uma vida
incomum como qualquer um 22
pronto
Livre pensar, levitação de tempo e espaço. Ausência de nada, presença
de tudo. Pulsação, inspiração, expiração. O fio invisível que me abre o fluxo.
Limbo. Eu, 65, de repente mudança de referências. Me desculpo, confundo, misturo
vida e trabalho, constante busca, antecipação de futuro – experimento
já desejos pro
futuro. Utilizo indicadores: tranquilo, bem humorado me sinto no caminho certo.
Se não, que realizo para novo equilíbrio? Algo clareia: aprender a viver –
tranquilo humorado – com o que está ao meu alcance?
Ficção. A busca-em-ação, a buscação é descoberta, experimentação, sim e não. Olho
pra trás, domina a memória enevoada. Quando emergem lembranças, as felizes
sobressaem. Tudo muito variado, umas vezes assim, outra incorporado.
E eu, aqui,
em qualquer momento, impregnado de mim. Confuso e lúcido. Em conversa cifrada
comigo mesmo, num misto de coragem e medo. Meu universo pulsa, sou centro e partícula,
sou todo volume e não sou. E a prática de realizar: sonhar, lembrar, uma
história, um plano passo a passo, fazer passo-a-passo.
Primeiro a
estrutura – o lugar de morar, a saúde para cozinhar, lavar não passar, a feira,
o mercado, o pequeno conserto, a manutenção, cada coisa tem seu lugar. Aos que frequentam,
livre estar e cada coisa volta pro seu lugar. + a destinação dos objetos
acumulados que me tornam um carregador do que possuo. As caixas numeradas. E
alimentação de processos que dependem de outros.
Antes a ruptura. A
palavra já não mais presa, a consciência serena, a ética como o básico. A
segunda carta aberta, o email geral: compartilho as perguntas que me faço, as
respostas que me dou. A primeira, aos mesmos contemporâneos da instituição,
sugestões para a prática interativa de transmissão de conhecimentos que a lei
determina e os recursos estão aqui. Esta gera uma chamada de atenção formal. A
outra, a demissão.
Dor e prazer.
Alegria também pela alforria, raiva pela cegueira do outro, tristeza pela
recusa e falta. Diluiu? Evaporou? Passado um tempo, já é passado. E neste
enorme cenário em vivo, tenho focado no que me mantém tranquilo, também procuro
mel dentro do azedo. Dos bônus, o fundo de garantia, uma segurança. O plano de
saúde mantém o custo, cumpre a lei.
Então! Estrutura, a casa pronta. Que mais? Com método, cada tarefa agendada. Pesquisa
do necessário, separação de documentos, reprodução, consulta a quem sabe como é
o processo todo. Contagem do tempo das contribuições, marcação apresentação.
Um dia após 65 anos,
entrevista, papéis corretos, direitos garantidos, aposentadoria. Orçamento
responsável: despesa nunca maior que receita. Adapto-me, camaleão. Vida mais simples,
comida saudável, nova rotina que nem sei. Permanecem a saudação ao sol, os
primeiros movimentos bioenergéticos. Simplifico o vestuário. Estou organizado.
Aposentadoria,
plano de saúde, objetivos alcançados. O plano funcionou, o cronograma diferente
do previsto. Cuido da legalização da morada.
Tostão. De novo, quando leio, entendo do meu jeito. E arrisco. O jogador,
pensante, filosofa. Lembra da solidariedade e da impossível liberdade total
sonhada por Sócrates, o do Platão. A utopia como referência, alimentação do
desejo. Inalcançável. A lembrança de Tostão me anima, faz bem. Sonho, sem me
limitar ao possível.
Narciso. Olho no espelho e me surpreendo, tão jovem e com estas marcas... E é eu.
Insight. O mundo muda quando cai a ficha. Quando o que compreendo me toca
emocionalmente, minha vida ganha novo sentido. Mudaram meus desejos atuais
quando me toquei que muitas das minhas necessidades recentes de poder – e
dinheiro e objetos – estavam relacionadas a afetos que desejei e não tive na
minha infância. Tenho me sentido melhor quando hoje procuro suprir diretamente os
afetos que hoje desejo.
Primeiro, aprendi do que vi, ouvi, tateei, cheirei, botei na boca e senti. Desde
criança transformei-me no que me foi apresentado como modelo. Estou
fundamentalmente impregnado de informações que, no correr da vida, recebi tanto
da escola, igreja, família quanto dos meios de comunicações e dos que estão ao
meu redor.
Eu mesmo colaboro
para a manutenção da moral atual, quando nos atos e encontros de toda hora
transmito meus preconceitos aos meus filhos, amigos, vizinhos, colegas de
trabalho.
Enfim: o homem que
sou hoje é fruto do que antes senti, aprendi. O homem que serei amanhã deverá
ser fruto do que hoje aprendo e sinto. O que percebi em mim, percebo em outros.
Maputo, 1981, foi quando isto ficou claro pra mim. Desde então faz parte de
minha visão de mundo.
Desisto de mim ou de você? O que é bom pra nós – pra mim, pra você – define o
que podemos? Descomplicando, talvez já saibamos como tornar possível nossa
relação: respeitar-me a mim e à outra, ao outro. Quero, por exemplo publicar o
que escrevo, inda mais quando escrevo o que sinto. Me limito, me emudeço ou
faço o que desejo? Desisto de mim ou de você? Ou não desisto e realizo meu
desejo, independente de você?
Amor implica em
dependência? Ou ao contrário? Amor não como prisão, mas como estímulo à
liberdade? Vice versa? Eu aqui com meus sentimentos.
Luiz
Fernando Sarmento
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