A Busca das Origens dos Incômodos
Tateio. Rever as verdades
talvez seja um caminho. Sinto que o que é tido como verdade talvez permaneça – ou não? –
verdade. Intuo que verdades atuais
necessitam ser sentidas, analisadas, repensadas. Para ser verdade somente o
verdadeiro, enquanto verdadeiro. Para deixar de ser verdade o preconceito, o
moralismo, o basicamente falso.
Fui marcado em minha
inocência. Por muito tempo permaneceram dúvidas. Tudo que a igreja católica
(**) me ensinou não foi verdade durante tanto tempo? O prazer a gerar o pecado?
O pecado a gerar o castigo? A possibilidade de castigo a gerar o medo, a culpa?
A culpa, o medo a gerar submissão?
Sentir prazer? É pecado!
Namoro, sonho, raiva, beijos? Pecados! Veniais ou mortais, do tamanho da culpa.
Sentimentos e sensações suprimidos pelo medo, durante toda minha vida. E cada
vez mais insensível, mais homem, mais burro.
O correto, me diziam, era a
submissão. Submissão hoje, paraíso amanhã. Nada de aqui e agora. O passado
com a “cultura”, o futuro com o “juízo final”. Com tanta pressão só me restava,
no presente, o medo.
E quantas ditas verdades tão
duramente implantadas em mim, na minha infância e no correr da minha vida,
ainda permanecem no meu inconsciente como marcas e verdades? Mas quando repenso
o que me foi ensinado – volto às origens, tomo consciência de preconceitos e os
compreendo – meus sentimentos de medo e culpa se dissolvem um tanto, perdem
suas fontes. Vivo mais levemente, retorna minha alegria da inocência.
Procuro e pratico os conceitos
radicalmente humanos, ou adapto-me aos preconceitos existentes? Dura luta. E
esta luta tem uma importância maior do que a que antes eu lhe dava. Atrás do
preconceituoso, do moralista, está o eu mecânico.
Estou em aprendizado. Um
caminho tem sido repensar as verdades estabelecidas – o repensar como ato
cotidiano, o refletir em cada ação de que me dou conta – e isto tem criado
possibilidades de alterar meu mundo, ampliá-lo. Dá trabalho, canso, descanso,
cresço. E, mais do que digo e escrevo, meu comportamento tem sido minha
mensagem para os meus filhos, companheiros de trabalho, vizinhos, amigos, os
que passam e estão em minha vida. Como eu, sinto, acreditam mais no que sou do
que no que digo que sou.
Inda bem. Estou aprendendo a
me aceitar como originalmente sou. Assim fica mais fácil aceitar o outro como
é, outros como são.
31
anos depois, 2012
Fico mais tranquilo - e estou
gostando - quando me limito ao que está ao meu alcance. Não sei nem dizer
direito, não sei se a memória alimenta desejos... e se desejos diminuem com
ausências de memória. Esqueço e me tranquilizo. O que não quero esquecer,
anoto. Inclusive compromissos.
Tateio neste novo mundo – pra
mim – onde me aceitar me facilita a compreensão do outro... Sem complicações, o
indicador tem sido meu humor. Meu bom humor indica que estou bem... Tento,
tropeço, engatinho... Estou gostando.
(**)
Hinduísmo, budismo, islamismo,
judaísmo, cristianismo. Católicos, protestantes, kardecistas, umbandistas,
candomblecistas. Batistas, metodistas, pentecostais, quacres. xintoístas,
taoístas, confucionistas. Não tenho experiências com outras culturas
religiosas. Sei que minha vivência pessoal na cultura católica mais contribuiu
para minhas limitações de que para meu desenvolvimento integral – seja
emocional, intelectual ou espiritual.
Isto naturalmente não exclui o
bem estar que cada uma das religiões possa ter propiciado a outros. A fé vem da
experiência. Não devo criticar quem, por ter vivido o que não conheço, tem fé.
Ninguém melhor que cada um para melhor se conhecer, saber de si.
*
Este texto é parte das reflexões
que fiz e escrevi na década de 80.
São parte do capítulo
Reflexões sobre o Homem Novo
que compõe meu livro
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