terça-feira, 29 de março de 2016

Entrada na cabeça



Entrada na cabeça

Não tenho conseguido concluir o terceiro artigo de uma série que chamei de reflexões sobre o homem novo, iniciada no Luta & Prazer número três. Decidi então passar para o papel ideias soltas que me afloram à cabeça. Não as ordenei nem as conclui. Expressam, no entanto, preocupações minhas atuais. Um lado de mim as vê ridículas, desnecessárias e repetitivas. Outro as vê humanas e lúcidas. Arrisco.


Sonhar e praticar o sonho

Que mundo enorme, meu mundo em que meus olhos, cheiro, gosto, tato e audição não atuam. Um mundo do tamanho da minha autopercepção.

Ilógica lógica? Irracionalidade é a prática do irracional. Irracional é o que falta razão. Razão é o natural. Natural é o que vem da natureza. Natureza é o que é original. Original é o que vem da origem. Origem é nascimento. Nascimento é ponto de partida.

Amanhã e outro lugar é completamente diferente de aqui e agora. E estar aqui e agora não exclui sonhar e trabalhar um amanhã em outro lugar. O futuro se faz no presente, nasce do presente. Se o presente é amplo, aberto, o futuro está sendo aberto, está se ampliando. Se limito o presente, não deixo o futuro se abrir. Limito o futuro.

Como entender pessoas que agem de forma contrária à da gente? Como o que não policia poderá compreender o que policia, do ponto de vista de quem policia?

Cada ação tem sua origem, tem suas razões.

Estar a fazer o que gosta, em função do seu próprio estar bem: felicidade?

Quando se quer conviver com outras pessoas, socialmente, qual o limite da busca individual de felicidade: não atrapalhar a felicidade de cada um dos outros?

A percepção mais completa não é o sentir? A falta de percepção não é o não sentir? Quem não sente não percebe? Como vencer o medo? Vivendo mais profundamente situações que nos causam medo? Tentando chegar, pela vivência mais profunda dos medos, às origens dos medos?

E, atento, discernir entre o que em cada medo é gerado pela imaginação e o que é gerado pelas possibilidades reais de perigo?

Manter a vida significa manter a liberdade. Liberdade é poder ser. O poder ser de um se limita com o não poder matar no outro o poder ser do outro.

Os projetos de cada um não estarão ligados, objetiva e subjetivamente, à solução do que cada um vivencia como problema?

Serão recuperáveis as possibilidades de emoção não vivenciadas hoje?
Os filhos crescem, eu cresço ou envelheço, as situações mudam, está tudo acontecendo.
As pessoas, mesmo desinformadas, sentem. Inclusive se ressentem. E agem em função dos seus próprios sentimentos, conscientemente ou não. A omissão, a apatia, a iniciativa, a autonomia são reflexos da situação interior do ser humano.

A cada fato, cada pessoa reage de acordo com o seu ser. Ao mesmo fato correspondem tantas reações quantos são os indivíduos que percebem este fato, naquele momento. Estas reações estão ligadas às histórias de vida de cada um.

Como esperar compreensão de outras pessoas, se não tento compreendê-las, procurando sentir do ponto de vista delas as razões delas?

Cada pessoa tem seu projeto, seus sonhos, suas conceituações de felicidade e infelicidade, em função do que apreendeu durante sua vida.

Meu espaço se limita com outros espaços. Meu limite é a outra pessoa, as outras pessoas, seus espaços.

Em cada cabeça, muitos sonhos.

Em cada dúvida, a possibilidade de tomar consciência:
é só pensar.

Quando construo uma casa, já na profundidade da fundação, coloco a minha própria história: se eu for inseguro, desejo uma fundação tão profunda quanto a necessária para me fazer sentir seguro. Se estou bem comigo, a fundação poderá ter somente a profundidade realmente necessária. Se quero me isolar do mundo, muitas paredes, grades, muros. Se quero me abrir, a amplidão dos espaços.

O mundo acaba quando um morre?

Descubro a todo momento: crianças estão constantemente atentas. Entendem e se expressam. Já os adultos normalmente nem as entendemos nem conseguimos com elas – as crianças – manter contato.

Economia, política, controle, ciência, impostos, construções, festa, trabalho, tudo que os homens criam, em princípio criam para melhorar as condições em que homens vivem. Mas quem executa, coordena, planeja cada trabalho também é humano. E, como humano, cada um carrega consigo as marcas que as emoções ou a falta delas trazem. 

E estas marcas influem no comportamento de cada um. Inclusive nos atos cotidianos de trabalhar, divertir, conviver, falar, andar, mover, parar. E se quem executa, coordena, planeja, não consegue perceber os seus próprios problemas internos como pessoas humanas, que capacidade terá para tentar melhorar as condições em que outros homens vivem? Não consegue estar bem consigo mesmo, mas deseja ou detém o poder de interferir no bem estar de outros.

Que presente é este que consigo suportar? Em que devo me transformar e em que devo transformar meu mundo para que o meu, o nosso bem estar aconteça?
É tanta coisa a toda hora. Uma vida para viver.

Paro para perceber e dissecar este sentimento de culpa por não estar agora cuidando de quem eu ajudei a por no mundo? Dou uns socos no travesseiro para gastar esta agitação interna? Vivencio, agudizo meu estar ou me contenho?

Que estrutura é esta que se desagrega quando chegam pessoas de fora?

Devo gastar meu tempo, energia, enfim, devo me gastar procurando viver agora o bem estar desejado, ou devo estar constantemente me preparando para um futuro melhor, desatento ao presente?

Cortar agora a raiva presente ou expressá-la a quem ela é dirigida, cuidando de não ferir?  Por que não dizer da insegurança de não saber o que dizer ou fazer?


*
Este texto é parte das reflexões
que fiz e escrevi na década de 80.



Compõe o capítulo
Reflexões sobre o Homem Novo
que compõe meu livro




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