também palhaço - o Fuxico -,
músico, pesquisador da cultura popular,
professor e franciscano.
Gravação: Luiz Fernando Sarmento
Catete
Rio de Janeiro
Brasil
26 de março de 2015
Quando desejo tremores, deito de barriga pra cima, nu de preferência, longe de refeições, me entrego à respiração profunda, permaneço atento.
Passa um tempo que nem sei, inesperadamente, um tremelique ali, outro acolá, deixo estar, não coço. Entregue que estou, respiro e respiro.
Os tremeliques se alastram, ondulo.
Junto com o reavivamento do corpo, lembranças, alguma emoção.
Duvido de mim, sem certeza de fantasia minha ou minha realidade.
Assim, sinto, quando me permito usufruir do que tenho aprendido, me renovo.
Estes movimentos - exercícios? - aprendi com Romel Alves Costa, meu querido terapeuta reichiano, na década de 70, lá se vão uns 50 anos.
Volta e meia vem a vontade, relembro outros, cutuco emoções. Ora raiva, ora não sei, revivo eu bebê, redescubro memórias.
Agrada, me agrado, mesmo um tanto vago. Quando experimento, me alimento emocionalmente.
Passo tempos sem praticar, como que esqueço, talvez defesas minhas contra insuportáveis alegrias. Estas, resquícios da minha catequização infantil, com minhas decorrentes associações de prazeres a castigos...
E, para evitar castigos, minhas fugas dos prazeres, a tal - vez por outra consciente - insuportável alegria.
Incompleto, este um meu quebra-cabeça.
Ah! Tremeliques também me invadem quando, em posição grounding, me entrego ao som dos tambores e cânticos em rituais afros, Candomblé e Umbanda.
Romel, lembro, pesquisava, conosco e em nós, influências de músicas em nossos corpos, segmentos e sentimentos.
como cliente de Romel Alves Costa, psiquiatra reichiano, e por ele cuidado e orientado, fiz diariamente, durante alguns meses, movimentos oculares focados numa luz de lanterninha movimentada por Romel (na penumbra, deitado, nu, atento ao presente, respiração aprofundada...) ou por mim mesmo, nos dias em que não estava com o terapeuta.
Após, talvez, uns 3 meses, volta e meia um lapso... e eu me sentia como se revivendo, no berço, ao redor de meus 2-3 anos de idade, situação de medo, terror.
Para tentar evitar esta apavorante vivência, fechava com força meus olhos - tanto que esticava tanto meus músculos oculares a ponto de não retornarem à tensão muscular original. Daí, percebi como verdade, a origem da minha distorção, deficiência ocular durante toda a minha vida posterior.
Neste período dos meus cuidados reichianos recuperei parcialmente minha visão ( lembro, num olho, minha lente de correção passou de 4,5 graus para 0,75 ).
(Relembro, meu apelido de infância era Luiz Ceguinho).
Mas, neste período da minha terapia, minha postura corporal mudou, minha segurança e autoestima também. A sexualidade se tornou mais forte e presente, minha potência me alegrou.
Fiquei sem usar óculos durante uns 2 anos (fora este intervalo, uso ininterruptamente óculos de graus crescentes deste os meu 6,5 anos aos mais de 79 anos que atualmente tenho).
Suportei tamanha alegria durante 2 ou 3 anos. Interrompido o tratamento, pouco a pouco minhas distorções voltaram ao que eram.
Mesmo assim, algo, mais que algo, permaneceu - me percebo melhor do que fui antes da terapia. Sou grato a Romel e Reich.
falsas notícias
repetidas, repetidas, repetidas,
dão, ao falso,
vida
*
Às vezes tenho vontade de dialogar com aquela pessoa que fala na Tv. Mas ela não me ouve. Ela só fala e fala. Repete tanta coisa, que acabo acreditando no que me fala. Se não me cuido, acredito mais no que me fala a Tv do que na realidade vivo.
Com o rádio já era assim. O locutor fala, todo mundo escuta. Não há diálogo. Uma pena. Com a revista, também. Com os jornais e mais.
Tenho escutaco menos – e mais criticamente -, tanto os locutores das rádios quanto os apresentadores das tvs. E passei a me escutar mais, a mais acreditar no que sinto e vivo. Tenho sido mais feliz.
Minha realidade é variada. E varia um tanto em função do que alimento. Se fico pensando – alimentando – só desgraças, minha realidade fica desgraçada. Se me cuido e escolho o que me alimenta – pensamentos, palavras, atos – minha realidade passa a ser o que escolho.
Tudo tem sido novo, pra mim como, imagino, para cada um. Nunca vivi o que agora vivo. E, como tudo que é novo é desconhecido, volta e meia estou com medo. Tenho medo do que desconheço. Tenho medo do novo.
Quando faço algo novo é um aprendizado. Tento, tropeço, erro, retento, acerto. A novidade, agora, tem sido a minha consciência do que vivo. É que descobri, novidade pra mim, que vivo somente o que percebo do que sinto. O que não percebo, não vivo. Meus sentimentos, intuo, expressam o que vivo. Devo, então, prestar atenção a meus sentimentos, percebê-los.
Quando presto atenção a meus sentimentos, e percebo o que sinto, vem a curiosidade de saber o que causa, as origens destes sentimentos.
Surpreso, confirmo. Pequenas escolhas que faço antecedem e provocam os sentimentos que me vêm. Estes mesmos sentimentos que, só quando percebo, vivo.
Assim, se ligo o noticiário da tv e da rádio, se leio as manchetes dos jornais e revistas, sinto indignação, raiva, tristeza, impotência. É uma contradição. Às vezes, a realidade ao meu redor me alegra. Mas me entristeço, me enraiveço, me indigno quando – através daqueles jornalistas e locutores e apresentadores de rádios e tvs – fico sabendo de maldades longínquas. Muitas vezes, misturadas, realidades e ficções.
A história sobre a realidade varia, de acordo com o contador. Se duas pessoas assistem ao mesmo fato, as histórias que contarão serão diferentes. Experimente. Também a História muda com o contador.
A História do Brasil, por exemplo, é narrada pelos chamados vencedores. Os contadores contam suas versões da História. Não sei como morreram Getúlio, Juscelino, Jango, Castello Branco, Costa e Silva, Ulisses Guimarães, Tancredo, Eduardo Campos, Teori Zavaski, Marielle Franco. E não sei de outros que morreram e nem soube.
A História dos Estados Unidos, também não sei. Intuo, sinto, que quaisquer informações sobre guerras das quais eles participam me chegam através dos monólogos das tvs, rádios, revistas, jornais. E estes veículos, por exemplo, recebem informações, talvez padronizadas, das agências de notícias – internacionais, nacionais. Agências, que, por sua vez, quando relativas a invasões e guerras externas, talvez recebam informações originais de uma só fonte oficial norte-americana.
Sabemos, o soldado, como quem manda, é responsável pelo que o tiro provoca. O jornalista, como quem manda, também é responsável pelo que a falsa notícia, a fofoca provoca.
Tudo tão, digamos, simples. E, ao mesmo tempo, tão complicado. Desconfio, não confio no que estes jornais, rádios, tvs, revistas me informam. São, a meu ver, tendenciosos. Representam interesses que não são meus nem de muitas outras pessoas.
Sinto, somos, os das gerações próximas à minha, somos os últimos neuróticos. Porque, se psicopata for aquele que faz mal a si mesmo e a outros... e não se sente mal por fazer o mal – não sente culpa – nestes nossos tempos atuais, saímos de cena, nós, os neuróticos, e entram em cena os psicopatas.
Resta a esperança de um fato novo que tudo mude. Um novo Cristo, por exemplo. Ou uma invenção mais forte que o avião, que a internet, que os meios de comunicação. Ou, mistério, fato novo transcendental – uma linguagem dos sentimentos, por exemplo -, algo que provoque emoções que despertem em cada um de nós nosso amor adormecido. E nos extasie.
Lembro, a guerra, a arte da mentira, do engodo.
A paz, a arte do amor.
Luiz Fernando Sarmento
www.luizsarmento.blogspot.com
Rio de Janeiro
Brasil
2023
meu corpo fala.1.
Vivo, um tanto, vida de índio. Aos 73, me permito. Trabalho 3, 4 horas todo dia. E me deixo levar. Trabalho tipo fazer o necessário para eu bem viver. Simples, assim, fazer comida, arrumar o que desarrumo, apoiar quem por perto, escrever.
.2.
Enquanto descanso, balanço, danço. Ando um tanto descansado, aprendiz de preguiçoso. Cuidador de mim mesmo, o essencial tem me suprido a vida. Arrisco, uma arte simplificar.
Reconheço, agradeço alguma luz que me veio. Sou responsável pela vida que vivo.
.3.
Meus sentimentos indicam meu rumo, minha vida. O que vejo, ouço, cheiro, toco, falo, faço determinam o que sinto. Aprendo escolher o que sinto
.
.4.
Um poeta sentiu e sacou, “Perdi minha vida por educação”. Aprendo estar atento pra não perder minha vida por mágoas, descuidados, desafetos, enganos.
.5.
Sentimentos repetidos me agarram, ficam em mim. Desde criança. Adulto afora, carrego minha criança em mim. O que sinto, o que sou, se relaciona comigo criança, com minha infância.
.6.
Busco, hoje, aquele abraço que, por desventura, não tive. Hoje, busco suprir aquele vazio que na infância algumas vezes senti – mesmo não percebendo que o vazio que sinto talvez antes tenha nascido ali.
.7.
Hoje, acredito, meus sentimentos determinam o que vivo. Vivo, mesmo, é o que sinto. Aliás, só vivo, mesmo, o que percebo do que sinto. O que não percebo, nem sei que sinto. Não vivo.
.8.
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Hoje, sei, meu corpo fala. Como cada Ser, carrego no meu corpo minha História pessoal.
Meu corpo fala. Preciso aprender a ser comedido. Como muito, quase me entupo por voracidade. Se o gosto é bom, não quero parar. Como o tanto que naquele momento desejo. À noite, meu corpo fala. Sinto queimação aqui dentro do que imagino esôfago. Passo, então, parte da noite sentado. Passada a azia, deito pra valer e durmo. Meu corpo me falou, já sei, não devo comer demais.
.9.
Aprendi, há tempos, exercitar a musculatura dos meus olhos. Quero recuperar sua elasticidade original e, como consequência, enxergar direito. Algumas vezes, com estes exercícios, atento, revivo sentimentos, medos de quando eu tinha dois, três anos.
Na época, pra não ver o que na penumbra eu via, fechava os olhos, apertava, apertava tanto que perdi a elasticidade da musculatura ocular e não consegui mais focar, enxergar direito. Hoje, quando exercito esta mesma musculatura, revivo medos antigos. Meu corpo reaviva minha memória, me conta minha história. Meu corpo me fala.
Estes mesmos exercícios oculares me despertam movimentos involuntários na pélvis, mexem com minha sexualidade.
.10.
Aprendiz, mexo no corpo, mexo nos sentimentos. Percebo, sou um todo sistêmico. Este aprendizado tem me facilitado a vida saudável. Se percebo sintomas, procuro descobrir as causas. Se cuido das causas, os sintomas se vão. Sem remédios.
Se me desequilibro emocionalmente, meu corpo reage. Por exemplo, meus dentes se abalam. E quando me reequilibro, meus dentes se firmam. Prefiro ir ao dentista quando me sinto equilibrado.
.11.
Racionalizo tudo, mas a emoção emerge e prevalece. Os sentimentos – conscientes, inconscientes – me invadem, moldam meu comportamento, estimulam movimentos, paralisias e ausências, tomam conta de mim. Meus sentimentos se expressam no meu corpo. Meus sentimentos me guiam. Meu corpo fala o que sinto.
.12.
Talvez alguém se lembre, em algum momento, em algum lugar tenha sido assim. Pra desmamar o bebê, a mãe – imagino, sofrida como ela só – passava borra de café ou pimenta no próprio seio. O bebê levava o choque, eternamente marcado. Desmamava. Ficava aquele vazio dentro de si.
Sem saber porquê – inconsciente – o bebê cresce, passa o resto da vida a tentar suprir esta falta que não sabe de onde vem. Busca no poder, no dinheiro o tapa-buraco. Mas, constante, a frustração, a permanência do vazio, o inferno em vida.
Hoje, como antes, em muitos de nós permanecem marcas nascidas da indiferença, da violência, do amor ausente.
.13.
Sorte se me cai a ficha, se tenho o insight, se compreendo emocionalmente a falta que sinto, antes inconsciente.
Como a ostra – arranhada, se fecha, cria a pérola – talvez meus talentos atuais se relacionem com os arranhões na alma que, antes, sofri. Ou com o que pelo prazer aprendi.
.14.
Vislumbro uma saída do labirinto em que me encontro: aprender a me conhecer. Aprender a me permitir ser o que desejo ser. Aprender a me amar.
.15.
Doença, em mim, começa assim: qualquer forma de maltrato, meu corpo reage, adoece. Pra voltar a ser saudável, paro de me maltratar. Descubro um jeito de acalmar minha mente, de cuidar do meu corpo.
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Luiz Fernando Sarmento
www.luizsarmento.blogspot.com
Rio de Janeiro
Brasil
2019
pressinto,
minha respiração alimenta
a emoção que sinto
#Parto
Esquecido de tudo
Escuro, morninho
Os sons quase mudos
Sensação de carinho
Nove meses em meu quarto
Crescendo sozinho
Luzes, eu parto
Novo, zerinho
Alguém me enlaça
Choro e chuto
Mamãe me abraça
Me entrego, não luto
De volta ao passado
Desconhecido futuro
Assim, espantado
Hoje me encuco
Sou um presente
Responsável inocente
Em cima do muro
Num mundo confuso
Nem claro escuro
#
Gêmeos
Lento na ação
Rápido no pensamento
Esperanças no coração
Sou um a cada momento
Tonto, meio bobão
Preso a cada lamento
Alegro, choro, em vão
Sou um a cada momento
Mergulho na criação
Pego carona no vento
Ora razão, emoção
Sou um a cada momento
#
Burocracia
Câncer
Lá fora o sol, o vento
Chuva, movimento, terra
Aqui limites, tormento
Em papéis a vida se encerra
Este meu porto
Oito horas por dia
Como outros, torto
Sem alma, sem alegria
Confinado me emperro
Em meio à burocracia
Horas, anos, um tempão
Sonho, aposentadoria
Enquanto espero, me enterro
Vida, trabalho, prisão
#
De costas
A vida é uma bosta
O trabalho é uma bosta
As pessoas, bostas
A cultura, bosta
Bostas, o cigarro
A angústia, solidão
Incompreensão, uma bosta
Bosta, comunicação
Bosta por bosta
Ômeu, ninguém gosta
Que bosta, que posta
A bosta sou eu
#
Jovem
Tou no ar
Tou no chão
O coração é um mar
A cabeça um furacão
Alegria na minha alegria
Tristeza somada à minha
Desfiladeiro, vulcão
Paixão, mergulho, paixão
#
Namoro
Você vinha, eu ia
Pau duro, coxas quentes
Quadris em sintonia
Línguas molhadas, ardentes
Trocas de ares
Cabeças vazias
Ondas, mares
Afeto, energia
Adeus tempo, espaço
O ponto certo existia
Terno eterno abraço
Brilhamos, obá, alegria
#
Casamento
Você sofre
Com o que sou
Eu sofro
Com seu sentimento
Passamos a vida assim
Acolho seu lamento
Você chora por mim
Em mim censura
O que em você
Não se aventura
Passada a loucura
Passada a paixão
Não sou seu pai bom
Nem minha a mãe pura
Loucura, tormento
Suportável tortura
Anta, jumento
Capenga procura
Não lhe dou a segurança que me pede
Não me dá o colo que imploro
Um muleta do outro
De repente, bodas de ouro
#
Cultura Pesada
Todo prazer é pecado
A todo pecado, castigo
De cada castigo, medo
Se pecador é consigo
Tristeza, remorso, culpa
O paraíso perdido
Crente, clemente, confessa
Curva, ajoelha, reza
Seu amor próprio despreza
Volta a ser comedido
#
Mentiras
Olhos, ouvidos, nariz
Percebem uma situação
A realidade contradiz
Rádio, jornal, televisão
Que má sorte
Associam o cigarro à vida
Veja a publicidade
É a morte
Muito do que penso verdade
Novela, show, ficção
Vem do que me disseram
Notícias, informação
Verdades mesmo não eram,
Meio falso, meio vão
Cortinas, desvios, quimeras
Meios d'incomunicação
#
Imenso Vazio
Mais do que falo
Mais do que penso
Sou o que sou
Sou é imenso
Faço que fico
Falo que vou
Baixos e picos
Sou e não sou
Em cada quebrada
Sou tudo, sou nada
Sinto não sim
Vôo não vou
Tenso não sonho
Sim não eu sou
Num momento só cagaço
O pavor do mais medonho
Dúvida do faço não faço
Choque do ter e do ser
O real a me chamar do sonho
Triste alegria, dor e prazer
Aqui, lá, em todo lugar
Pulso, pulso no meu campo
Surjo, desapareço, tamanho
Presente amplio o finito
O infinito acompanho
#
Pedra Rolante
Rodo e rodo
A mesma pedra
Todos caminhos
De qualquer modo
Se não pedra, espinho
A minha pedra
Sou eu sozinho
Sou eu quem medra
Eu sou a pedra
#
Quem Sabe
pra quem desde criança
cria necessidades
difícil pode ser a mudança
quanto maior a idade
Aquela que desde o ninho
Pra quem o que for será
Terá mais fácil caminho
Ou rumo incerto, sei lá
O que é certo ou errado
Que crime merece castigo
Onde vou, pra que lado
Eu não sei, sabe o amigo?
#
Meus filhos,
Um lado vivo
Um outro morto
Ativo, torto
Sou seu modelo
Como não sê-lo
Sendo seu ninho
Quanto aos caminhos
Selecionemos
Os mais amenos
Sei que não devo
Gerar conselhos
Sem mais nem menos
Aos meus espelhos
#
Alforria
Sou governador
Sou presidente
Do meu amor
Da minha mente
Bom dia todo dia
Boa noite toda noite
Boa vida toda vida
#
*
Poesias e falas, Luiz Fernando Sarmento
Roteiro e edição do vídeo: Ricardo Tupper
Assistência na gravação: Juliana Amaral
Gravação caseira: Luiz Fernando Sarmento
Catete
Rio de Janeiro
Brasil
23 de junho de 2018