uma vida incomum como qualquer um 19
incertas
Por limitações humanas, quantas ideias, invenções, soluções simples foram e
estão sendo deixadas de lado por cada um de nós? O que faz com que alguém
acumule o que não necessita e que poderia ser útil para outros?
O preenchimento de
vazios dentro de si mesmos? Se vazios, que vazios seriam estes? Quais origens destes
vazios individuais que talvez gerem tanto consumo, tanta necessidade de poder?
Tenho feito a mim
estas perguntas que faço a outros. Pouco a pouco percebo como meus próprios
vazios estimulam meus comportamentos. Dói tomar consciência do que sou,
dissolver a imagem ideal que tenho de mim. Tranquiliza reconhecer meus limites,
o que me falta. Facilita agir a partir do que disponho. Fico do meu tamanho.
Ligo a TV e alguém
que não conheço me informa que preciso ter algo que antes desconhecia. Tenho em
mim agora uma necessidade. Se tenho recursos para supri-la, satisfação momentânea.
Se não, um sentimento de impotência, incompetência, outro vazio. Me faz mal,
muito mal, esta publicidade do que não me faz bem... nem está ao meu alcance.
Imagino crianças e
adultos inocentes, a todo momento chamados para novas necessidades que não têm
condições de adquirir. E que não suprem os afetos básicos, alicerces de
bem--estar de fato.
Ronald Laing, em Laços, sintetiza: Mamãe me ama. Eu me
acho bom. Eu me acho bom porque mamãe me ama. E, se mamãe não me ama, eu
me acho mau.
Criança inocente –
imagino como muitas – desamores, desatenções alimentaram meus vazios. Descubro
em mim, não tenho esta dúvida: os vazios que vivi e não transcendi, repito
diariamente nos meus sentimentos, pensamentos, palavras, gestos.
Hoje, invertendo,
talvez mamãe aqui signifique aquela mamãe que volta e meia tenho
oportunidades de ser. Comigo, com o outro.
Compreendo ato falho como algo que – diferente da minha intenção consciente
– espontaneamente penso, falo, faço. Desde, sem querer-querendo, chamar
o outro pelo nome errado até pegar o caminho da casa da namorada quando
aparentemente intencionava ir para outro lugar. Assim, atos falhos me
interessam, traduzem o que lá dentro – fora da consciência – guardo, retenho,
sou.
Pulo. No
mundo, hoje, grande parte dos recursos são gastos em controles. Mas, acredito,
se responsabilidades e direitos – ganhos e perdas incluídos – são
compartilhados com os trabalhadores de cada empreendimento ou instituição,
naturalmente cada um cuida melhor do que também é seu. Neste cenário humanizado,
os custos e os controles diminuiriam consideravelmente.
A tendência, co-laboradora, o ganha-ganha. Talvez aqui uma contribuição para
transcendência de
crises econômicas. Na origem de tudo, o desejo de quem decide o que está ao seu
alcance.
Reflexões singelas
como estas – quando o olhar para fora é voltado para dentro de mim – me ajudam orientar
meus caminhos. Atento ao que está ao meu alcance, reconheço o que falta e me
falta, delimito, ajo, realizo.
Descubro na internet que existe uma rede de tecnologia social em que soluções
inventadas são disponibilizadas gratuitamente para quem deseje. A cisterna que
o pedreiro nordestino construiu e que acumula água de chuvas é referência.
Cisternas semelhantes já minoram a falta d’água para centenas de milhares de
famílias.
Imagino uma pequena
mudança de atitude minha ou de qualquer um e de muitos: compartilho o que
aprendi e me facilita a vida, torno minha vida mais agradável. Ofereço pelo
prazer de dar. Comigo isto se torna mais fácil quando me permito pequenos
grandes prazeres. Ando descalço, espreguiço, como com as mãos, digo uns sins,
digo uns nãos. Abraço inteiro, brinco com o corpo, rio de mim, divago.
Trabalho sem
perceber: quando me dedico ao que gosto, 24 horas por dia estou atento sem
saber. Livres associações são imediatas.
Sempre que mudo de
trabalho me dá um medo danado. Depois de tantas mudanças aprendi que dá tudo
certinho, sou capaz de aprender o que não acreditava possível. Sei também que
quando trabalho com o que não me identifico, sofro, fico mal-humorado, chateio
quem não tem nada a ver.
E, quando me
permito estar bem comigo, trato aos próximos como trato a mim. Fico bonito, me
sinto assim. Mas – mesmo já sabendo tanto – vario.
Luiz
Fernando Sarmento
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