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Olhos, ouvidos, nariz percebem uma situação.
A realidade contradiz o rádio, o jornal, revista, televisão,
meios de incomunicação.
tudo mutável
Cheguei em Brasília em janeiro ou fevereiro de 1965, menos de um ano após o golpe militar. Lembro – a memória pode ser falha – duzentos e tantos professores foram mandados embora da Universidade de Brasília. Uma greve longa já no primeiro ano de faculdade. Morei em casas públicas ocupadas por nós estudantes.
Um mundo novo, esta cidade nova, com gente de todos os lugares. Uma vida juvenil, agitada. Zona boêmia só fora do Distrito Federal, era a lei. Um passo além da fronteira, uma pequena vila com prostitutas. Na minha solidão, uma garrafa de Martini debaixo do braço, em finais de semana, numa aventura, pé na estrada, pegava caronas. Lá quase implorava pelos favores gratuitos de quem vendia o corpo. Quando acolhido, um paraíso neste oásis de solidão.
Joguei o que não tinha, perdia minhas mesadas mensalmente no carteado. Só trinta anos passados vim saber que talvez houvesse roubo no jogo. Parei quando, pra pagar o que perdi e não tinha, comprei à prestação um jogo de pneus pro carro de quem ganhou.
Em casa chegamos a fazer o jogo da garrafa. Em roda, uma garrafa era girada no centro. Quando parava, a boca apontava quem deveria tirar uma peça de roupa.
Uma fome danada, uma vez comemos de nos fartar numa pizzaria almejada. Sobrou pra mim, corri por último. Sorte que estava com botas. Garçons atrás, me enfiei no mato. Brasília tinha mato no meio das quadras.
Uma boa moça – Batalhão foi o apelido agregado ao nome – nos acolhia em seus braços com carinho. Num mato, um amigo se alegrou com seus gemidos. Findo o ato amoroso, era um espinho o motivo dos ais.
Que bom antes da aula, cedinho, quando com dinheiro, comer 7 pães com manteiga e café-com-leite. Que chato, ao voltar pra casa – já morando em alojamento no campus – ser obrigado a marchar feito barata tonta. Eram os soldados do exército, que cercavam a Universidade acuada, se divertindo.
A UnB toda rodeada por militares armados, um a cada poucos metros, em todo o seu perímetro. Fui preso uma vez, junto com duas dezenas de colegas, como represália pela retenção – sequestro, aprisionamento? – de um policial por estudantes ativos. Foi um dia só. Na prisão, quem pedia pra fazer necessidades voltada apanhado. Morri de medo. Só passei a ver militares com outros olhos quando, em Moçambique, vi soldados conversando naturalmente de mãos dadas com civis.
Pra ler no banheiro
Que má sorte, associam a bebida, o cigarro, à vida. Veja a publicidade, é a morte.
*
Parto de novo, agora no escuro. Volto a ser ovo do meu próprio futuro. Sensação de carinho, os sons quase mudos, negrume, morninho, esqueço de tudo.
*
Se assim nos carnavais, como então nos futebóis? O jogo como prazer, o prazer no ato do fato. Quanto a vencer, talvez, agora sua vez.
*
Desconfio, controlo. Controlo, se não confio.
*
Reflito
a esmo. Na multidão dos aflitos, acredito em mim mesmo.
*
O
que me proíbo, em outros critico. Se não me permito, a outros
inibo.
*
Tantas vezes… Olhos, ouvidos, nariz percebem uma situação. A realidade contradiz o rádio, o jornal, revista, televisão, meios de incomunicação.
*
Uma amiga me ensina: como posso dizer sim a algo que não está em mim?
*
Um amigo simplifica: complexidade – isto e aquilo, em vez de isto ou aquilo.
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