Entrada na cabeça
Não tenho conseguido concluir o terceiro artigo de uma série que
chamei de reflexões sobre o homem novo, iniciada no Luta & Prazer número
três. Decidi então passar para o papel ideias soltas que me afloram à cabeça.
Não as ordenei nem as conclui. Expressam, no entanto, preocupações minhas
atuais. Um lado de mim as vê ridículas, desnecessárias e repetitivas. Outro as
vê humanas e lúcidas. Arrisco.
Sonhar e praticar o sonho
Que mundo enorme, meu mundo em que meus olhos, cheiro, gosto,
tato e audição não atuam. Um mundo do tamanho da minha autopercepção.
Ilógica lógica? Irracionalidade é a prática do irracional.
Irracional é o que falta razão. Razão é o natural. Natural é o que vem da
natureza. Natureza é o que é original. Original é o que vem da origem. Origem é
nascimento. Nascimento é ponto de partida.
Amanhã e outro lugar é completamente diferente de aqui e agora.
E estar aqui e agora não exclui sonhar e trabalhar um amanhã em outro lugar. O
futuro se faz no presente, nasce do presente. Se o presente é amplo, aberto, o
futuro está sendo aberto, está se ampliando. Se limito o presente, não deixo o
futuro se abrir. Limito o futuro.
Como entender pessoas que agem de forma contrária à da gente?
Como o que não policia poderá compreender o que policia, do ponto de vista de
quem policia?
Cada ação tem sua origem, tem suas razões.
Estar a fazer o que gosta, em função do seu próprio estar bem:
felicidade?
Quando se quer conviver com outras pessoas, socialmente, qual o
limite da busca individual de felicidade: não atrapalhar a felicidade de cada
um dos outros?
A percepção mais completa não é o sentir? A falta de percepção
não é o não sentir? Quem não sente não percebe? Como vencer o medo? Vivendo
mais profundamente situações que nos causam medo? Tentando chegar, pela
vivência mais profunda dos medos, às origens dos medos?
E, atento, discernir entre o que em cada medo é gerado pela
imaginação e o que é gerado pelas possibilidades reais de perigo?
Manter a vida significa manter a liberdade. Liberdade é poder
ser. O poder ser de um se limita com o não poder matar no outro o poder ser do
outro.
Os projetos de cada um não estarão ligados, objetiva e
subjetivamente, à solução do que cada um vivencia como problema?
Serão recuperáveis as possibilidades de emoção não vivenciadas
hoje?
Os filhos crescem, eu cresço ou envelheço, as situações mudam,
está tudo acontecendo.
As pessoas, mesmo desinformadas, sentem. Inclusive se ressentem.
E agem em função dos seus próprios sentimentos, conscientemente ou não. A
omissão, a apatia, a iniciativa, a autonomia são reflexos da situação interior
do ser humano.
A cada fato, cada pessoa reage de acordo com o seu ser. Ao mesmo
fato correspondem tantas reações quantos são os indivíduos que percebem este
fato, naquele momento. Estas reações estão ligadas às histórias de vida de cada
um.
Como esperar compreensão de outras pessoas, se não tento
compreendê-las, procurando sentir do ponto de vista delas as razões delas?
Cada pessoa tem seu projeto, seus sonhos, suas conceituações de
felicidade e infelicidade, em função do que apreendeu durante sua vida.
Meu espaço se limita com outros espaços. Meu limite é a outra
pessoa, as outras pessoas, seus espaços.
Em cada cabeça, muitos sonhos.
Em cada dúvida, a possibilidade de tomar consciência:
é só pensar.
Quando construo uma casa, já na profundidade da fundação, coloco
a minha própria história: se eu for inseguro, desejo uma fundação tão profunda
quanto a necessária para me fazer sentir seguro. Se estou bem comigo, a
fundação poderá ter somente a profundidade realmente necessária. Se quero me
isolar do mundo, muitas paredes, grades, muros. Se quero me abrir, a amplidão
dos espaços.
O mundo acaba quando um morre?
Descubro a todo momento: crianças estão constantemente atentas.
Entendem e se expressam. Já os adultos normalmente nem as entendemos nem
conseguimos com elas – as crianças – manter contato.
Economia, política, controle, ciência, impostos, construções,
festa, trabalho, tudo que os homens criam, em princípio criam para melhorar as
condições em que homens vivem. Mas quem executa, coordena, planeja cada
trabalho também é humano. E, como humano, cada um carrega consigo as marcas que
as emoções ou a falta delas trazem.
E estas marcas influem no comportamento de
cada um. Inclusive nos atos cotidianos de trabalhar, divertir, conviver, falar,
andar, mover, parar. E se quem executa, coordena, planeja, não consegue
perceber os seus próprios problemas internos como pessoas humanas, que
capacidade terá para tentar melhorar as condições em que outros homens vivem?
Não consegue estar bem consigo mesmo, mas deseja ou detém o poder de interferir
no bem estar de outros.
Que presente é este que consigo suportar? Em que devo me
transformar e em que devo transformar meu mundo para que o meu, o nosso bem
estar aconteça?
É tanta coisa a toda hora. Uma vida para viver.
Paro para perceber e dissecar este sentimento de culpa por não
estar agora cuidando de quem eu ajudei a por no mundo? Dou uns socos no
travesseiro para gastar esta agitação interna? Vivencio, agudizo meu estar ou
me contenho?
Que estrutura é esta que se desagrega quando chegam pessoas de
fora?
Devo gastar meu tempo, energia, enfim, devo me gastar procurando
viver agora o bem estar desejado, ou devo estar constantemente me preparando
para um futuro melhor, desatento ao presente?
Cortar agora a raiva presente ou expressá-la a quem ela é
dirigida, cuidando de não ferir? Por que
não dizer da insegurança de não saber o que dizer ou fazer?
*
Este texto é parte das reflexões
que fiz e escrevi na década de 80.
Compõe o capítulo
Reflexões sobre o Homem Novo
que compõe meu livro
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