sexta-feira, 25 de março de 2016

A Busca das Origens dos Incômodos




A Busca das Origens dos Incômodos

Tateio. Rever as verdades talvez seja um caminho. Sinto que o que é tido como verdade talvez permaneça – ou não? – verdade. Intuo que verdades atuais necessitam ser sentidas, analisadas, repensadas. Para ser verdade somente o verdadeiro, enquanto verdadeiro. Para deixar de ser verdade o preconceito, o moralismo, o basicamente falso.

Fui marcado em minha inocência. Por muito tempo permaneceram dúvidas. Tudo que a igreja católica (**) me ensinou não foi verdade durante tanto tempo? O prazer a gerar o pecado? O pecado a gerar o castigo? A possibilidade de castigo a gerar o medo, a culpa? A culpa, o medo a gerar submissão?

Sentir prazer? É pecado! Namoro, sonho, raiva, beijos? Pecados! Veniais ou mortais, do tamanho da culpa. Sentimentos e sensações suprimidos pelo medo, durante toda minha vida. E cada vez mais insensível, mais homem, mais burro.

O correto, me diziam, era a submissão. Submissão hoje, paraíso amanhã. Nada de aqui e agora. O passado com a “cultura”, o futuro com o “juízo final”. Com tanta pressão só me restava, no presente, o medo.

E quantas ditas verdades tão duramente implantadas em mim, na minha infância e no correr da minha vida, ainda permanecem no meu inconsciente como marcas e verdades? Mas quando repenso o que me foi ensinado – volto às origens, tomo consciência de preconceitos e os compreendo – meus sentimentos de medo e culpa se dissolvem um tanto, perdem suas fontes. Vivo mais levemente, retorna minha alegria da inocência.

Procuro e pratico os conceitos radicalmente humanos, ou adapto-me aos preconceitos existentes? Dura luta. E esta luta tem uma importância maior do que a que antes eu lhe dava. Atrás do preconceituoso, do moralista, está o eu mecânico.

Estou em aprendizado. Um caminho tem sido repensar as verdades estabelecidas – o repensar como ato cotidiano, o refletir em cada ação de que me dou conta – e isto tem criado possibilidades de alterar meu mundo, ampliá-lo. Dá trabalho, canso, descanso, cresço. E, mais do que digo e escrevo, meu comportamento tem sido minha mensagem para os meus filhos, companheiros de trabalho, vizinhos, amigos, os que passam e estão em minha vida. Como eu, sinto, acreditam mais no que sou do que no que digo que sou.

Inda bem. Estou aprendendo a me aceitar como originalmente sou. Assim fica mais fácil aceitar o outro como é, outros como são.

31 anos depois, 2012

Fico mais tranquilo - e estou gostando - quando me limito ao que está ao meu alcance. Não sei nem dizer direito, não sei se a memória alimenta desejos... e se desejos diminuem com ausências de memória. Esqueço e me tranquilizo. O que não quero esquecer, anoto. Inclusive compromissos.

Tateio neste novo mundo – pra mim – onde me aceitar me facilita a compreensão do outro... Sem complicações, o indicador tem sido meu humor. Meu bom humor indica que estou bem... Tento, tropeço, engatinho... Estou gostando.

 (**)
Hinduísmo, budismo, islamismo, judaísmo, cristianismo. Católicos, protestantes, kardecistas, umbandistas, candomblecistas. Batistas, metodistas, pentecostais, quacres. xintoístas, taoístas, confucionistas. Não tenho experiências com outras culturas religiosas. Sei que minha vivência pessoal na cultura católica mais contribuiu para minhas limitações de que para meu desenvolvimento integral – seja emocional, intelectual ou espiritual.
Isto naturalmente não exclui o bem estar que cada uma das religiões possa ter propiciado a outros. A fé vem da experiência. Não devo criticar quem, por ter vivido o que não conheço, tem fé. Ninguém melhor que cada um para melhor se conhecer, saber de si.

*

Este texto é parte das reflexões
que fiz e escrevi na década de 80.



São parte do capítulo
Reflexões sobre o Homem Novo
que compõe meu livro



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