Terapia comunitária na prática:
Lembro:
esta história, como outras,
conto com o que penso que sei.
Sempre o risco de ser diferente
do que, pra outro, é.
Uma família pobre,
dez filhos, naturais e adotados. Interior do Ceará, o pai
trabalha num lugar após outro, na equipe que cava poços em busca d’água, a
família acompanha. Cristãos. Adalberto quer ser padre. Conseguem bolsa num
seminário. As informações que os padres-professores lhe passam não correspondem
às suas crenças. Incomodado, prossegue os estudos, se forma em medicina. Faz
teologia no Vaticano, filosofia na Itália, doutoramentos em psiquiatria e
antropologia na França. Volta às suas origens, interior do Ceará, junta
conhecimentos acadêmicos a sabedorias populares. Cria um jeito simples de
conversar, que estimula solidariedades imediatas.
A metodologia
Em roda, um espaço para cada um falar de problemas do cotidiano,
de questões que afligem, trazem insônia, incomodam. O pai que bate na mãe, o
filho que se droga, eu mesmo que não consigo trabalho. Ou que estou deprimido,
sem saída.
Logo no início, já em busca de clima propício, o terapeuta ou um
seu auxiliar propõe compartilhamentos de alegrias recentes. Intercalados com
palmas, um e outro diz da satisfação do nascimento de um filho, da recuperação
de uma vó, do sucesso nos estudos de um amigo, do prazer de uma viagem, do
aniversário que chega e por aí vai.
Agora combinam-se umas regras. Aqui não vale julgar nem dar
conselhos. Quando dou um conselho, é como se eu soubesse mais do outro que
ele próprio. Todos terão oportunidade de falar. Não é um espaço para
segredos: o que pode lhe fazer mal se alguém lá fora souber, sugere-se, não compartilhe
aqui, proteja-se. Só se fala a partir da própria vivência, da própria
experiência. Cada fala começa com Eu – este talvez o maior desafio.
Quando um fala, todos escutam. Se durante o andamento do encontro alguém se
lembra de uma música, um provérbio, uma piada, uma história curta, que levante
a mão, peça licença, diga seu nome e se expresse, conte, cante ou proponha o
canto.
É lembrado, como estímulo à participação, que, quando não é
falado o que está dentro de si, vem a gastrite, a depressão, o mal estar, a
doença. Quando a boca cala os órgãos falam. Quando a boca cala os órgãos
adoecem. Já quando a boca fala, os órgãos saram.
Alguém quer falar do seu problema? O
silêncio inicial é seguido de desabafos. Problemas pessoais são apresentados.
Quem coordena a roda, o terapeuta comunitário, ao final de cada fala, anota,
tenta sintetizar, pergunta: veja se entendi direito. Seu sofrimento é porque
você não consegue renda suficiente para manter sua família? Se é aceita a
síntese, o terapeuta agradece, passa para outro, assim por diante. Quando casos
suficientes são apresentados, propõe uma nova fase.
Peço agora que, resumidamente, os que desejarem indiquem o caso
com o qual se identificam e digam porquê. Um e outro se
identifica com uma ou outra das questões apresentadas.
Agora vamos votar
Lembro que vamos escolher, não o caso mais importante, mas o
caso que mais pessoas aqui presentes desejam hoje escutar. Cada um só pode votar
uma vez, todos podem votar. E, repetindo cada síntese
feita anteriormente, solicita a votação para cada um dos problemas
apresentados.
Junto com todos, conta e anota os votos. Definem assim – pelo
maior número de votos – aquele caso que será aprofundado neste encontro.
Agradece com atenção, nominalmente, a cada um dos que
apresentaram suas questões e não foram escolhidos naquele dia. Deixa claro que,
após o encontro, poderá conversar com aqueles que sentirem necessário. E que –
se quiserem – podem voltar a apresentar as mesmas questões numa próxima roda.
Dirige-se agora àquela pessoa que apresentou o tema escolhido. Por
favor, conte mais, para nós todos, sobre o que o aflige. Sempre com a intenção
de cuidar, cada um de nós pode lhe fazer perguntas. Responda se desejar.
E o caso é contextualizado. Como exemplo, se o escolhido foi o
do pai que bate na mãe: meu pai bate na minha mãe toda vez que bebe. Ele
está desempregado, fica nervoso, bebe. Minha mãe não sabe o que fazer, nem eu,
o filho, sei. Sofre calada. Entro na frente, defendo minha mãe, acabo apanhando
também. Quando passa a bebedeira, muda tudo. Meu pai sofre com sua fraqueza,
fica num canto, mudo, os olhos tristes...
No sentido de contribuir para a compreensão do caso que é
apresentado – nunca culpabilizando quem está na berlinda – um faz uma pergunta,
outro outra, até o momento que o terapeuta, considerando suficientes as
informações, solicita, pelo nome, a quem apresenta seu sofrimento: José,
estamos agradecidos por você compartilhar conosco o problema que vive. Pedimos
agora que você ouça, em silêncio, o que alguns de nós vamos falar aqui.
E lança um mote,
que pode ser específico – quem já teve em casa um pai que bate
na mãe e pode agora compartilhar conosco sua experiência? Ou um mote que
amplia o tema: quem já sofreu violência doméstica e pode compartilhar
conosco sua experiência? Ou ainda: quem se sentiu de alguma forma tocado pelo
que nos foi contado e pode compartilhar conosco sua experiência? Quem desejar
falar, por favor, levante o braço, espere sua vez, diga seu nome.
Um após outro são apresentadas situações semelhantes. Minha
vó também apanhava muito do meu avô, que era muito bravo e ignorante. Até que
um dia nós combinamos e falamos juntos para ele: ou o senhor para e se cuida ou
nós vamos tomar uma atitude, vamos embora, vamos pedir ajuda a quem o senhor
respeita. Alguém chora. Outro apresenta uma música, inicia, os que sabem
cantam juntos: encosta sua cabecinha no meu ombro e chora... E os
compartilhamentos de casos vão se sucedendo.
Já a caminho da finalização, o terapeuta convida todos para
ficarem de pé, mais próximos, ainda em roda, braços nos ombros ou na cintura.
Sugere um balanço de corpo coletivo. Alguém lembra uma música. Tou
balançando, mas não vou cair, não vou cair... O terapeuta pergunta: o
que estou levando daqui? Um diz Calma, outro Conforto, mais
um Solidariedade.
Devagar a roda se desfaz, um e outro se abraçam, formam-se
duplas e grupos de conversas. A confraternização traduz a humanidade presente.
Os encontros de Terapia Comunitária
são abertos. Há pessoas que vão com frequência, há os
esporádicos. Há jovens, velhos, adultos, pobres, ricos, classe média. Têm em
comum a possibilidade de se compreender emocionalmente.
No mesmo encontro surgem questões variadas. Desde o adolescente
– que vou fazer da vida agora que terminei o segundo grau? Preciso ganhar
dinheiro e não me sinto preparado nem para escolher uma profissão nem concorrer
no mercado –, passando pela senhora indignada (fomos assaltados na rua,
meu marido foi baleado, eu gritei desesperada à procura de ajuda, mas ele
morreu ali, nos meus braços... e meu filho hoje me culpa pela morte do seu
pai... como sofro...), até a moça que sofre, com os filhos, violência
doméstica e não sei o que fazer. Ou a mestranda que, entristecida, expõe
sua dúvida: continuo o mestrado ou acompanho o crescimento de meu filho?
As identificações são quase sempre imediatas. Os relatos
correlatos emocionam e confortam um e outro. A solidariedade se instala,
independente de classes, raças, credos, gêneros. Somos semelhantes, estamos
próximos.
Adalberto de Paula Barreto, criador da Terapia Comunitária, em
entrevista a Letícia Lins e Isabela Martins, d’O Globo, 22 de abril de 2007:
Na favela lidamos com a miséria material que nutre a miséria
psíquica. Já na Suíça, encontrei a miséria afetiva, o esfriamento das relações.
Na Europa, não achei favelas miseráveis como as nossas, mas encontrei favelados
existenciais.
Alguns vídeos e informações sobre Terapia Comunitária –
inclusive depoimento de Adalberto sobre o método, a história, resultados –
estão em:
ou em www.abratecom.org.br
*
Saiba mais:
Este texto é parte de um dos
capítulos
- Terapia
Comunitária –
do livro que escrevi,
com a intenção de contribuir com
ideias e metodologias
para movimentos sociais e
individuais.
O livro, só clicar:
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