Livre pensar 02
Proibição de Emoções
Acredito no ser humano
recém-embrionado como totalmente original, sem nenhum comportamento de origem
moral. As regras que vai absorvendo têm suas fontes em seus modelos, que são as
pessoas ao seu redor, a vida ao seu redor.
Acredito ainda que a cada regra pode
corresponder uma limitação de atuação do novo ser. E esta atuação deformada,
pressionada de fora - ou esta atuação suprimida - gera sentimentos, emoções.
Que podem ser de raiva, medo... Estas emoções, por sua vez, necessitam ser
expressas.
Assim, muitas vezes, quando são
expressas estas emoções e sentimentos -
percebidos socialmente como coisa reprovável
- acontece de serem proibidas por outros seres humanos com quem convive este
novo ser. E, em função destas proibições, o novo ser tende a se sentir
incomodado, ridículo, inseguro.
A partir de então, para evitar estes
desagradáveis sentimentos reativos, o novo ser aprende a evitar as emoções
originais, geradoras de atuações de repressões externas. O novo ser evita as
emoções originais, internaliza a repressão.
Como evita as emoções? Alterando a
respiração natural, enrijecendo a parte do corpo que for necessária enrijecer
para que a emoção seja suprimida. Até que a repetição constante deste
enrijecimento torne a parte do corpo cronicamente enrijecida – quando da
sensualidade do requebro, por exemplo, parando de requebrar, endurecendo a
musculatura pélvica. Para sossego dos pais (viado meu filho não vai ser!), da
igreja (alma em estado de graça, assexuado, sem pecados, passivo e
submisso...), do quartel (homem tem que ser duro), dos que exploram (operários
escravos).
Recuperar o jogo dos quadris, outras
sensações, sentimentos e emoções, implica numa recuperação da mobilidade da
parte do corpo enrijecida.
Trabalhar o corpo, a cabeça, recuperar
a flexibilidade perdida tem sido difícil, às vezes quase impossível. Acredito –
pelas vivências sinto - que recuperar emoções, sentir emoções pode ser
inicialmente doloroso. Em seguida, atraente, gostoso, gratificante.
E quando as emoções gostosas pintam,
as ações são mais produtivas. Soluções mais claras, humor mais leve,
comportamentos mais racionais. E quando do avesso, da contenção de emoções,
restam mesquinharia, burrice, mau humor invadindo a vida.
Agir, alterar comportamentos já
rotineiros, recuperar as próprias emoções, acredito ser a base para a tentativa
de trabalhar pela autonomia de outros seres humanos, emocionáveis como nós.
Certeza absoluta, nenhuma: o que aqui
tento relatar tem a intenção de passar informações a pessoas que detêm o poder
de refletir. São anotações pessoais, frutos da observação constante: acredito
que possam representar verdades.
Luiz Fernando Sarmento
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