Livre
pensar 13
Terapia Comunitária
Lembro: esta história, como outras, conto com
o que penso que sei. Sempre o risco de ser diferente do que, pra outro, é.
Uma família pobre,
dez filhos, naturais e adotados. Interior do
Ceará, o pai trabalha num lugar após outro, na equipe que cava poços em busca
d’água, a família acompanha. Cristãos. Adalberto quer ser padre. Conseguem
bolsa num seminário. As informações que os padres-professores lhe passam não
correspondem às suas crenças. Incomodado, prossegue os estudos, se forma em
medicina. Faz teologia no Vaticano, filosofia na Itália, doutoramentos em
psiquiatria e antropologia na França. Volta às suas origens, interior do Ceará,
junta conhecimentos acadêmicos a sabedorias populares. Cria um jeito simples de
conversar, que estimula solidariedades imediatas.
A metodologia
Em roda, um espaço para cada um falar de
problemas do cotidiano, de questões que afligem, trazem insônia, incomodam. O pai
que bate na mãe, o filho que se droga, eu mesmo que não consigo trabalho. Ou
que estou deprimido, sem saída.
Logo no início, já em busca de clima
propício, o terapeuta ou um seu auxiliar propõe compartilhamentos de alegrias
recentes. Intercalados com palmas, um e outro diz da satisfação do nascimento
de um filho, da recuperação de uma vó, do sucesso nos estudos de um amigo, do
prazer de uma viagem, do aniversário que chega e por aí vai.
Agora combinam-se umas regras. Aqui não vale
julgar nem dar conselhos. Quando dou um conselho, é como se eu soubesse mais
do outro que ele próprio. Todos terão oportunidade de falar. Não é um
espaço para segredos: o que pode lhe fazer mal se alguém lá fora souber,
sugere-se, não compartilhe aqui, proteja-se. Só se fala a partir da própria
vivência, da própria experiência.
Cada fala começa com Eu – este talvez
o maior desafio. Quando um fala, todos escutam. Se durante o andamento do
encontro alguém se lembra de uma música, um provérbio, uma piada, uma história
curta, que levante a mão, peça licença, diga seu nome e se expresse, conte,
cante ou proponha o canto.
É lembrado, como estímulo à participação,
que, quando não é falado o que está dentro de si, vem a gastrite, a depressão,
o mal estar, a doença. Quando a boca cala os órgãos falam. Quando a boca
cala os órgãos adoecem. Já quando a boca fala, os órgãos saram.
Alguém quer falar do seu problema? O
silêncio inicial é seguido de desabafos. Problemas pessoais são apresentados.
Quem coordena a roda, o terapeuta comunitário, ao final de cada fala, anota,
tenta sintetizar, pergunta: veja se entendi direito. Seu sofrimento é porque
você não consegue renda suficiente para manter sua família? Se é aceita a
síntese, o terapeuta agradece, passa para outro, assim por diante. Quando casos
suficientes são apresentados, propõe uma nova fase.
Peço agora que, resumidamente, os que
desejarem indiquem o caso com o qual se identificam e digam porquê. Um e
outro se identifica com uma ou outra das questões apresentadas.
Agora vamos votar
Lembro que vamos escolher, não o caso mais
importante, mas o caso que mais pessoas aqui presentes desejam hoje escutar.
Cada um só pode votar uma vez, todos podem votar. E,
repetindo cada síntese feita anteriormente, solicita a votação para cada um dos
problemas apresentados.
Junto com todos, conta e anota os votos.
Definem assim – pelo maior número de votos – aquele caso que será aprofundado
neste encontro. Agradece com atenção, nominalmente, a cada um dos que
apresentaram suas questões e não foram escolhidos naquele dia. Deixa claro que,
após o encontro, poderá conversar com aqueles que sentirem necessário. E que –
se quiserem – podem voltar a apresentar as mesmas questões numa próxima roda.
Dirige-se agora àquela pessoa que apresentou
o tema escolhido. Por favor, conte mais, para nós todos, sobre o que o
aflige. Sempre com a intenção de cuidar, cada um de nós pode lhe fazer perguntas.
Responda se desejar.
E o caso é contextualizado. Como exemplo, se
o escolhido foi o do pai que bate na mãe: meu pai bate na minha mãe toda vez
que bebe. Ele está desempregado, fica nervoso, bebe. Minha mãe não sabe o que
fazer, nem eu, o filho, sei. Sofre calada. Entro na frente, defendo minha mãe,
acabo apanhando também. Quando passa a bebedeira, muda tudo. Meu pai sofre com
sua fraqueza, fica num canto, mudo, os olhos tristes...
No sentido de contribuir para a compreensão
do caso que é apresentado – nunca culpabilizando quem está na berlinda – um faz
uma pergunta, outro outra, até o momento que o terapeuta, considerando
suficientes as informações, solicita, pelo nome, a quem apresenta seu
sofrimento: José, estamos agradecidos por você compartilhar conosco o
problema que vive. Pedimos agora que você ouça, em silêncio, o que alguns de
nós vamos falar aqui.
E lança um mote,
que pode ser específico – quem já teve em
casa um pai que bate na mãe e pode agora compartilhar conosco sua experiência? Ou
um mote que amplia o tema: quem já sofreu violência doméstica e pode
compartilhar conosco sua experiência? Ou ainda: quem se sentiu de alguma forma
tocado pelo que nos foi contado e pode compartilhar conosco sua experiência?
Quem desejar falar, por favor, levante o braço, espere sua vez, diga seu nome.
Um após outro são apresentadas situações
semelhantes. Minha vó também apanhava muito do meu avô, que era muito bravo
e ignorante. Até que um dia nós combinamos e falamos juntos para ele: ou o
senhor para e se cuida ou nós vamos tomar uma atitude, vamos embora, vamos
pedir ajuda a quem o senhor respeita. Alguém chora. Outro apresenta uma
música, inicia, os que sabem cantam juntos: encosta sua cabecinha no meu
ombro e chora... E os compartilhamentos de casos vão se sucedendo.
Já a caminho da finalização, o terapeuta
convida todos para ficarem de pé, mais próximos, ainda em roda, braços nos
ombros ou na cintura. Sugere um balanço de corpo coletivo. Alguém lembra uma
música. Tou balançando, mas não vou cair, não vou cair... O terapeuta
pergunta: o que estou levando daqui? Um diz Calma, outro Conforto,
mais um Solidariedade.
Devagar a roda se desfaz, um e outro se
abraçam, formam-se duplas e grupos de conversas. A confraternização traduz a
humanidade presente.
Os encontros de Terapia Comunitária
são abertos. Há pessoas que vão com
frequência, há os esporádicos. Há jovens, velhos, adultos, pobres, ricos,
classe média. Têm em comum a possibilidade de se compreender emocionalmente.
No mesmo encontro surgem questões variadas.
Desde o adolescente – que vou fazer da vida agora que terminei o segundo
grau? Preciso ganhar dinheiro e não me sinto preparado nem para escolher uma
profissão nem concorrer no mercado –, passando pela senhora indignada (fomos
assaltados na rua, meu marido foi baleado, eu gritei desesperada à procura de
ajuda, mas ele morreu ali, nos meus braços... e meu filho hoje me culpa pela
morte do seu pai... como sofro...), até a moça que sofre, com os filhos,
violência doméstica e não sei o que fazer. Ou a mestranda que,
entristecida, expõe sua dúvida: continuo o mestrado ou acompanho o
crescimento de meu filho?
As identificações são quase sempre imediatas.
Os relatos correlatos emocionam e confortam um e outro. A solidariedade se
instala, independente de classes, raças, credos, gêneros. Somos semelhantes,
estamos próximos.
Adalberto de Paula Barreto, criador da Terapia
Comunitária, em entrevista a Letícia Lins e Isabela Martins, d’O Globo, 22 de
abril de 2007:
Na favela lidamos com a miséria material que
nutre a miséria psíquica. Já na Suíça, encontrei a miséria afetiva, o
esfriamento das relações. Na Europa, não achei favelas miseráveis como as
nossas, mas encontrei favelados existenciais.
Alguns vídeos e informações sobre Terapia
Comunitária – inclusive depoimento de Adalberto sobre o método, a história,
resultados – estão em
Luiz Fernando Sarmento
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