Livre pensar 03
Formação de Caráter
Quando nasce, às vezes sofre já no
parto. É separado da mãe, único ponto de referência até então. Aplicam-lhe
substâncias químicas: líquidos nos olhos, pomadas na pele, vitaminas
artificiais pela boca. “Remédios”. Deixam-no sem mamar na mãe. Às vezes a incubadeira,
cesariana, fórceps. Reclama como sabe: chora.
Seu choro não é entendido, e seu choro
é sua maneira de se expressar. Tem medo. Como defesa, naturalmente se contrai.
O ato de contrair se dá com o enrijecimento de musculaturas. Se uma contração
muscular é repetida diversas vezes, a tendência é se ter uma contração muscular
crônica. Ou seja, um endurecimento constante (fixo) da musculatura. Que
corresponde a uma alteração do comportamento original.
Enfim, fisicamente, intelectualmente,
emocionalmente o ser humano já é induzido a endurecer-se desde quando nasce.
Este endurecimento funciona como uma defesa contra as tantas agressões
inesperadas e repetidas que sofre. Em resumo: a uma situação de perigo
corresponde uma reação muscular de contração. À repetição de situações de
perigo semelhantes, correspondem contrações musculares semelhantes. A repetição
de uma contração muscular torna o músculo cronicamente rígido. Ou seja: um
enrijecimento muscular (físico) corresponde a uma fixação de uma repressão emocional,
intelectual.
Na verdade, no corpo de cada ser humano está escrito sua história. No corpo de
cada ser, individualmente.
Vejamos: quando começa a se expressar,
a criança já é alvo de repressões por parte das pessoas que a rodeiam. Um
exemplo: uma criança de dois, três anos. O brincar com o seu próprio corpo lhe
dá sensações. Em princípio, de prazer. Ao brincar com os seus órgãos genitais,
uma pessoa lhe diz: “pára com isto menino. Que feio.”. Se a criança continua, é
alvo de uma sanção – um tapa, um falar enérgico. “Tira a mão daí!”. Ao lhe ser
proibido o prazer, a criança reage. Primeiro, com raiva. Vê-se impotente diante
do mais forte. Então chora.
Mas toda vez que chora, lhe é dito:
“ih, bobo. Homem não chora.”. E toda vez que lhe é dito isto, sente-se
ridículo. Para evitar a sensação desagradável do ridículo, corta o choro. A
maneira de cortar o choro é engoli-lo. Para engolir, tem que contrair
musculaturas da garganta.
Situações que provocam choro são
repetidas constantemente. Situações de corte de choro são também repetidas
constantemente: ou seja, situações de contração de uma mesma musculatura são
muitas vezes repetidas. Contrações musculares repetidas geram contrações
musculares crônicas. No exemplo do choro, quando o choro é engolido repetidamente,
a musculatura correspondente se endurece. Aí então já não é necessário se
esforçar para cortar o choro. Ele já está definitivamente cortado. A criança
virou “homem”.
Só que o endurecimento muscular -
efetuado para se dar o corte do choro – impede também o se expressar
plenamente: o cantar a todo vapor, o falar, o gritar. Impede muito mais que só
o choro.
Inúmeras outras situações repetidas a
todo momento, no dia a dia de cada um de nós, vão “assassinando” o ser humano
natural e fazendo crescer o homem “civilizado”. O processo se inicia com as
crianças, cresce com os adolescentes e se solidifica com os adultos.
Situações repressivas continuam a
acontecer no dia a dia, com adultos trabalhadores, quando o poder é utilizado
para fazer prevalecer uma ideia ou uma ação. A todo momento, poderosos de
diversos níveis dão ordens que têm a função de – aparentemente - fazer produzir mais. Os oprimidos*, na maioria das vezes, sem condições
de agredir diretamente quem os oprime, inconscientemente ou conscientemente, se
“vingam” de maneiras as mais inesperadas. Mão de obra mecânica, omissão,
trabalho malfeito. São resultados de desprazer no trabalho e na vida.
A mente contra o ato do corpo.
Resultado: a burocracia, o mal-estar, a dissociação trabalho-prazer.
Burocracia
Lá fora o sol, o
vento
Chuva, movimento,
terra
Aqui limites,
tormento
Em papéis a vida
se encerra
Este meu porto
Oito horas por
dia
Como outros,
torto
Sem alma, sem
alegria
Confinado me
emperro
Em meio à
burocracia
Horas, anos, um
tempão
Sonho,
aposentadoria
Enquanto espero,
me enterro
Vida, trabalho,
prisão
*
Oprimidos também se
tornam opressores. Acredito que o opressor de hoje tem origem em opressões
anteriores. Quem deseja ardentemente o poder não estaria procurando
inconscientemente suprir um vazio antigo – por exemplo, o peito que
precocemente lhe retiraram? O exercer o poder de mando não representaria o
cobrar do mundo o que se percebe como devido pelo mundo? Cobro o que me devem. Estes
e ou quais seriam os motivos que fazem tantos oprimirem e tantos se submeterem
a opressões?
Luiz Fernando Sarmento
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