adulto jovem
outros dias
Descobri que quando
alguém me diz não! Devo rapidim verificar se este não é de quem
diz ou é meu. Volta e meia querem cortar meu cabelo, mudar meu jeito, trocar
minha camisa, que eu construa uma pirâmide. Normalmente é problema de quem tem
problema com seu próprio cabelo, seu jeito, camisa. E de quem complica sua vida
construindo as pirâmides que inventa.
Agora mesmo agradeço
oportunidade de me candidatar a recursos para realizar documentário que quero.
O assunto, terapia comunitária, me interessa profundamente. Mas me angustiam prazos,
prestações formais de contas, limitações externas de conteúdos.
Acordei já com o estômago
contraído. Decido pelo que desejo e está ao meu próprio alcance, com meus
recursos e tempos. Imediatamente meu corpo relaxa, meus pensamentos se
aquietam, me acalmo.
Nada a ver, tudo a
ver, uma quase dúvida: juventude é estado de espírito? E velhice?
Amsterdam se foi inesperadamente. A morte da mãe de Ana nos trouxe de volta. Fomos até
Cádiz, atravessamos o estreito de Gibraltar, Marrocos. Meu rabo de cavalo agora
em coque, receio não ser aceito cabeludo em cultura estranha. Tetuan, o ônibus
tosco pega e deixa pelo caminho gente, carga e animais. Punhais saem de djelabs
para descascar frutas, cortar nacos de carne. Camelos passam ao largo. Aos trancos,
Marrakesh.
No Zoco, mercado
central, montes de castanhas, aquela música serpenteante vinte e quatro horas por
dia. Gente que conversa pegando na gente. Um que passa com duas luvas de boxe à
procura de contendores que apostem no seu próprio taco. Às tardinhas, o mesmo
personagem – agachado como seus espectadores – conta histórias como novelas.
Um menino me puxa e
oferece, atento a tudo – kif, kif, cinq dirrans! Compro
aquela mão cheia de maconha - haxixe? - vou esgueirando pra pensão, aperto um
baseado com alguns desconhecidos aventureiros espanhóis, fica tudo escuro de
repente, perco a visão por catorze horas. Badtrip.
Talvez decorrência
daquele ácido potente que tomei inocente no banheiro em Amsterdam, alguns dias
atrás – fiquei então seis horas em orgasmo contínuo, e outras tantas em puro
terror, a zanzar pelas ruas e canais da cidade estranha. Na África a visão
voltou, meus medos me fizeram limitar-me ao botequim frequentado por europeus errantes
como eu.
Enquanto Ana, como
se estivesse em casa, já com vestimenta local, andava pelos becos a descobrir
de um tudo da cidade e sua gente. Só Jung pra explicar esta memória ancestral de
Ana, nascida Aben-Athar.
Pegamos o destino errado, na volta. Só homens no vagão, o chefe de trem sacou o perigo e
nos acomodou numa cabine isolada. Passada a noite em nebulosa direção,
retomamos não sei como o caminho para Casablanca. Dali, Espanha, Portugal ainda
salazariano, avião pro Brasil de Médici. Ou Geisel.
No Rio, busca de
uma nova rotina, burocracias. Nos meses que antecederam a ida pra Europa morávamos
sete numa casa, comunidade urbana criada por nós – Ana, Paulo Cangussú e eu. Inicialmente
três, colocamos anúncio em jornal, talvez Pasquim ou JB, e acolhemos quatro
desconhecidos.
Era tanto movimento
que volta e meia dormíamos fora, em busca de sossego. Uma vez, em Ipanema, na
praia, quando acordamos, Paulo, primo amigo comunitário original, deu por falta
dos óculos. Procura dali e daqui, rastros de ratos nos levaram aos seus
buracos. As lentes continham celulose, apetitosa pros roedores. Foram-se os
óculos.
Outra vez abri a
parte de cima do armário do meu quarto e, lá, numa sacola das Casas da Banha,
daquela de papel, canabis até o tampo. Surpresa que explicou tamanho entra e
sai de gente estranha. Talvez ali a gota d’água pra dissolver a casa e a
comunidade.
Luiz
Fernando Sarmento
Nenhum comentário:
Postar um comentário