sexta-feira, 12 de maio de 2017

pronto - uma vida incomum como qualquer um 22

   



 uma vida incomum como qualquer um 22

pronto

Livre pensar, levitação de tempo e espaço. Ausência de nada, presença de tudo. Pulsação, inspiração, expiração. O fio invisível que me abre o fluxo.

Limbo. Eu, 65, de repente mudança de referências. Me desculpo, confundo, misturo vida e trabalho, constante busca, antecipação de futuro – experimento
já desejos pro futuro. Utilizo indicadores: tranquilo, bem humorado me sinto no caminho certo. Se não, que realizo para novo equilíbrio? Algo clareia: aprender a viver – tranquilo humorado – com o que está ao meu alcance?

Ficção. A busca-em-ação, a buscação é descoberta, experimentação, sim e não. Olho pra trás, domina a memória enevoada. Quando emergem lembranças, as felizes sobressaem. Tudo muito variado, umas vezes assim, outra incorporado.

E eu, aqui, em qualquer momento, impregnado de mim. Confuso e lúcido. Em conversa cifrada comigo mesmo, num misto de coragem e medo. Meu universo pulsa, sou centro e partícula, sou todo volume e não sou. E a prática de realizar: sonhar, lembrar, uma história, um plano passo a passo, fazer passo-a-passo.

Primeiro a estrutura – o lugar de morar, a saúde para cozinhar, lavar não passar, a feira, o mercado, o pequeno conserto, a manutenção, cada coisa tem seu lugar. Aos que frequentam, livre estar e cada coisa volta pro seu lugar. + a destinação dos objetos acumulados que me tornam um carregador do que possuo. As caixas numeradas. E alimentação de processos que dependem de outros.

Antes a ruptura. A palavra já não mais presa, a consciência serena, a ética como o básico. A segunda carta aberta, o email geral: compartilho as perguntas que me faço, as respostas que me dou. A primeira, aos mesmos contemporâneos da instituição, sugestões para a prática interativa de transmissão de conhecimentos que a lei determina e os recursos estão aqui. Esta gera uma chamada de atenção formal. A outra, a demissão.

Dor e prazer. Alegria também pela alforria, raiva pela cegueira do outro, tristeza pela recusa e falta. Diluiu? Evaporou? Passado um tempo, já é passado. E neste enorme cenário em vivo, tenho focado no que me mantém tranquilo, também procuro mel dentro do azedo. Dos bônus, o fundo de garantia, uma segurança. O plano de saúde mantém o custo, cumpre a lei.

Então! Estrutura, a casa pronta. Que mais? Com método, cada tarefa agendada. Pesquisa do necessário, separação de documentos, reprodução, consulta a quem sabe como é o processo todo. Contagem do tempo das contribuições, marcação apresentação.

Um dia após 65 anos, entrevista, papéis corretos, direitos garantidos, aposentadoria. Orçamento responsável: despesa nunca maior que receita. Adapto-me, camaleão. Vida mais simples, comida saudável, nova rotina que nem sei. Permanecem a saudação ao sol, os primeiros movimentos bioenergéticos. Simplifico o vestuário. Estou organizado.

Aposentadoria, plano de saúde, objetivos alcançados. O plano funcionou, o cronograma diferente do previsto. Cuido da legalização da morada.

Tostão. De novo, quando leio, entendo do meu jeito. E arrisco. O jogador, pensante, filosofa. Lembra da solidariedade e da impossível liberdade total sonhada por Sócrates, o do Platão. A utopia como referência, alimentação do desejo. Inalcançável. A lembrança de Tostão me anima, faz bem. Sonho, sem me limitar ao possível.

Narciso. Olho no espelho e me surpreendo, tão jovem e com estas marcas... E é eu.

Insight. O mundo muda quando cai a ficha. Quando o que compreendo me toca emocionalmente, minha vida ganha novo sentido. Mudaram meus desejos atuais quando me toquei que muitas das minhas necessidades recentes de poder – e dinheiro e objetos – estavam relacionadas a afetos que desejei e não tive na minha infância. Tenho me sentido melhor quando hoje procuro suprir diretamente os afetos que hoje desejo.

Primeiro, aprendi do que vi, ouvi, tateei, cheirei, botei na boca e senti. Desde criança transformei-me no que me foi apresentado como modelo. Estou fundamentalmente impregnado de informações que, no correr da vida, recebi tanto da escola, igreja, família quanto dos meios de comunicações e dos que estão ao meu redor.

Eu mesmo colaboro para a manutenção da moral atual, quando nos atos e encontros de toda hora transmito meus preconceitos aos meus filhos, amigos, vizinhos, colegas de trabalho.

Enfim: o homem que sou hoje é fruto do que antes senti, aprendi. O homem que serei amanhã deverá ser fruto do que hoje aprendo e sinto. O que percebi em mim, percebo em outros. Maputo, 1981, foi quando isto ficou claro pra mim. Desde então faz parte de minha visão de mundo.

Desisto de mim ou de você? O que é bom pra nós – pra mim, pra você – define o que podemos? Descomplicando, talvez já saibamos como tornar possível nossa relação: respeitar-me a mim e à outra, ao outro. Quero, por exemplo publicar o que escrevo, inda mais quando escrevo o que sinto. Me limito, me emudeço ou faço o que desejo? Desisto de mim ou de você? Ou não desisto e realizo meu desejo, independente de você?

Amor implica em dependência? Ou ao contrário? Amor não como prisão, mas como estímulo à liberdade? Vice versa? Eu aqui com meus sentimentos.


Luiz Fernando Sarmento









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