quinta-feira, 11 de maio de 2017

mais ou menos um dia - uma vida incomum como qualquer um 21

  






  uma vida incomum como qualquer um 21

mais ou menos um dia

Um dia destes. O avião ronca. Quatro da matina, cochilo, lembro da importância do som neste documentário. A entrevista com Adalberto, a roda da terapia comunitária, as possibilidades de insights ao vivo, os depoimentos de quem viveu. Este o plano. Agora é com a realidade.

Ontem dia inteiro de reunião com o UNICEF, focado no repensar o Encontros, experiência em que jovens de camadas sociais diferentes se reúnem e, desejo dos que promovem – Michel, Cláudia, Gilberto, Luciana, Charles, Fernando... – ampliam conhecimentos sobre si, o outro, o mundo.

Antes, cedinho, saudação ao sol, café, imeios, telefonemas, embalo livretos de autohemo, pra Glória, por favor, despachar pelos correios. À noite, converso com Elizeu sobre o roteiro que montou e a busca de financiamento da Fiocruz.

Arrumo a mala, molho as plantas, telefono, lavo e estendo a roupa, boto correspondência em dia, carrego as baterias das câmeras, tomo banho, como caqui e melancia e desço correndo pra encontrar Michel no táxi que nos leva ao encontro de Hélio no aeroporto, rumo às Ocas do Índio, em Morro Branco, pertinho de Fortaleza. A caminho, sinto falta das chaves de casa, telefono à uma da manhã pro Jorge. Descobre que algum outro vizinho já as trouxe, sãs e salvas, pra dentro.

À espera do embarque, entre conversas curtas, puxo uma, Hélio, cordialmente crítico, melembra que sempre tenho uma solução pro mundo. Entalo. É verdade.

Ocas do Índio. 2008. Oito dias de frente prum mar morno e céu estrelado, tempo todo mais atento a mim e a outros. Bioenergética cedinho, intercalo, intercalamos razões e emoções, descobertas e compaixões, dores e prazeres. O clima é de reconhecimentos. Somos entre trinta e quarenta, agora mais que
profissionais, pessoas.

As noites são calmas, leves as comidas e os pensamentos. Cuidando de mim, aprendo um tanto cuidar de nós. Os que vivemos nos tornamos próximos. Adalberto de Paula Barreto é o mestre, maestro. Sua Terapia Comunitária, já sabemos, facilita rapidinho solidariedades. Neste espaço, combinamos antes, cada um só fala a partir do que viveu, experienciou. Conselhos, julgamentos não valem.

Todos têm oportunidade de se expressar. Quando cada um que deseja fala – das suas alegrias ou, mais comum, do que lhe atormenta –, todos escutam. É democraticamente escolhido, para aprofundamento, o problema com o qual mais pessoas se identificam. Em busca de melhor compreensão, quem fica na berlinda dá mais informações e responde a perguntas. Contextualiza.

Depois, em silêncio, ouve quem contribui com o relato de suas próprias vivências similares. Emoções afloram, pipocam identificações, pessoas se aproximam. Ao final, os que querem, falam do que levam desta roda. Muitas vezes conforto, tranquilidade, compreensões, autoconhecimento e estima.

Germinam vínculos, fortalecem-se laços, nascem e se realizam projetos voltados para interesses comuns ali descobertos.

Cultura, o que é? Antonio Faundez lembra Paulo Freire e se identifica com o que ele dizia que descobrir uma cultura é aceitar outra cultura, tolerá-la. E afirma que a cultura é mais do que manifestação artística ou intelectual através do pensamento. Sua manifestação mais profunda está nos gestos simples do cotidiano, como os diferentes jeitos de comer, dar a mão, relacionar-se com o outro.

Eu próprio quando leio Faundez, o escuto impregnado de minha própria cultura. Já não é mais Faundez puro. Somos agora misturados, inclusive a Paulo Freire.

Posses. Tudo muito bem, tudo muito certo. Reconheço, já não tenho meu tempo. Descobri maduro que não sou eu que tenho as coisas, são as coisas que me têm.

O carro que não tenho me obrigaria cuidá--lo, guardá-lo, emplacá-lo, mantê-lo. O animal que não tive me pede atenção, cuidados. O dinheiro requer guarda, controle. O que guardo nas prateleiras, no guarda-roupas me pede limpeza, arrumação. Tudo me pede tempo. Se não pede, toma.

Hoje, ainda, como não tenho meu tempo, corro. Na minha infância não soube de faltas até o momento em que, na cidade maior, vi a vitrine. Desejei o que não tinha. E por muitas vezes me angustiei por não me suprir das novas necessidades criadas. Só agora compreendi que o que aparentemente possuo é que me possui. Minhas posses me aprisionam.

Foi bom tê-las – estas coisas que me têm – e agora deixá-las a uma e outra. Por mim, hoje, só escreveria, filmaria. Muito do que me impede é minha carência, que me faz querer ser reconhecido, admirado, mesmo eu sabendo que – se minha autoestima depender do olhar de outros – posso eu próprio não me reconhecer. Como diz o Adalberto, o que você quer que eu queira, pra eu querer?


Winnicott dedicou a vida à pediatria e à psicanálise, especialmente a infantil. Fez, nos últimos anos de vida, palestras para os públicos mais diversos. Tudo Começa em Casa é o título do livro póstumo que contém estas palestras. Cada capítulo se encerra em si mesmo. Sua leitura tem me facilitado a vida, um tanto pela melhor compreensão de mim mesmo, outro tanto pela compreensão do outro, mamãe inclusive. E meus lados mãe, pai, filho.
Luiz Fernando Sarmento

















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