terça-feira, 25 de abril de 2017

vários eu - uma vida incomum como qualquer um 11







uma vida incomum como qualquer um 11

vários eu


Sinto um pedaço do mundo
Outra noite, encontrei uma moça a chorar de dor. Está com medo de caminhar sozinha. Relata que alguém tapou sua boca, tentou estuprá-la. Ao reagir, levou um paralelepípedo na cabeça, dói e dói. Quer ir ao pronto-socorro, quer fazer queixa à polícia. Não sabe escrever nem ler.

Caminhamos de quase Parque Guinle até o Largo do Machado. Só consegui escutar e oferecer o da condução. Inda nervosa, inda com medo, toma o ônibus pro hospital. Um tanto de sua tristeza e impotência ficam comigo. Negra, pobre, gorda, catarro e tosse, lágrimas, tristeza, raiva e rua como residência.

Relembro pra não me esquecer
Aquela de Adalberto de Paula Barreto – que você quer que eu queira preu querer? – toda vez que me lembro dela, lembro de meus momentos de submissão. Hoje sei que é uma pergunta que só devo fazer ao espelho.

Do que entendi de Freud, sonho com o desejo realizado. Em Interpretação dos Sonhos, ele fala de que, quando à noite come azeitonas ou algo salgado, vem sede durante o sono e tende a sonhar tomando algo que supra a sede que de fato sente. Quando acorda, acorda com sede. Mas sonha suprindo a sede, realizando o desejo.

A comunicação se dá quando o outro entende o que falo. Alguém já disse algo como a comunicação se dá quando o outro entende.

As coisas me têm, mesmo que eu tenha as coisas. Se tenho um carro, um trabalho para mantê-lo. Se dois, mais trabalho. Se tenho um computador, devo limpá-lo, espaná-lo. Ou trabalho eu ou quem eu trate para trabalhar por mim.

Ah, se eliminássemos os controles do mundo, quanto trabalho a menos, quantos recursos liberados. Talvez, lá no fundo, os medos sejam as origens dos controles.

Aqui escolhas constantes
entre prazer e dor. Treino esboço de sorriso, arrisco o palco que desejo. Tropeço, volto pro espelho, reclamo de mim mesmo. Como num bolero, dois pra frente, um pra trás. Não me lembro quem me lembra: seja o mundo que você quer.

Outros eus
No viver minha vida construo minha visão de mundo, que se transforma de acordo com o que vivencio. Tem gente que sente que o mundo lhe deve. Acumula. Tem gente que sente que deve ao mundo. Se sacrifica. Tem gente que o mundo e o eu são um só. Compartilha com o outro que é eu. Ora é um, ora é outro. Como eu, ora sou um, ora outros.

Outra noite – que outro dia foi ontem – ainda incomodado com um documentário sobre a repressão de 40 anos de ditadura na Albânia, olhei no espelho. Eu tinha 18 anos quando militares tomaram o poder em 64. E 39 quando houve novamente eleições, mesmo que indiretas. Nestes 21 anos de minha juventude aprendi o medo de me expressar livremente. A quase paranoia, descubro chateado, volta à tona volta e meia. Tanta coisa pra desaprender...

Olho pra trás, pra antes de mim e, um tanto inseguro, confirmo que o homem que domina outro homem está presente no decorrer dos tempos. Dominador e
dominado se complementam, talvez corresponsáveis pela situação. Um age como se o mundo lhe devesse um tanto... e toma do outro como se fosse seu. Outro se submete, como sem saber do que é capaz. Na tentativa de olhar com o olhar do outro – daquele para quem o outro não tem valor – a associação que faço, imediata, é de que algo lhe foi tirado. Se na infância ele viveu em si, incompreendida, uma falta, ele quer agora isto e aquilo e mais. Aquela falta gerou uma necessidade constante de ser tapada, como se fosse um buraco “agora dentro de mim”. Sem consciência da falta original, consome a vida em busca de poder, objetos e afins. Arrisco: se desmamado de repente, fica um vazio incompreendido? A mesma falta afetou os afetos. Agora, uma busca constante de afetos perdidos, de reconhecimento. Não só isto, mas um tanto.

Já o oprimido aprendeu desde cedo que não tem valor. Relembro Groucho Marx – clube que me aceita como sócio, não entro. Quem o aceita, não serve. Tão desvalorizado diante de si mesmo, como respeitar a quem o valoriza?

Ao contrário, parece que o complexo de inferioridade esconde o de superioridade. Ah, você pensa que sou fraquinho? Você não sabe como sou forte. Você vai ver! Me engano que gosto.

Reconheço este homem – um e outro – a partir do que me conheço. Antes desvalorizado ante mim mesmo, descubro pouco a pouco meus valores.

Tanta vida aprendendo o que agora procuro desaprender. Tantas faltas sem sentido agora se esclarecem, mesmo difusas. A alegria fica mais próxima, o poder menos necessário, objetos também. E estes menos dão menos trabalho,
libertam-me.

Mas dói quando vejo recursos empregados pra suprir reconhecimentos e faltas, pra mostrar poderes que nem são.


Luiz Fernando Sarmento














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