é a sua, tu estás como esta criança perdida na floresta do saber, do conhecimento científico que tudo explica e tu riscas de perder sua identidade nordestina, tu só vai escapar, a tua identidade salvar,  se tu fizer um vínculo, um apelo  aos teus valores culturais. Segura eles. Pra mim ficou muito claro. E eu disse;  nesse momento a mim mesmo: eu posso ser, eu me autorizo a ser um cientista, caboclo, sertanejo, nordestino com muito orgulho. Pode coabitar em mim esses outros saberes onde o cientista também é bem vindo,como é bem vindo o do índio, o do africano, o dos orientais. Foi nesse espírito, que eu disse a mim mesmo: tudo o que eu for fazer, eu vou sempre integrar, agregar valores na multiplicidade. Então, quando eu concluí a medicina, ganhei uma bolsa para a Europa, para o Vaticano – don  Eloysio conseguiu pra mim -, onde eu concluí a teologia; depois fui pra França, fiz a psiquiatria, fiz a antropologia também. Quando eu voltei para o Brasil, voltei mais brasileiro do que fui e vim dizendo a mim mesmo: todo esse saber que eu aprendi, eu não quero que ele venha como um saber que destrói o anterior - guardando a imagem do ROBOCOP, se o Robocop no passado foi um guerreiro que foi consertado por toda aquela parafernália tecnológica, aquela nova máquina de vez em quando se lembra de uma imagem de uma criança, uma  lágrima, de um rosto de uma mulher; onde ele diz, parece que um dia eu já fui gente, mas a tecnologia diz, você é uma máquina, você é uma máquina, você não pode pensar, você não pode ter emoções, você não tem, isso aí é um parasita, isso aí é um vírus. Então, muitas vezes o medo é que a academia, quando a gente vai fazer uma faculdade, entra numa academia, o que a gente incorpora de saber novo geralmente exige a morte daquilo que a precedia. Acho isso uma de pobreza muito grande e um risco, porque eu fico como um samba de uma nota só. Eu poder agregar o valor, se eu tenho a sabedoria dos índios, que usam a sabedoria das plantas; se eu conheço pelo lado materno, lado paterno, a cultura africana que me traz outras informações sabre as raízes, sobre as plantas, aquilo que podem curar, sobre as energias negativas, as atenções;  se  outra cultura, como os orientais que falam da noção de energia como algo que circula, que tem que ser desbloqueada. Eu acho que quanto mais coisas chegam, mais rico fica e talvez até a bandeira do Brasil fosse mais realista; se fosse uma colcha de retalhos, traduzindo um pedacinho de cada coisa, do preto, do índio, do branco. É isso que faz a nossa riqueza. É a nossa pluralidade: pluralidade de culturas, pluralidade de percepções, pluralidade de condutas, podem coabitar. Talvez essa seja a única forma de nos fugirmos da lógica cartesiana, onde dois mais dois seja sempre quatro. Quando a gente integra os diversos saberes dois mais dois dá dezoito, dá vinte e dois, a gente atinge muito mais. Eu acho que isso que nós, que talvez eu tenha aprendido muito na minha vida seja isso: foi a relativizar o novo que chega respeitando o velho que lá esta; que não é um contra o outro mas  um com outro. Claro, que quando eles se encontrar produz choque, dor, barulho, mas também, melodia, ritmo; então, o choque tem que ser criativo e não destrutivo do outro.

10. A implantação da terapia comunitária

Depois nós vimos que o problema de alcoolismo era muito sério, e que o pai que bebia quando chegava o final de semana começava a violência domiciliar, o pré-adolescente que ia proteger a mãe, acabava semiferido ou matando o pai; que o problema era muito sério. Reunimos esses adolescentes, reunimos sempre nessa perspectiva de trabalhar as competências deles, não as carências. Chamamos, chegou quase duzentos: olhe, o pai de vocês que bebem, é um problema, uma doença; mas, não viemos aqui pra falar deles, falar de vocês, isso é uma pedra no caminho de vocês, qual é a competência de vocês... o que vocês gostam de fazer... já tinham dito de outra forma, riscando as paredes. Criamos o ateliê de arte e terapia; eles começaram a desenhar esses cartões – vendem a hum real, cinqüenta centavos e deles cinqüenta centavos e para comprar material para o projeto –, então começaram a construir. Entende... Quando tiver problema... fizemos uma pesquisa, observamos quem tem pai alcoolista em casa, no final de semana, foge do lar vai pra droga, prostituição ou seitas religiosas; contanto que chegue quando o pai esteja dormindo. Então, quando vocês tiverem problema em casa, venham pra cá... daí, foi feito uma casa e eles ficavam desenhando, comiam, passavam o dia lá e dormiam em casa. Passou a ser um espaço de proteção, que é o ateliê de arte e terapia, que já produziu alguns livros, inclusive: do sertão a favela, da exclusão a inserção social. Depois começaram as demandas por remédios: bronco-dilatadores e de problemas de pele. Aí eu me lembrei que a Universidade Federal do Ceará tem um programa chamado Farmácia Viva - que são aquelas plantas que os índios no passado utilizavam como sendo, tendo um valor terapêutico -, a universidade analisou aquelas que tem o principio ativo identificado constitui o programa Farmácia Viva... começamos a vender essas plantas e isso terminou sendo mais um recurso financeiro que entrava. Depois vieram as curandeiras que começaram a aparecer, depois de seis anos, com problemas muito... inclusive de depressão, problemas psicológicos, a gente agregou estas pessoas e vendo a sensibilidade delas e os recursos delas, nós propomos fazermos um trabalho de redução do estresse; eu disse: olha, sozinho não dá, remédio não resolve tudo, vocês que tem o dom de vocês... fizemos a oca de saúde comunitária, onde elas dão massagens antiestresse,  usando os recursos da cultura, como: massagens antiestresse, massagens com pedras mornas, com ervas, e elas passaram a ter, então, uma nova identidade. Foi dado um curso de extensão da universidade para elas de massagens antiestresse, então, elas passaram a agregar valor ao ato que elas já faziam. Agora, trabalhando contra estresse, criamos essas ocas de saúde comunitária. Depois eu comecei a me dar conta de que a maior miséria dentro da favela não é a miséria externa, da casa caindo, do lixo ao céu aberto, é a miséria interiorizada, do mais profundo dessas pessoas, onde elas não acreditam em si,  no seu potencial, esta é a pior miséria. A miséria mais grave é o indivíduo estar despossuído das suas crenças, de seus recursos, não é. Aí começamos um outro projeto chamado “cuidando dos cuidadores – resgatando a auto-estima da comunidade” pra que eles acreditem neles, nos seus recursos, naquilo que deus já deu, e não acreditar nos políticos, nos médicos, nos remédios que vem de fora. Acreditar neles. Não é. E  aí criamos esse projeto, esse programa hoje, que é semanalmente também, aonde as pessoas vem pra autoconhecimento, pra redução do estresse. Depois apareceu o teatrinho, uma pessoa que tinha trabalhado com teatro, mas estava desempregado, não tinha mais o que fazer, foi pra lá começou a juntar as crianças; agora tem o teatrinho. Este teatrinho cada vez que tem visita,  eles apresentam, ganham uma moedinha e dividem entre eles. Depois criamos uma escolinha, não pra ensinar português ou matemática, mas uma escolinha para trabalhar essas crianças que são vítimas de violências, de apelidos, de humilhações, pra que essas crianças tenham um complemento. Vão pra escola estudar matemática, essas coisas, e lá é pra trabalhar o sentimento, pra eles acreditarem neles, pra eles saírem daquela situação de sofrimento, de rejeição, de humilhação, em que eles vivem. E assim, graças à terapia comunitária as coisas foram se agregando e hoje nós temos o projeto “4 varas”. Não é. A terapia comunitária virou política pública federal e as ocas de saúde comunitária, que é a massagem antiestresse, do nosso curandeiro, virou política pública estadual do estado do Ceará, do estado de Fortaleza já estamos construindo a terceira oca, numa terceira favela, o ideal, a idéia, o projeto, é construir em cada área de risco esses espaços que trabalhem o sofrimento sempre ao lado de um posto de saúde, com medico, com dentista, com enfermeiro, mostrando que nós estamos num trabalho complementar: os postos de saúde trabalham a patologia; as ocas de saúde comunitária, o sofrimento; que o médico possa mandar quando percebe que o outro é mais sofrimento: vá fazer uma massagem, vá fazer o auto-estima. Este projeto tem 21anos, não nasceu da noite para o dia, não criei sozinho e nem foi fruto de momento de inspiração, mas foi muita transpiração coletiva, caindo, errando e acertando, aprendendo e partilhando. Esses saberes diversos pra mim tem sido muito rico.


11. A terapia comunitária no mundo

Começou pela França. Vieram, conheceram, disseram: mas isso nós estamos precisando dessa terapia de construções de vínculos. Primeiro nós fomos a Grenoble. Começamos a capacitar os profissionais, lá é mais institucional, na Europa não é como no Brasil, onde qualquer pessoa pode começar qualquer grupo em qualquer canto, lá, pra qualquer trabalho social precisa estar respaldado por uma instituição; você não pode simplesmente começar, é mais a instituição. Então, foi à escola de trabalhadores sociais, quer dizer, a faculdade de assistência social, os enfermeiros, alguns psicólogos. Capacitamos em Grenoble, depois Marseille se interessou, fomos também pra Marseille, depois foi Genebra, em Genebra é a escola de altos estudos sociais, já pegamos Genebra, Lousanne. Então, na Europa, já tem cerca de uns trezentos terapeutas comunitários treinados que estão fazendo trabalhos nas instituições, também. Já foi criada, inclusive, a associação européia de terapia comunitária, onde eles estão em rede, na Internet, trocando informações, é onde o livro terapia comunitária está sendo traduzido, já tem alguns capítulos que estão lá com as pessoas que podem ter acesso e agora por ultimo a itália recebemos o convite do dr. Maridice Andolfe, que é da academia italiana de terapia familiar, um dos sistêmicos mais conhecidos terapeuta de família. E vamos começar a formação em julho, agora, de 2008, na itália. A academia americana de terapia familiar também já me convidou para fazer uma apresentação, uma conferencia, como um método inovador, a associação mexicana de terapia comunitária, terapia familiar. Então a demanda a nível internacional esta sendo muito grande.  No ano 2000 eu participei dos debates do século XXI; fui convidado pela UNESCO a ir a Paris para fazer esta apresentação, onde eu apresentei a terapia comunitária como uma maneira de trabalhar com os excluídos, com agregação, com integração de saberes. Então, a demanda tem ampliado muito a nível internacional; Agora, já, Estrasburgo. Tem outras cidades. Uma vai tomando conhecimento da outra e vão querendo. Então, chegamos a um ponto onde nunca havíamos imaginado, nunca tive a pretensão de criar uma coisa, um modelo, e isso foi crescendo de um jeito que eu mesmo me admiro de ter chegado onde chegamos. Talvez porque as pessoas que participam da ABRATECOM, que receberam a formação, re-descobriram a sua humanidade. Encontraram uma nova forma de exercer a profissão com muito mais alegria, prazer e mais humanidade.  Eu acho que o segredo é esse: o respeito a diversidade, o nosso envolvimento. Porque nós, terapeutas comunitários, não vamos fazer terapia pro povo. Nós fazemos a nossa. Com eles nós crescemos, cuidando dos outros cuidando de nós; curando os outros, curamos a nós. Mesmos então, nós somos beneficiários por isso. Nós temos nosso salário afetivo que é a felicidade de fazer uma coisa que nos dá prazer.

12. Semelhança entre os povos

O que eles tem em comum é, eu diria, a fratura dos vínculos. com a migração as pessoas, ao migrarem, ao deixar suas cidade, eles vão perdendo vínculos com a terra, vínculos com os vizinhos, vínculos com a sua cultura, vínculo com seus valores, e terminam perdendo o juízo, que é a doença mental. Então, ele está num processo de perda vincular; ele está se isolando. Aqui são pelas questões materiais, pela seca, pelo não ter o que comer; você vai a cidade grande em busca de alguma coisa. Na Europa as pessoas já estão mais ou menos instaladas, não é, mas a fratura é no vínculo afetivo: não se abraça, como nós nos abraçamos; não se tocam, como nós nos tocamos. Então, é uma educação onde não se toca muito, onde é cada um por si, onde existe um individualismo muito grande que termina gerando um sentimento de solidão e de abandono. Lá é um abandono, um sentimento de isolamento existencial, aqui é estrutural do ponto de vista da materialidade das coisas, de como, o que nós temos em comum é nossa humanidade, que nós seres humanos somos gente dependendo de gente, precisando de gente; nós temos que nos aproximar um do outro.  Não é porque você é preto, branco, amarelo, azul, que é distante, que tem que estabelecer uma hierarquia. Então, é conviver com essa pluralidade. Em determinado momento temos que arregaçar as mangas para o trabalho. Um exemplo agora que está acontecendo, no próprio rio de janeiro, está sendo o foco, é a dengue. Graças a dengue o mosquito da dengue ainda um dia vai ser objeto de uma estatua de reconhecimento valorização porque graças a esse mosquitinho tão miudinho como nós estamos nos mobilizando cada indivíduo cada família cada comunidade cada instituição governamental estadual federal municipal quer dizer doméstico eu acho que por ai que os problemas da humanidade só vão poder ser resolvidos  no dia em que nós entendermos que a resolução passa por um esforço coletivo e não.. é muito mais pela transpiração coletiva do que pela iluminação a inspiração de um ser iluminado todos nós a nossa busca de soluções compartilhada procurando integrar saberes dos mais  diversos  contextos para construir uma rede de apoio solidário para que o humano suporte o drama próprio da humanidade agora com a situação ecológica com a situação da terra nós estamos caminhando para momentos de traumas coletivos e sociais com as enchentes  com os fogos, incêndios, então nós estamos indo agora mais para as patologias do universo então eu acho que nós esquecemos a nossa dimensão humana que é até animal  observe no mar as sardinhas que são pequenininhas são milhões como elas se salvam dos tubarões estando próximas uma ao lado o animal que morre é o que se isola ele é presa fácil para os outros bichos aves de rapina os pássaros são assim eu acho quando vejo na Europa a economia o estudo fez as pessoas de uma certa forma se isolarem tanto que estão vulneráveis a acidentes  vulneráveis a uma série de patologias então a terapia comunitária traz uma dimensão hoje de lembrar que muito das soluções estão também no coletivo nos unir unirmos força  estarmos próximos um dos outros como os animas que se salvaram ao longo da evolução foram os que tiveram capacidade de estarem próximos de salvaguardar a noção de grupo da coletividade no respeito as regras pra que não fique batendo um no outro eu acho que nós humanos muita vezes esquecemos com se fazer uma faculdade ser doutor é matar o índio matar o negro que nos habita tirar nosso afeto e a gente ser uma criatura sem afeto como se nós fossemos ou pudéssemos ser um robô melhor do que o próprio robô tecnológico então é pouco isso que eu vejo eu acho até positivo essas grandes tsunamis afetivas essas catástrofes que estão acontecendo ou ela nos uni cada vez mais e lá descobrimos nossa humanidade que nós temos que estar um do lado do outro apoiando é a nossa salvação do contrario vamos ser destruídos como muitos desses animais que se isolam.   

13. Questões mais freqüentes

É o primeiro lugar nos 12 estados foi estresse se não me engano de 27,2% primeiro é o estresse segundo são os problemas familiares relações familiares dos filhos com os pais na educação dos filhos escola terceiro se não me engano foi álcool e drogas problemas ligados a dependência depois a violência depressão estes são os cinco mais e fraturas dos vínculos sociais que é o sentimento de abandono preconceito foram esses que deram mais aliais nos 12 estados brasileiros todos cada estado manteve o estresse em primeiro segundo problemas familiares então mostra que nós estamos a terapia comunitária esta realmente intervindo nos determinantes sociais evitando que talvez daqui a 15 essas pessoas que hoje freqüentam as rodas não vão precisar ir pra hospitais. É uma resposta um pouco a longo prazo por isso que a gente tem que ter paciência pra chegar lá talvez daqui a 15 anos a gente possa de fato dizer reduziu isso reduziu aquilo por que nós estamos vendo os resultados.

14. Os Resultados

Pois é nós fizemos um estudo de impacto em 2005 2006 houve um convenio entre a universidade federal do ceará a secretaria nacional anti-drogas e o projeto 4 varas que é MISMEC o  movimento integrado de saúde mental comunitário nesse convenio que nós fizemos capacitamos cerca de 900 pessoas mais ou menos terapeutas comunitários com ênfase em álcool e outras drogas e fizemos 12 mil questionários que foram aplicados para saber quais são os temas mais freqüentes que vem o que as pessoas faziam pra resolver seus problemas e o que é que houve como resultado de impacto em cima desses 12 mil questionário nós observamos constatamos que 88,5% dos problemas tiveram resolução nas próprias rodas de terapia comunitária que apenas 11,5% foi preciso ser encaminhado para os especialistas nos postos de saúde então veja que apenas 11,5%  de fato precisava de um especialista porque era uma patologia e que 88,5% eram sofrimento que se resolve com acolhimento com a terapia comunitária com a massagem anti-estresse com o resgate do auto-estima que foi o que aconteceu então esse foi o impacto mais forte que nós constatamos e que permitiu ver que esse trabalho é um trabalho de prevenção que age lá na atenção primaria que impede que haja um aumento muito grande de demanda do especialista dos psicotrópicos dos remédios pra problemas que são de ordem existencial e sofrimento que com o social e os recursos simples podem ser resolvidos.

15. O princípio

             Quando voltei da Europa houve um concurso público na faculdade de medicina eu passei eu ensino saúde comunitária e na época eu dava aula pratica de psiquiatria no hospital das clínicas junto com outros professores da disciplina de psiquiatria e eu tenho um irmão que é advogado dos direitos humanos e que vive na favela e desenvolve um trabalho dos direitos humanos com essas pessoas que são mais vitimizadas e ele começou a me mandar um dois três casos que ele atendia como advogado que tinham também um componente psiquiátrico depressão alguma coisa enquanto era dois três eu colocava no meio dos outro que já estavam lá escritos só que um dia vieram oito já tinha quatro doze como que eu podia ver doze pessoas com doze estudante aí foi aí que eu disse diga a ele que não mande mais e que reúna as pessoas na própria favela que eu vou pra lá perguntei a meus alunos não professor se o senhor for a gente vai e eu fui com meus alunos cheguei lá tinha umas trinta pessoas todos atrás de um remédio querendo um medicamento e eu sem nenhuma possibilidade de dar esses remédios e então eu perguntei o que vocês vieram fazer viemos atrás dos nossos remédios então eu entrei no jogo então que bom porque eu também vim atrás do meu remédio para curar da minha doença aí me perguntaram e o senhor está doente de que eu disse vocês estão satisfeitos com os médicos que tem não porque não porque não olha pra a gente não pega na gente não dá a mão estão sempre apressados eu digo então pronto estou bem no local certo eu também não estou satisfeitos com os médicos que como professor da faculdade de medicina eu estou satisfeito com o produto que esta saindo são médicos distantes dessas realidade dessa cultura que não valoriza então eu vim aqui não foi resolver o problema de vocês não eu vim resolver o meu só pra eu resolver o meu eu preciso de vocês e cada um de vocês venha pra cá como vocês hoje estão aqui cada um venha buscar como solução resolver o seu problema e descubra que a melhor maneira de resolver o meu se passa na numa relação de uma comunicação com os outros então eu vim aqui  aprender a formar médicos mais humanos agora se vocês querem um nome para minha patologia minha doença eu vim me curar da minha alienação universitária eu vim com meus alunos com esse objetivo então eu vim resolver o meu cada um vem resolver o seu mas na opção de vocês eu não vou dar remédio eu não sou político que vim hoje aqui dar coisas a vocês eu vim dar a minha chance e agradeço a vocês por estar aqui vocês não me devem nada o que me trouxe aqui também não foi a culpabilidade cristã querendo ganhar o céu em outra vida eu estou mais preocupado em evitar o inferno nessa então que fique claro cada um aqui é doutor da sua vivência por isso cada um vai falar de si usando o eu eu sou médico tenho o saber da universidade mas vocês que são descendentes de africanos tem o saber dos índios dos africanos quem tem sessenta anos de vivencia tem uma experiência um saber então a nossa terapia vai ser a partilha destes saberes e experiência de vida e estávamos sem querer começando o que nós chamamos de terapia comunitária.     


       
02

Terapia Comunitária

Texto > Luiz Fernando Sarmento



Uma família pobre, dez filhos, naturais e adotados. Interior do Ceará, o pai trabalha num lugar após outro, na equipe que cava poços, a família acompanha. Cristãos. Adalberto quer ser padre. Conseguem bolsa num seminário. Aqui ou depois percebe que o índio que vive em si é ameaçado pela cultura que não é sua. Incomodado, prossegue os estudos, se forma em medicina. Faz teologia no Vaticano, filosofia na Itália, doutoramentos em psiquiatria e antropologia na França. Volta às suas origens, interior do Ceará, junta conhecimentos acadêmicos a sabedorias populares.

Cria uma metodologia simples que estimula solidariedades imediatas. Em roda, um espaço para quem deseje falar de problemas do cotidiano, de questões que afligem, trazem insônia, incomodam. O pai que bate na mãe, o filho que se droga, eu mesmo que não consigo trabalho. Ou que estou deprimido, sem perceber saídas.

Antes se combinam umas regras. Aqui não vale julgar nem dar conselhos. Todos terão oportunidade de falar. Não é um espaço para segredos. Só se fala a partir da própria vivência, da própria experiência. Cada fala começa com Eu – este talvez o maior desafio. Quando um fala, todos escutam. Se durante o andamento do encontro alguém se lembra de uma música, um provérbio, uma piada, uma história curta, levante a mão, peça licença, diga seu nome e conte ou proponha o canto. É lembrado, como estímulo à participação, que, quando não é falado o que está dentro de si, vem a gastrite, a depressão, o mal estar, a doença. Quando a boca cala os órgãos falam. Quando a boca cala os órgãos adoecem.

Alguém quer falar do seu problema? O silêncio inicial é seguido de desabafos. Problemas pessoais são apresentados. Quem coordena a roda - o terapeuta comunitário - ao final de cada fala, anota, tenta sintetizar, pergunta: veja se entendi direito. Seu sofrimento é porque você não consegue renda suficiente para manter sua família? Se é aceita a síntese, o terapeuta agradece, passa para outro, assim por diante. Quando casos suficientes são apresentados, propõe uma nova fase.

Peço que, resumidamente, os que desejarem indiquem o caso com o qual se identificam e digam porque. Um e outro se identificam com uma ou outra das questões apresentadas.

Agora vamos votar. Lembro que vamos escolher não o caso mais importante, mas o caso com o qual mais pessoas aqui presentes se identificam. Cada um só pode votar uma vez, todos podem votar. E, repetindo síntese feita anteriormente relativa a cada caso, solicita a votação para cada um dos problemas apresentados. Conta junto com todos e anota os votos. Agradece com atenção, nominalmente, a cada um dos que apresentaram suas questões. Deixa claro que, após o encontro, poderá conversar com aqueles que sentirem necessário.

Dirige-se agora àquele que apresentou o tema escolhido. Por favor, conte mais, para nós todos, sobre o que lhe aflige. Sempre com a intenção de cuidar, cada um de nós pode lhe fazer perguntas.  E o caso é contextualizado. Como exemplo, se o escolhido foi o do pai que bate na mãe: meu pai bate na minha mãe toda vez que bebe. Ele está desempregado, fica nervoso, bebe. Minha mãe não sabe o que fazer, nem eu, o filho, sei. Sofre calada. Entro na frente, defendo minha mãe, acabo apanhando também. Quando passa a bebedeira, muda tudo. Meu pai sofre com sua fraqueza, fica num canto, mudo, os olhos tristes...

Um faz uma pergunta, outro outra, até o momento que o terapeuta, considerando suficientes as informações, solicita, pelo nome, a quem apresenta seu sofrimento: José, estamos agradecidos por você compartilhar conosco o problema que vive. Pedimos agora que você ouça, em silêncio, o que alguns de nós vamos falar aqui.

 E lança um mote, que pode ser específico – quem já teve em casa um pai que bate na mãe e pode agora compartilhar conosco sua experiência? Ou um mote que amplia o tema: quem já sofreu violência doméstica e pode compartilhar conosco sua experiência? Quem desejar falar, por favor, levante o braço, espere sua vez, diga seu nome.

Um após outro são apresentadas situações semelhantes. Minha vó também apanhava muito do meu avô, que era muito bravo e ignorante. Até que um dia nós combinamos e falamos juntos para ele: ou o senhor para e se cuida ou nós vamos tomar uma atitude, vamos embora, vamos pedir ajuda a quem o senhor respeita. Alguém chora. Outro apresenta uma música, inicia e quem sabe acompanha: encosta sua cabecinha no meu ombro e chora... E os compartilhamentos de casos vão se sucedendo.

Já a caminho da finalização, o terapeuta convida todos para ficarem de pé, mais próximos, ainda em roda, braços nos ombros ou na cintura. Sugere um balanço de corpo coletivo. Alguém lembra uma música. Tou balançando, mas não vou cair, não vou cair... O terapeuta pergunta: o que estou levando daqui? Um diz Calma, outro Conforto, mais um Solidariedade.

Devagar a roda se desfaz, um e outro se abraçam, formam-se duplas e grupos de conversas. A confraternização traduz a humanidade presente.

Os encontros de Terapia Comunitária são abertos. Há os que vão com freqüência, há os esporádicos. Há jovens, velhos, adultos, pobres, ricos, classe média. Têm em comum a possibilidade de se compreenderem emocionalmente.

No mesmo encontro surgem questões variadas. Desde o adolescente – que vou fazer da vida agora que terminei o segundo grau, preciso ganhar dinheiro e não me sinto preparado nem para escolher uma profissão nem concorrer no mercado -, passando pela senhora classe média alta (fomos assaltados na rua, meu marido foi baleado, eu gritei desesperada à procura de ajuda, mas ele morreu ali, nos meus braços... e meu filho hoje me culpa pela morte do seu pai... como sofro...), até a moça que sofre, com os filhos, violência doméstica e não sei o que fazer.

As identificações são quase sempre imediatas. Os relatos correlatos emocionam e confortam um e outro. A solidariedade se instala, independente de classes, raças, credos, gêneros. Somos semelhantes, estamos próximos.

Adalberto de Paula Barreto, criador da metodologia, em entrevista a Letícia Lins e Isabela Martins, d’O Globo, 22 de abril de 2007:
Na favela lidamos com a miséria material que nutre a miséria psíquica.
Já na Suíça, encontrei a miséria afetiva, o esfriamento das relações.
Na Europa, não achei favelas miseráveis como as nossas,
mas encontrei favelados existenciais.

Terapia Comunitária hoje, no Brasil, é uma política pública. Há núcleos de formação em diversos Estados.
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Saiba + sobre Terapia Comunitária:

S         Associação Brasileira de Terapia Comunitária – ABRATECOM

Link

S         Vídeos
            . Terapia Comunitária, conversa com Adalberto de Paula Barreto
            . Terapia Comunitária, uma roda em Minas Gerais
            . Retalhos: Terapia Comunitária – depoimentos de terapeutas
            . Terapia Comunitária, projeto 4 Varas

Links:

S         Livros
. Terapia Comunitária Passo a Passo, de Adalberto de Paula Barreto,
   edição do autor, Fortaleza, CE, 2005 

. O Índio que Vive em Mim – O Itinerário de um Psiquiatra Brasileiro,
  de Adalberto de Paula Barreto e Jean-Pierre Boyer,
  Terceira Margem Editora, São Paulo, SP, 2003

                Exemplares:
Raquel Abreu
(85) 3286-6049
(85) 9987-3210



03

TERAPIA COMUNITÁRIA
entrevista com
Adalberto de Paula Barreto

in RADIS-Comunicação em Saúde, revista da FIOCRUZ



TC TERAPIA COMUNITÁRIA NA FIOCRUZ
+ Entrevista ADALBERTO BARRETO

A RADIS-Comunicação em Saúde, revista da FIOCRUZ,
edição de março de 2008,
traz como matéria de capa TERAPIA COMUNITÁRIA.

TERAPIA COMUNITÁRIA NA FIOCRUZ

Um Oásis para a Autoestima:  http://www.ensp.fiocruz.br/radis/67/capa.html

“A nossa dor não é só nossa”:  http://www.ensp.fiocruz.br/radis/67/capa-02.html

Entrevista ADALBERTO BARRETO > 
“Aqui o remédio é a palavra” :  http://www.ensp.fiocruz.br/radis/67/capa-03.html



Um oásis para resgate da auto-estima


Adriano De Lavor
 

Ela sorri para a foto e pede que a câmera também enquadre seus santinhos, suas flores e os enfeites que cuidadosamente guarda em cima de uma mesinha. Solta os cabelos, arruma os diversos colares em volta do pescoço e segura, como se fossem mágicas, as quatro varas que simbolizam o projeto que a acolheu. Aos 67 anos, a vida de dona Zilma Saturnino é outra, desde que se tornou uma das cuidadoras da oca de saúde comunitária.

Ela conta que nasceu perto do Açude João Lopes, no bairro Ellery, periferia de Fortaleza. “Era doente até vir me tratar com doutor Adalberto”. Depois de um período de internamento no Hospital Psiquiátrico Mira y Lopez — de onde fugiu —, Zilma encontrou apoio no Projeto 4 Varas, onde pôde exercer a vocação para cura. “Eu era doente porque tinha o dom e não sabia”, diz. Foi numa das sessões de terapia comunitária que ela se (re)descobriu rezadeira.

O doutor Adalberto relembra. “Dona Zilma era doida de pedra. Mas quando chegou aqui, não olhei a patologia: disseram que era curandeira. Um dia, uma pessoa passou mal, segundo ela era um encosto. Ela foi lá, rezou e, depois que terminou, as pessoas começaram a pedir que ela rezasse aqui e ali. Não deu mais tempo de endoidar”.

A massoterapeuta Cléia Rodrigues Monteiro chegou ao projeto há nove anos, também à procura de ajuda. Relata, sorridente, à porta da sala que ocupa na oca de saúde comunitária, que sofria de depressão desde jovem e reclamava de um entalo. “Quando Cleinha se curou, começou a mandar pessoas pra cá”, recorda Adalberto, que identificou naquela senhora a capacidade de mobilização na comunidade. “Vi que ela tinha capilaridade, conseguia formar uma rede de suporte e de apoio social”, lembra. No início relutante, fez o curso de massagem. “Você cuida muito bem dos outros, venha aprender a cuidar melhor”, dizia Adalberto para convencê-la.

Situação semelhante viveu dona Francisca, que chegou à casa “neoleptizada, babando, inclusive impregnada”. Adalberto conta que até ela se surpreendeu pela maneira como foi recebida: “Disseram que a senhora é rezadeira. Meus remédios sozinhos não dão conta de tanto estresse e sofrimento. Vou precisar de gente como a senhora”, disse o médico. “O senhor acha que vou ficar boa?”, duvidou Francisca. “A senhora nasceu assim? Não! Não se preocupe que vou te tratar”.

Adriano De Lavor

Zilma, Cleinha e Francisca são apenas três dos muitos perfis que comprovam a resolutividade do trabalho de terapia comunitária realizado há 20 anos na Favela do Pirambu, comunidade que abriga cerca de 50 mil pessoas na periferia de Fortaleza. O responsável pela iniciativa é o psiquiatra e antropólogo Adalberto Barreto. Desde que começou a reunir as pessoas para escutar seus problemas à sombra de um cajueiro, no mesmo terreno onde agora está instalado o projeto, ele defende a parceria entre o saber científico e o popular no tratamento dos transtornos mentais.

Hoje, sentado no mesmo local, ele festeja a concretização de um projeto que atende mensalmente 1.200 pessoas e enfrenta, ao mesmo tempo, a patologia e o sofrimento. “Aqui temos um posto de saúde do PSF, onde se trabalha a patologia com o médico, o enfermeiro e o dentista, e um espaço onde se trabalha o sofrimento, com a massagem, a argila com pedras mornas, o banho de ervas e a reza com curandeiros”, resume. Assim é possível aproveitar, de forma complementar, o saber dos especialistas e a sabedoria popular, que enfrenta o sofrimento “promovendo a saúde e reduzindo danos”.

Desde 2006, o projeto — iniciativa com o Departamento de Saúde Comunitária e a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC) — recebe apoio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, que tem convênio de financiamento e apoio técnico para os serviços prestados — por exemplo, o pagamento do salário dos massoterapeutas. O apoio foi decisivo para a reforma dos equipamentos já existentes e para a construção de uma unidade básica de Saúde da Família, que funciona em dois turnos e é monitorada por equipe que reúne médico, enfermeira, auxiliar de enfermagem, agente comunitário de saúde, dentista e auxiliar de consultório dentário.

O atendimento do posto de saúde chega aos domicílios cadastrados no entorno — cerca de 1.000 residências, segundo a Secretaria Municipal de Saúde — e presta serviços de imunização, aerossolterapia (terapia por nebulização) e prevenção de câncer do colo do útero. Adalberto destaca a parceria entre as duas instâncias: as pessoas tanto são encaminhadas da unidade de saúde às terapias complementares, como podem ser orientadas nos serviços comunitários a procurar apoio de especialistas, quando necessário.

Além da unidade de saúde, o complexo 4 Varas conta hoje com a oca de saúde comunitária, para as massagens, os banhos e as rezas, a tenda das sessões de terapia comunitária e de resgate da auto-estima, a farmácia viva — onde são cultivadas ervas medicinais, cuja venda auxilia na autonomia financeira do projeto —, o ateliê de arte-terapia e a casa de acolhimento, onde se hospedam pesquisadores visitantes e são recebidas as pessoas que necessitam de repouso.

Também fazem parte da estrutura física local a Casa da Memória — que dispõe de acervo de fotos, áudio e vídeos sobre a história da terapia comunitária, do projeto e da comunidade —, uma escola que atende cerca de 100 crianças carentes da favela e o grupo de teatro Zé e Maria, que reúne 30 jovens da comunidade.

Parece um oásis, encravado numa das comunidades mais violentas da capital cearense, cercado de coqueiros e outras árvores frutíferas, salpicado de verde nos canteiros com ervas medicinais e nos jardins que emolduram os prédios. As construções utilizam materiais locais, como a madeira e a palha da carnaúba, que se harmonizam com as redes sempre armadas e os móbiles feitos de concha, que balançam ao sabor do vento. A ambientação, baseada em elementos locais, cumpre a função de deixar à vontade quem ali procura tratamento: “É um espaço para acolher o sofrimento, a dor da alma”, abrevia Adalberto.

VÍNCULOS INQUEBRÁVEIS


Outros elementos também simbolizam a participação da comunidade. A estátua de um índio segurando as quatro varas que batizaram o projeto lembra que a união faz a força: enquanto as varas estiverem juntas, fortes serão; separadas, se tornam fracas e podem se quebrar. Outra referência simbólica é a teia de aranha pintada no chão da tenda onde acontecem as sessões terapêuticas: seus fios representam a fortaleza dos vínculos desenvolvidos pela comunidade naquele espaço — com a terra, com as tradições, com o conhecimento científico e entre eles mesmos.

Na visão do terapeuta, a estratégia deste ambiente familiar é mais uma diferença entre o 4 Varas e os serviços que, mesmo na melhor das intenções, acabam “medicalizando o sofrimento”. “Observamos que a maior parte das pessoas que vai aos postos de saúde quer ser acolhida e desabafar”. Ele sintetiza a proposta com um questionamento: “Uma mãe ansiosa e desesperada porque o filho entrou no mundo das drogas precisa de psicotrópico para dormir ou ser acolhida?” Ele mesmo responde: “Ela pode melhorar com uma massagem, onde possa chorar, falar, ser acolhida e compreender”. Ao mesmo tempo, Adalberto deixa claro que o trabalho não desconsidera nem desvaloriza a medicina tradicional: “O que queremos fazer aqui é medicina popular em complemento à medicina científica”, afirma. “Não estamos em competição, não brigamos pela patologia”.

Nessa via de mão dupla entre o saber científico e o popular, quem sai ganhando é a comunidade, que conquista melhor qualidade de vida e alça novos vôos. Em janeiro de 2008, um grupo de 11 pessoas acompanhou Adalberto e o secretário de Saúde de Fortaleza, Odorico Monteiro, em viagem à cidade de Grenoble, na França. Convidada pela prefeitura local, a comitiva apresentou, durante 15 dias, a experiência inovadora do Projeto 4 Varas a pesquisadores europeus. Entre eles, dona Zilma, testemunha viva de que acolhimento e escuta transformam doidos de pedra em gente que distribui acolhimento e apoio. è

Terapia comunitária

1 - Um oásis para resgate da auto-estima
2 - “A nossa dor não é só nossa”
3 - Entrevista: ADALBERTO BARRETO
   “Aqui o remédio é a palavra”


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“A nossa dor não é só nossa”


Adriano De Lavor

   
Gente de todas as idades na sessão comunitária (ao alto). “Paz para você, que veio participar”, acolhe seu Zequinha. O doutor Adalberto (embaixo, à esquerda) chega logo: muitas vitórias em 2007
   
“Este ano quero paz no meu coração... Quem quiser ter um amigo, que me dê a mão...” Saída do pequeno aparelho de som, a música dos Incríveis confere um clima de fim de ano, bem apropriado à última sessão de terapia comunitária de 2007. Enquanto as pessoas vão se acomodando, seu Zequinha, facilitador do encontro, sugere que os participantes batam palmas, no ritmo da canção. Cumprimenta um, afaga a cabeça de uma criança, acena para outro com um sorriso largo no rosto.

Gente de todas as idades está reunida no salão terapêutico do Projeto 4 Varas, como acontece em todas as tardes de quinta-feira. Esta sessão tem apelo especial para as crianças. Como última do ano, prevê apresentação teatral ao fim do encontro, com sorteio de brindes de Natal. Por isso mesmo, falta espaço nas cadeiras que circundam a teia de aranha pintada no chão — o símbolo da comunidade. Mas não há problema: os que chegam por último sentam-se na amurada que dá suporte às paredes — que, assim como teto, são feitas com palha de carnaúba.

À sombra da luz natural da tarde e embalado pelo vento característico da orla de Fortaleza, seu Zequinha, terapeuta comunitário formado pelo próprio projeto, sugere que cada um cumprimente, “com um aperto de mão e um abraço”, a pessoa que está a seu lado. “Paz para você, que veio participar”, canta ele, lembrando que aquele é um local para desabafar, compartilhar inquietações e “tudo aquilo que nos tira o sono”.

Cada um pode falar de suas dificuldades, mas não são permitidos críticas ou julgamentos, lembra: “Aqui não se dá conselho nem se faz discurso; não se fala em tese, mas sim, em dificuldades”. Em clima de descontração, cumprimenta os aniversariantes do mês e passa a palavra ao doutor Adalberto, que acaba de se acomodar numa das cadeiras, rodeado de crianças. O psiquiatra, de bermuda e sandália, avisa que é hora de escolher o tema com o qual trabalharão naquele dia. Como se faz silêncio, ele estimula o grupo com um argumento convincente. “Aquilo que eu não digo com a boca eu vou dizer com gastrite, com depressão ou qualquer outra doença: o que a boca cala, os órgãos falam”.

Pede a palavra Sebastião, que se diz angustiado, já que a filha de 16 anos fugiu de casa “com um cara”. Ele não sabe como proceder. Quer o melhor para ela, mas não consegue perdoá-la. “Temos a fuga da filha do seu Sebastião. Mais alguém com problema?”, instiga Adalberto. Percebendo o silêncio e a impaciência de uma mulher, indaga: “A senhora quer dizer algo?”. Ela só chora e nada diz. “Como é seu nome? O que a senhora quer dizer?” Ela só abana a cabeça e diz que está “com um entalo”.

“Dona Marli tem um entalo. Alguém pode ajudar?”. Do outro lado do salão, uma vizinha de Dona Marli se apresenta e diz: “Já sofri muito com este entalo”. Doutor Adalberto pergunta se a vizinha pode falar do caso. Com a anuência de Marli, a outra diz que o problema está na gravidez da filha de 14 anos. Nesse momento, a mãe preocupada desabafa, com muitas lágrimas. Conta que o rapaz que engravidou a filha já se comprometeu em assumir a criança, “mas vive com outra”. Ela diz sentir “ódio” da filha naquele momento. “Não agüento nem olhar pra ela!”

O terapeuta acalma dona Marli e inicia o processo de votação do tema com o grupo. A ampla maioria decide ajudá-la. Adalberto relembra as regras seguidas a cada sessão. No primeiro momento, todos podem fazer perguntas a dona Marli. Na segunda fase, quem já viveu situação semelhante pode contar sua história. A partir daí, o grupo se movimenta para saber mais sobre o caso. “A menina estuda?”; “como descobriu que a filha estava grávida?”; “qual foi a reação do pai?”; “a senhora engravidou com que idade?”, indaga um menino que não aparenta mais de 10 anos.

É aí que Adalberto intervém com uma pergunta crucial. “Dona Marli, a senhora não acha que está vendo a senhora mesma na sua filha? As vezes a gente sofre por perceber no outro uma situação que aconteceu com a gente”, diz ele. Ela relata que ficou grávida muito jovem e sofreu muito, em especial com a falta de apoio do marido. Ele tranqüiliza a mãe preocupada com bom humor: “Dona Marli, a senhora estava entalada com um espelho! Estava vendo a senhora, e não sua filha!”. Ela já esboça um sorriso, quando ele orienta para o início da segunda fase da terapia.

VITÓRIAS DIVIDIDAS


Seu Sebastião, que assistia a tudo calado, apóia dona Marli, contando que sentiu o mesmo que ela; um senhor de idade comenta que ele e a mulher passaram a mesma situação com a neta, mas já se acostumaram à idéia; a jovem em frente, com uma criança no colo, conta que ficou grávida do primeiro filho aos 15 anos e sofreu tudo aquilo. “Quando minha mãe viu o neto, lindo e saudável, fez as pazes comigo. Hoje, sou feliz com meus dois filhos”. A esta altura, dona Marli, bem mais calma, recebe o abraço da vizinha e declara que vai “dar tempo ao tempo”. Enxuga as lágrimas, agradece a solidariedade do grupo e sorri, finalmente aliviada.

Como é a última sessão do ano, doutor Adalberto estimula as pessoas a declararem qual foi sua maior vitória em 2007. Entre um gole e outro do chá de erva cidreira que circula em bandejas e uma mordida no bolo de milho quentinho, a palavra é dada a todos. Muitos festejam o novo emprego, a reforma da casa, uma conquista dos filhos; uma senhora se orgulha por ter recebido alta de um Caps; seu Sebastião compartilha a felicidade de ter se livrado do álcool e das drogas; dois meninos dividem as vitórias num campeonato de surf; um rapaz se alegra em contar que passou no vestibular, outro se anima ao relatar como conseguiu superar as dificuldades e hoje pode sustentar, sozinho, a mulher, o filho recém-nascido e a mãe idosa, depois de anos desempregado.

A maioria considera sua maior vitória simplesmente poder ter estado ali, durante todo o ano, dividindo angústias e preocupações. Ao fim, é doutor Adalberto quem revela suas maiores conquistas em 2007. Para ele, uma delas foi o Projeto 4 Varas ter recebido a visita de Margareth Chan. “Para vocês terem uma idéia, receber visita da diretora da OMS é como uma paróquia receber o papa”, diz.

Outra vitória, segundo ele, foi a ligação do ministro Temporão informando que a terapia comunitária seria política pública de saúde em todo o país. “Não há dinheiro que pague essa conquista”, disse Adalberto, sob aplausos. Encerrada a rodada de depoimentos, o grupo se põe de pé e começa a cantar, de braços dados, a melodia: “Tô balançando, mas não vou cair. Tô balançando na terapia, mas não vou cair...” Enquanto o grupo se movimenta, coeso, o terapeuta estimula: “A gente não cai porque está apoiado pelo outro. É no ombro amigo que se descobre que a nossa dor não é só nossa. Esse é o movimento da vida”. Olhos emocionados diante do encontro, ele resume a proposta do projeto: “Sair da rigidez. Toda convicção é uma prisão. A terapia é pra gente tirar essas convicções”.

Com um abraço coletivo, o encontro se encerra, mas ninguém sai dali. Ainda há o sorteio dos brindes que eles mesmos trouxeram, e a encenação de Natal que desde cedo deixa as crianças ansiosas. E, para o ano que começa, ficam as estrofes da mesma música que iniciou a sessão: “Sonhos que vamos ter / Como todo dia nasce novo em cada amanhecer...” è

Terapia comunitária

1 - Um oásis para resgate da auto-estima
2 - “A nossa dor não é só nossa”
3 - Entrevista: ADALBERTO BARRETO
   “Aqui o remédio é a palavra”



Entrevista
ADALBERTO BARRETO

“Aqui o remédio é a palavra”


Adriano De Lavor

O Projeto 4 Varas, um achado para a gente pobre abandonada nas comunidades — e por que não para gente rica também? — parece simples nas palavras de Adalberto de Paula Barreto. Essa simplicidade talvez venha de seu amplo currículo. Três graduações, em Medicina (UFC), Filosofia e Teologia (França e Itália), dois doutorados, em Psiquiatria pela Universidade René Descartes, a antiga Paris V, sobre “a comunicação com a família do esquizofrênico”, e em Antropologia, pela Université Lyon 2, sobre “a medicina popular no sertão do Ceará hoje”. Quem sabe venha da experiência de 20 anos em terapia comunitária, cujo primeiro pólo ele criou em 1986 com tanto êxito que já supera os 500 mil atendimentos. Mais provável que seja a combinação de academia e prática, bem ao gosto dele.

Na terapia comunitária, a medicina convencional do PSF se escora nas medicinas populares e no acolhimento ao desabafo. Antes de mais nada, todos falam, ouvem e se vêem uns nos outros — a relação do espelho de Freud. “Aqui o remédio é a palavra”, diz Adalberto nesta entrevista dada à Radis em dezembro na sede do 4 Varas.

Como entender o Projeto 4 Varas?

Entre patologia e sofrimento. Temos um posto de saúde do PSF e lá se trabalha a patologia, com médico, enfermeiro, dentista. Aqui se trabalha o sofrimento e a promoção da saúde, usando curandeiros e recursos disponíveis da cultura, como massagem, argila com as pedras mornas, banho de ervas e rezas. Então, são duas medicinas complementares: lá, a patologia com os especialistas; aqui se trabalha o sofrimento promovendo a saúde e reduzindo os danos.

Para que as redes?

Temos as redes armadas para as pessoas se deitarem. A casa acolhe o sofrimento, a dor da alma numa massagem, por exemplo. Observamos que a maior parte das pessoas que geralmente vão aos postos de saúde quer ser acolhida e desabafar, e muitos hospitais e postos estão medicalizando o sofrimento, os problemas existenciais. Uma mãe ansiosa e desesperada porque o filho entrou no mundo das drogas precisa de um psicotrópico para dormir ou ser acolhida? Na massagem ela pode chorar, falar e compreender. Essa é a distinção que queremos fazer aqui, uma medicina científica e popular que aja de forma complementar. Não estão em competição, não estão brigando pela patologia.

Como funciona?

São seis massoterapeutas pagos pela prefeitura. As pessoas encaminhadas pelo SUS recebem a massagem gratuitamente. Vem gente da comunidade mandada pelos médicos do PSF, dos CAPS. Fazem 10 massagens duas ou três vezes por semana e participam da terapia comunitária, de resgate da auto-estima. É a terapia comunitária virando política pública do Ministério da Saúde. A Fiocruz vai ter um pólo formador desta metodologia.

Essa união com a medicina alternativa é o ideal para a saúde pública?

Acho que sim. Não diria medicina alternativa, porque o alternativo pressupõe a exclusão do diferente. Eu chamaria de medicinas complementares. Temos um modelo biomédico centrado na patologia, no medicamento, uma medicina muito cara. Mas existe no cotidiano muito sofrimento decorrente do estresse, da educação dos filhos, do desemprego. Este sofrimento no passado era tratado por benzedeiras, padres, pajés, havia essas instituições de escuta, de apoio. Com a modernização da sociedade, a tendência é jogarmos isso fora e medicalizarmos o sofrimento. Quando vim para a favela, dei-me conta de que a maior parte das pessoas que vinham falar comigo trazia uma dor na alma que psicotrópicos não resolveriam. Não que eu seja contra: cabem em determinados momentos. Percebi que se ficasse medicalizando os problemas existenciais acrescentaria mais sofrimento. Descobri que não podia exercer a psiquiatria do mesmo jeito do hospital, onde diagnostico e prescrevo medicamentos. Mesmo quando podia prescrever as pessoas não podiam comprar. Essas foram algumas dificuldades.

Estar na comunidade também é um diferencial do projeto?

A gente contextualiza melhor esse sofrimento. Quando uma pessoa diz que está com insônia, a insônia é o sofrimento e a cura é voltar a dormir. A tendência é prescrever um psicotrópico. Quando se está na comunidade e vem uma mulher chorando, com insônia ou engasgo porque a filha de 14 anos engravidou, essa mulher precisa de um psicotrópico, um benzodiazepínico? Ou precisa ser desengasgada pela própria comunidade? Quando a boca cala os órgãos falam: se essa mulher não se desengasgar hoje entra em processo depressivo, de doença mesmo. Então, a terapia comunitária, numa proposta inicial, é criar um espaço de palavra. Aqui o remédio é a palavra. Ela é para quem fala, é para quem ouve. Na troca a comunidade cria vínculos, vai se reconhecendo no apoio. Partindo de uma situação-problema, a mãe viu que 15 pessoas já viveram isso, inclusive na situação contrária: a filha que diz, eu também engravidei com 14 anos. Ela se vê na filha, a relação do espelho de Freud. E entende que tem que ter calma, sabedoria e tolerância.

E gente que vem se tratar acaba tratando...

A Cleinha, quando veio, era também uma pessoa entalada. Quando se curou começou a mandar pessoas, e de tanto mandar vi que tinha capilaridade na comunidade, capacidade de formar uma rede de apoio social. Veio o curso e a convidei. Dona Zilma era doida de pedra, alguém disse que era curandeira também. Um dia estávamos numa terapia e uma pessoa passava mal: ela disse que era um encosto. Então, eu disse, se a senhora sabe o que é, vai fazer, eu não sei. Ela foi, outras pessoas começaram a pedir que ela rezasse e depois não deu mais tempo de endoidar. Dona Francisca me trouxeram neoleptizada, tomava vários remédios, babando. Alguém me disse, ela é rezadeira da umbanda. Eu disse a ela, os meus remédios não dão conta de tanto sofrimento. Ela olhou para mim babando e disse: você acredita que eu vou ficar boa? A senhora não nasceu assim, vai ficar boa. Fui tirando a medicação e orientando, terapia e conversando. Hoje é uma das nossas curandeiras.

Abordagem que olha mais a saúde do que a doença...

Por isso dá certo. Nossas rezadeiras são pessoas desvalorizadas em busca de valor. O doutor não cura câncer, a minha reza cura câncer, dizia, para se valorizar. O meu trabalho tem sido dizer: a medicina de vocês não é para combater a patologia, eu cuido da promoção da saúde. Aí as duas medicinas se aproximam, se valorizam e são complementares. Cada uma é rica naquilo em que a outra é pobre. A medicina popular é rica no afeto, no acolhimento, mas é pobre no tratamento da patologia. Já a medicina científica é rica no arsenal de antibióticos e psicotrópicos, mas humanamente é uma favela existencial. Quando me aproximei dela aprendi a acolher melhor e a valorizar os recursos que se tem. Agreguei valor ao ato médico.

Explique melhor.

Desde o início a nossa pedagogia é centrada na competência, e não na carência. Vivemos num modelo de influência judaico-cristão que valoriza o que não funciona, o pecado, o negativo. Esse modelo desestabiliza o indivíduo, culpabiliza o outro. A pessoa culpabilizada se desestabiliza e busca o salvador. O modelo do salvador da pátria se baseia na carência e no negativo. A nossa imprensa só evidencia o que não funciona, o que funciona não dá notícia. A educação é a mesma coisa: seu filho faz tudo normal, ninguém diz nada, mas se faz alguma coisa errada, o sermão é deste tamanho. Ninguém quer compreender o que funciona, porque não dá status. Sempre conto uma história sobre dois índios tomando banho num rio e vêem duas crianças morrendo afogadas. Salvaram os dois, apareceram quatro, oito, 16. Um dos índios disse: você salva o que puder que eu vou ver quem está jogando esses meninos na água. O índio que ficou salvando os afogados é a nossa medicina curativa: acha que só ela salva, tem as estatísticas, precisa de bons salários, de melhores condições etc. e tem um discurso crítico desvalorizador de quem vai fazer a prevenção e a promoção da saúde, que considera “turista”, “sonhador”.

A medicina popular...

Nossa luta é dizer: você que está salvando o outro, teu trabalho é tão importante quanto o de quem está fazendo a prevenção e a promoção da vida. Aí, no ano passado veio o estudo de impacto da terapia comunitária: 2 mil questionários em dois estados, 88% dos problemas resolvidos in loco, apenas 11,5% encaminhados aos postos de saúde.

Ela já existe em todo país?

Hoje, sim. Já treinei 11 mil terapeutas comunitários, temos 30 pólos formadores no Brasil — a Fiocruz será o 31º. Já foi criada a Associação Brasileira de Terapia Comunitária (www.abrapecom.org.br). O impacto foi esse: apenas 11,5% dos problemas encaminhados aos postos. Multiplique isso por milhares... Há um enxugamento nos postos de saúde, ou seja, o índio — ou o médico — que salva os que estão morrendo continua salvando, respira melhor. Então, nossa idéia é complementar o cuidado. Nós na promoção também tendemos a ridicularizar e menosprezar o trabalho da medicina científica, mas precisamos tanto dela como ela da nossa.

A expectativa de trabalho do PSF...

Exatamente. A academia produz conhecimento, mas a experiência de vida também. Tenho observado: damos melhor o que não recebemos, ensinamos melhor o que precisamos aprender. As que não foram amadas e foram rejeitadas estão acolhendo, as que foram violentadas estão dando massagem, acolhendo a dor do outro. Até hoje uso a metáfora: a ostra que não foi ferida não produz pérola. A pérola é resposta a uma agressão. Toda família está ferida. As vitórias do ano são: meu marido deixou de beber, comprei minha casa, arranjei emprego. Se as pessoas arranjam emprego ficam mais autônomas, conquistam as coisas. Nós intervimos nos determinantes sociais da saúde, evitamos que essa pessoa vire cardiopata, diabética, e daqui a 15, 20 anos precise de tratamento caríssimo. Nosso trabalho é intervir nos determinantes sociais usando os recursos da comunidade, a argila, as mãos, a música e a sabedoria produzidas pelas carências de vida. Eles faziam isso no anonimato, sem reconhecimento. Minha função é oficializar esse poder.

Que conselho dar a quem está se formando em terapia comunitária ou se interessou e não sabe por onde começar?

O curso se faz para acabar com a mania de querer curar o povo. Temos duas fontes geradoras de competência, a academia e a experiência de vida. O saber da academia nos dá identidade profissional como médico, dentista e enfermeiro, o salário financeiro, o saber pela competência. No sofrimento temos ainda o salário afetivo: não é preciso ser médico, enfermeiro, não precisa ter faculdade para exercer a terapia comunitária; não precisa ser psicólogo porque não vai fazer análise, não precisa ser médico porque não vai prescrever remédio. Precisa ter engajamento com a comunidade, uma ação cidadã que transcenda classe social, profissões. Cuidando do outro, curo a mim mesmo.

Como é a capacitação?

São quatro módulos em quatro dias em regime de internato, com intervalo de dois meses, ao longo de um ano. As pessoas vão aprendendo as técnicas de como garimpar a pérola das feridas da vida. Começam por um trabalho pessoal. Como será um trabalho de acolher o outro e escutar, tem que aprender a valorizar e a escutar. É muito prazeroso, porque além do salário financeiro há o salário afetivo. Partimos do pressuposto de que a primeira escola é a família, e o primeiro mestre, a criança que fomos. Com a minha criança aprendi muita coisa. Numa família em que os pais se disputam de forma injusta, a criança que observa se torna mediadora. Sempre atribuímos competência a um livro que lemos, a um curso, jamais ao que vivenciamos. Na terapia comunitária, fazemos a pessoa perceber que a competência dela se inscreve em sua história de vida. Com mulheres injustiçadas pelos maridos descobre-se que em casa a mãe vivera esta situação. Compreender isso dá empoderamento, capacidade para um trabalho genial. O seu Zequinha fala errado, mas quando não estou dirige toda a terapia. Como ele entendeu o espírito, ele faz.

Sem ser médico nem enfermeiro...

Diria que para ser terapeuta comunitário tem-se que gostar de trabalhar com comunidade, tem que aceitar fazer um trabalho sobre si mesmo para desconstruir os modelos mentais que nos foram construídos. Não precisa ser médico nem enfermeiro. Se for, agrega valor. Vai descobrir que não é o salvador nem o bombeiro da pátria: vamos encontrar soluções partilhadas. A pessoa tem o problema, nós temos problemas e a solução vem da partilha. (A.D.L.) n

Terapia comunitária

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2 - “A nossa dor não é só nossa”
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Adriano De Lavor

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Saiba + sobre Terapia Comunitária

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S         Vídeos
            . Terapia Comunitária, conversa com Adalberto de Paula Barreto
            . Terapia Comunitária, uma roda em Minas Gerais
            . Retalhos: Terapia Comunitária – depoimentos de terapeutas
            . Terapia Comunitária, projeto 4 Varas

Links:

S         Livros
. Terapia Comunitária Passo a Passo, de Adalberto de Paula Barreto,
   edição do autor, Fortaleza, CE, 2005 

. O Índio que Vive em Mim – O Itinerário de um Psiquiatra Brasileiro,
  de Adalberto de Paula Barreto e Jean-Pierre Boyer,
  Terceira Margem Editora, São Paulo, SP, 2003

                Exemplares:
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(85) 3286-6049
(85) 9987-3210


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