uma vida
incomum como qualquer um 18
rotina
Escrevo para me confortar, gostar de mim, alegrar com o que vivo e com o que
vivi.
2011, até abril.
Outro dia, quase rotina. O primeiro toque do celular-despertador tem sido às seis.
Depois, seis e meia, seis e quarenta e cinco. Meia hora pra espreguiçar,
obnubilado nesta névoa da volta ao dia. Novo toque, se já não comecei, levanto
as pernas pra cima, permaneço um pouco em cada posição, me dobro até os pés
encontrarem o espaço atrás de minha cabeça.
Ao mesmo tempo,
entreabertos olhos, circulo o olhar exercitando a musculatura. Pernas pra cima de
novo, depois, um pouco, me aperto em posição fetal, equilibro um tantinho as
pernas no ar e me curvo pra frente, sentado, as mãos segurando os pés. Sento de
novo, torço meu tórax prum lado, pro outro. Repito tudo.
Levanto e faço a
saudação ao sol, que Regina me ensinou. Duas vezes, intercalada com balançares de
braços como li em Castañeda e como aprendi com Juracy Cançado. Rodo a cabeça,
pra esquerda, pra direita, como metaleiro em show. Antes, bem antes, em algum
momento, quase sempre, um e outro movimento bioenergético – bater pernas e
braços como neném, balançar meu corpo deitado como geleia, focar longe e
perto... – daqueles que vivi com Romel.
Sei que o terceiro
toque do despertador acontece quarenta e cinco minutos depois do primeiro. Tomo
um banho, faço um cafezinho, sento aqui por uma hora, uma e meia e me divirto
em livre associação, se não inteira, quase.
Tenho gostado de
viver. Em casa não tenho remédios. Nenhum, me orgulho. Almoço no Panela de
Barro, comida leve, saladas e algo de soja ou queijo, eventualmente um arroz, feijão.
De vez em quando um refresco de guaraná dito natural. E depois, descoberta, uma
cocadinha de Minas, feita com ameixa ou abóbora. O vício, uns cafezinhos de
máquina durante o dia, lá onde também trabalho todo dia útil, pela manhã e à
tarde, oito a dez horas.
2012, feiras às
terças, às vezes aos sábados. Faço arroz, feijão pra três, quatro dias. Bem
simples, só água e fogo. Preparo o almoço: na frigideira seca, terfal, um pouco
de queijo curado, arroz, fogo baixo, tampo. Pico algo como salsa, cebolinha, coentro.
Boto em cima do arroz. Do feijão já esquentado, pego um pouco sem caldo,
acrescento.
Corto o inhame ou a
batata baroa já cozida, coloco na frigideira. Tudo quente, viro de uma vez num
prato grande. Pronto meu almoço. Talvez uma couve esquentada na água. Com
certeza, na mesa, pimenta malagueta. É minha refeição principal, no meio do
dia.
Pela manhã, mamão,
eventualmente junto com banana ou abacate. Durante o dia, quando dá vontade,
corto laranjas em quatro, retiro a casca com as mãos, uma delícia.
O fazedor italiano
– aquele sextavado que já se tornou popular – me oferece café quente e novo
umas três, quatro vezes ao dia. Água, vario, tomo pouco, sinto que deveria
tomar mais um tanto.
Lavo mas não passo.
Mantenho mas não varro. Molho as plantas. Cada dia tem sido novo dia.
Gasto só o que
tenho. Depois de 49 anos de trabalho, salve o INSS, sou um aposentado, digamos,
ativo. Mais foco no que sinto, no que penso, no que falo, no que faço. Aprendo
atenção nos meus sentimentos, pensamentos, palavras e gestos. Impressionante como
volta e meia me descubro colocando pedras em meu caminho. Tropeço, dou aquela
corridinha que o tropeço causa, às vezes caio. Aprendizado mais lento do que
desejo. Mas, confesso, nisto dependo só de mim. Reclamações? Vou pro espelho.
Leio. Mergulho
quando me toco. Alguns livros na cabeceira, minha mão vai instintivamente onde meu
desejo da hora me leva. Evito televisão. Só o necessário. Lembro Freud quando
ele afirma que a maioria dos sonhos tem a ver com o dia anterior. Cuido de hoje
pra ter bons sonhos.
Ah! E toma de tomar
banho. Alterno frio e quente. Pouco sabão. Nos cabelos, neca de xampu e condicionador,
só água. Nada radical, como com a comida. Em Roma, como os romanos. Quando visito
minha família mineira, como carne, ovo frito, pão de queijo. Fantasio que sei o
nome da galinha sacrificada, como talvez soubesse nos tempos de infância.
Limpo os óculos
várias vezes ao dia. Sabão de coco e água, ficam transparentes as lentes. De duas
em duas semanas um casal amigo, Jorge, o Russo – e Eliany – dá uma geral aqui
em casa. Maravilha, um auxílio luxuoso.
Hoje mesmo – que já
é passado – gravo aqui em casa, só, as apresentações que faço dos programas Saiba+
que têm ido ao ar pela TV Comunitária do Rio. Tento torná-los atemporais, pra
que possam ser veiculados em qualquer época. Os recheios são os
vídeos-registros-documentários que realizei ou produzi, só ou com amigos e
colegas. Imagino possam ser veiculados como programas de rádio, se não sem,
quase sem alterações. Para gravar, sei apertar os botões básicos da câmera simples
e boa que Elizeu me sugeriu. Já editar, não sei, sou suprido por profissionais
amigos.
E escrevo,
re-escrevo, de acordo com os sentimentos que variam em mim. O FGTS que recebi
quando fui demitido do Sesc Rio tem sido a base para as despesas extras, como a
impressão do livro, a edição dos programas. Já financiou parte das despesas com
um Blogspot onde reúno quase tudo que me exponho, textos e links. E a página,
que o Videolog me oferece (onde me oferecia. Já não me oferece mais), disponibilizo
quase todos os vídeos.
Já o desejado sofá,
só quando entrar um dinheiro extra de um trabalho extra. A vida simples, mas
boa, do dia-a- -dia, o salário simples de aposentado garante.
2017. Muda tudo.
Como só vegetais. E gosto muito. Sem óleos nem gorduras. Um luxo. Volta gostos
e sensações de infância, adolescência.
Luiz
Fernando Sarmento
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