sexta-feira, 10 de março de 2017

Livre pensar 03






Livre pensar 03

Formação de Caráter


Quando nasce, às vezes sofre já no parto. É separado da mãe, único ponto de referência até então. Aplicam-lhe substâncias químicas: líquidos nos olhos, pomadas na pele, vitaminas artificiais pela boca. “Remédios”. Deixam-no sem mamar na mãe. Às vezes a incubadeira, cesariana, fórceps. Reclama como sabe: chora.

Seu choro não é entendido, e seu choro é sua maneira de se expressar. Tem medo. Como defesa, naturalmente se contrai. O ato de contrair se dá com o enrijecimento de musculaturas. Se uma contração muscular é repetida diversas vezes, a tendência é se ter uma contração muscular crônica. Ou seja, um endurecimento constante (fixo) da musculatura. Que corresponde a uma alteração do comportamento original.

Enfim, fisicamente, intelectualmente, emocionalmente o ser humano já é induzido a endurecer-se desde quando nasce. Este endurecimento funciona como uma defesa contra as tantas agressões inesperadas e repetidas que sofre. Em resumo: a uma situação de perigo corresponde uma reação muscular de contração. À repetição de situações de perigo semelhantes, correspondem contrações musculares semelhantes. A repetição de uma contração muscular torna o músculo cronicamente rígido. Ou seja: um enrijecimento muscular (físico) corresponde a uma fixação de uma repressão emocional, intelectual.

Na verdade, no corpo de cada ser humano está escrito sua história. No corpo de cada ser, individualmente.

Vejamos: quando começa a se expressar, a criança já é alvo de repressões por parte das pessoas que a rodeiam. Um exemplo: uma criança de dois, três anos. O brincar com o seu próprio corpo lhe dá sensações. Em princípio, de prazer. Ao brincar com os seus órgãos genitais, uma pessoa lhe diz: “pára com isto menino. Que feio.”. Se a criança continua, é alvo de uma sanção – um tapa, um falar enérgico. “Tira a mão daí!”. Ao lhe ser proibido o prazer, a criança reage. Primeiro, com raiva. Vê-se impotente diante do mais forte. Então chora.

Mas toda vez que chora, lhe é dito: “ih, bobo. Homem não chora.”. E toda vez que lhe é dito isto, sente-se ridículo. Para evitar a sensação desagradável do ridículo, corta o choro. A maneira de cortar o choro é engoli-lo. Para engolir, tem que contrair musculaturas da garganta.

Situações que provocam choro são repetidas constantemente. Situações de corte de choro são também repetidas constantemente: ou seja, situações de contração de uma mesma musculatura são muitas vezes repetidas. Contrações musculares repetidas geram contrações musculares crônicas. No exemplo do choro, quando o choro é engolido repetidamente, a musculatura correspondente se endurece. Aí então já não é necessário se esforçar para cortar o choro. Ele já está definitivamente cortado. A criança virou “homem”.

Só que o endurecimento muscular - efetuado para se dar o corte do choro – impede também o se expressar plenamente: o cantar a todo vapor, o falar, o gritar. Impede muito mais que só o choro.

Inúmeras outras situações repetidas a todo momento, no dia a dia de cada um de nós, vão “assassinando” o ser humano natural e fazendo crescer o homem “civilizado”. O processo se inicia com as crianças, cresce com os adolescentes e se solidifica com os adultos.

Situações repressivas continuam a acontecer no dia a dia, com adultos trabalhadores, quando o poder é utilizado para fazer prevalecer uma ideia ou uma ação. A todo momento, poderosos de diversos níveis dão ordens que têm a função de – aparentemente -  fazer produzir mais. Os oprimidos*, na maioria das vezes, sem condições de agredir diretamente quem os oprime, inconscientemente ou conscientemente, se “vingam” de maneiras as mais inesperadas. Mão de obra mecânica, omissão, trabalho malfeito. São resultados de desprazer no trabalho e na vida.

A mente contra o ato do corpo. Resultado: a burocracia, o mal-estar, a dissociação trabalho-prazer.

Burocracia                         

Lá fora o sol, o vento
Chuva, movimento, terra
Aqui limites, tormento
Em papéis a vida se encerra

Este meu porto
Oito horas por dia
Como outros, torto
Sem alma, sem alegria

Confinado me emperro
Em meio à burocracia
Horas, anos, um tempão

Sonho, aposentadoria
Enquanto espero, me enterro
Vida, trabalho, prisão


*
Oprimidos também se tornam opressores. Acredito que o opressor de hoje tem origem em opressões anteriores. Quem deseja ardentemente o poder não estaria procurando inconscientemente suprir um vazio antigo – por exemplo, o peito que precocemente lhe retiraram? O exercer o poder de mando não representaria o cobrar do mundo o que se percebe como devido pelo mundo? Cobro o que me devem.  Estes e ou quais seriam os motivos que fazem tantos oprimirem e tantos se submeterem a opressões?



Luiz Fernando Sarmento






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