uma vida incomum como qualquer um 11
vários
eu
Sinto um pedaço do mundo
Outra noite,
encontrei uma moça a chorar de dor. Está com medo de caminhar sozinha. Relata
que alguém tapou sua boca, tentou estuprá-la. Ao reagir, levou um
paralelepípedo na cabeça, dói e dói. Quer ir ao pronto-socorro, quer fazer
queixa à polícia. Não sabe escrever nem ler.
Caminhamos de quase
Parque Guinle até o Largo do Machado. Só consegui escutar e oferecer o da condução.
Inda nervosa, inda com medo, toma o ônibus pro hospital. Um tanto de sua
tristeza e impotência ficam comigo. Negra, pobre, gorda, catarro e tosse, lágrimas,
tristeza, raiva e rua como residência.
Relembro pra não me esquecer
Aquela de Adalberto
de Paula Barreto – que você quer que eu queira preu querer? – toda vez que me lembro dela, lembro
de meus momentos de submissão. Hoje sei que é uma pergunta que só devo fazer ao
espelho.
Do que entendi de
Freud, sonho com o desejo realizado. Em Interpretação dos Sonhos, ele
fala de que, quando à noite come azeitonas ou algo salgado, vem sede durante o
sono e tende a sonhar tomando algo que supra a sede que de fato sente. Quando
acorda, acorda com sede. Mas sonha suprindo a sede, realizando o desejo.
A comunicação se dá
quando o outro entende o que falo. Alguém já disse algo como a comunicação se
dá quando o outro entende.
As coisas me têm,
mesmo que eu tenha as coisas. Se tenho um carro, um trabalho para mantê-lo. Se
dois, mais trabalho. Se tenho um computador, devo limpá-lo, espaná-lo. Ou
trabalho eu ou quem eu trate para trabalhar por mim.
Ah, se
eliminássemos os controles do mundo, quanto trabalho a menos, quantos recursos
liberados. Talvez, lá no fundo, os medos sejam as origens dos controles.
Aqui escolhas constantes
entre prazer e dor.
Treino esboço de sorriso, arrisco o palco que desejo. Tropeço, volto pro
espelho, reclamo de mim mesmo. Como num bolero, dois pra frente, um pra trás. Não
me lembro quem me lembra: seja o mundo que você quer.
Outros eus
No viver minha vida
construo minha visão de mundo, que se transforma de acordo com o que vivencio. Tem
gente que sente que o mundo lhe deve. Acumula. Tem gente que sente que deve ao
mundo. Se sacrifica. Tem gente que o mundo e o eu são um só. Compartilha com o
outro que é eu. Ora é um, ora é outro. Como eu, ora sou um, ora outros.
Outra noite – que
outro dia foi ontem – ainda incomodado com um documentário sobre a repressão de
40 anos de ditadura na Albânia, olhei no espelho. Eu tinha 18 anos quando
militares tomaram o poder em 64. E 39 quando houve novamente eleições, mesmo
que indiretas. Nestes 21 anos de minha juventude aprendi o medo de me expressar
livremente. A quase paranoia, descubro chateado, volta à tona volta e meia. Tanta
coisa pra desaprender...
Olho pra trás, pra
antes de mim e, um tanto inseguro, confirmo que o homem que domina outro homem está
presente no decorrer dos tempos. Dominador e
dominado se
complementam, talvez corresponsáveis pela situação. Um age como se o mundo lhe
devesse um tanto... e toma do outro como se fosse seu. Outro se submete, como
sem saber do que é capaz. Na tentativa de olhar com o olhar do outro – daquele para
quem o outro não tem valor – a associação que faço, imediata, é de que algo lhe
foi tirado. Se na infância ele viveu em si, incompreendida, uma falta, ele
quer agora isto e aquilo e mais. Aquela falta gerou uma necessidade constante
de ser tapada, como se fosse um buraco “agora dentro de mim”. Sem
consciência da falta original, consome a vida em busca de poder, objetos e
afins. Arrisco: se desmamado de repente, fica um vazio incompreendido? A mesma
falta afetou os afetos. Agora, uma busca constante de afetos perdidos, de
reconhecimento. Não só isto, mas um tanto.
Já o oprimido
aprendeu desde cedo que não tem valor. Relembro Groucho Marx – clube que me aceita
como sócio, não entro. Quem o aceita, não serve. Tão desvalorizado diante
de si mesmo, como respeitar a quem o valoriza?
Ao contrário,
parece que o complexo de inferioridade esconde o de superioridade. Ah, você
pensa que sou fraquinho? Você não sabe como sou forte. Você vai ver! Me
engano que gosto.
Reconheço este
homem – um e outro – a partir do que me conheço. Antes desvalorizado ante mim
mesmo, descubro pouco a pouco meus valores.
Tanta vida
aprendendo o que agora procuro desaprender. Tantas faltas sem sentido agora se
esclarecem, mesmo difusas. A alegria fica mais próxima, o poder menos
necessário, objetos também. E estes menos dão menos trabalho,
libertam-me.
Mas dói quando vejo
recursos empregados pra suprir reconhecimentos e faltas, pra mostrar poderes que
nem são.
Luiz
Fernando Sarmento
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