terça-feira, 9 de maio de 2017

incertas - uma vida incomum como qualquer um 19





uma vida incomum como qualquer um 19

incertas

Por limitações humanas, quantas ideias, invenções, soluções simples foram e estão sendo deixadas de lado por cada um de nós? O que faz com que alguém acumule o que não necessita e que poderia ser útil para outros?

O preenchimento de vazios dentro de si mesmos? Se vazios, que vazios seriam estes? Quais origens destes vazios individuais que talvez gerem tanto consumo, tanta necessidade de poder?

Tenho feito a mim estas perguntas que faço a outros. Pouco a pouco percebo como meus próprios vazios estimulam meus comportamentos. Dói tomar consciência do que sou, dissolver a imagem ideal que tenho de mim. Tranquiliza reconhecer meus limites, o que me falta. Facilita agir a partir do que disponho. Fico do meu tamanho.

Ligo a TV e alguém que não conheço me informa que preciso ter algo que antes desconhecia. Tenho em mim agora uma necessidade. Se tenho recursos para supri-la, satisfação momentânea. Se não, um sentimento de impotência, incompetência, outro vazio. Me faz mal, muito mal, esta publicidade do que não me faz bem... nem está ao meu alcance.

Imagino crianças e adultos inocentes, a todo momento chamados para novas necessidades que não têm condições de adquirir. E que não suprem os afetos básicos, alicerces de bem--estar de fato.

Ronald Laing, em Laços, sintetiza: Mamãe me ama. Eu me acho bom. Eu me acho bom porque mamãe me ama. E, se mamãe não me ama, eu me acho mau.

Criança inocente – imagino como muitas – desamores, desatenções alimentaram meus vazios. Descubro em mim, não tenho esta dúvida: os vazios que vivi e não transcendi, repito diariamente nos meus sentimentos, pensamentos, palavras, gestos.

Hoje, invertendo, talvez mamãe aqui signifique aquela mamãe que volta e meia tenho oportunidades de ser. Comigo, com o outro.

Compreendo ato falho como algo que – diferente da minha intenção consciente – espontaneamente penso, falo, faço. Desde, sem querer-querendo, chamar o outro pelo nome errado até pegar o caminho da casa da namorada quando aparentemente intencionava ir para outro lugar. Assim, atos falhos me interessam, traduzem o que lá dentro – fora da consciência – guardo, retenho, sou.

Pulo. No mundo, hoje, grande parte dos recursos são gastos em controles. Mas, acredito, se responsabilidades e direitos – ganhos e perdas incluídos – são compartilhados com os trabalhadores de cada empreendimento ou instituição, naturalmente cada um cuida melhor do que também é seu. Neste cenário humanizado, os custos e os controles diminuiriam  consideravelmente. A tendência, co-laboradora, o ganha-ganha. Talvez aqui uma contribuição para
transcendência de crises econômicas. Na origem de tudo, o desejo de quem decide o que está ao seu alcance.

Reflexões singelas como estas – quando o olhar para fora é voltado para dentro de mim – me ajudam orientar meus caminhos. Atento ao que está ao meu alcance, reconheço o que falta e me falta, delimito, ajo, realizo.

Descubro na internet que existe uma rede de tecnologia social em que soluções inventadas são disponibilizadas gratuitamente para quem deseje. A cisterna que o pedreiro nordestino construiu e que acumula água de chuvas é referência. Cisternas semelhantes já minoram a falta d’água para centenas de milhares de famílias.

Imagino uma pequena mudança de atitude minha ou de qualquer um e de muitos: compartilho o que aprendi e me facilita a vida, torno minha vida mais agradável. Ofereço pelo prazer de dar. Comigo isto se torna mais fácil quando me permito pequenos grandes prazeres. Ando descalço, espreguiço, como com as mãos, digo uns sins, digo uns nãos. Abraço inteiro, brinco com o corpo, rio de mim, divago.

Trabalho sem perceber: quando me dedico ao que gosto, 24 horas por dia estou atento sem saber. Livres associações são imediatas.

Sempre que mudo de trabalho me dá um medo danado. Depois de tantas mudanças aprendi que dá tudo certinho, sou capaz de aprender o que não acreditava possível. Sei também que quando trabalho com o que não me identifico, sofro, fico mal-humorado, chateio quem não tem nada a ver.

E, quando me permito estar bem comigo, trato aos próximos como trato a mim. Fico bonito, me sinto assim. Mas – mesmo já sabendo tanto – vario.


Luiz Fernando Sarmento














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