Livre pensar
O Trabalho como Prisão
*
Em tempo:
Escrevi as
Reflexões Sobre o Homem Novo,
das quais este
texto faz parte, em 1981, em Moçambique. Sinto permanece atual.
*
Para tentar mudar a situação, o poder
reage com o controle e o castigo. A imagem antiga é a do feitor com o chicote.
A imagem atual é a do relógio de ponto, do corte do salário, da suspensão, do
controle de papel. Tanto controle se torna necessário, que uma grande
quantidade de mão-de-obra é destinada a esta tarefa. O volume do trabalho de
controlar pede utilização de tecnologia avançada. Entram os computadores. São
formados especialistas em controles. Faz-se a ciência do controle. Isto já são
fatos no Brasil, em boa parte do mundo.
Como resolver então o problema do
aumento de produção, dito tão necessário? Em última instância um dos fatores
decisivos para o aumento de produção é a mão-de-obra. Em mão-de-obra leia-se
homem.
A mão-de-obra deverá ter a sua
produtividade aumentada. Poderá também ter o volume de tempo de trabalho
aumentado.
Sigamos pelo aumento de produtividade:
isto com certeza aumentará a produção. Como fazer com que isto aconteça?
Tentando fazer com que a mão-de-obra participe por iniciativa própria? Tentando
controlar o seu trabalho? Enfim: mão-de-obra autônoma ou mão-de-obra mecânica?
Para a formação de autômatos, reforçar
o controle e o castigo é um caminho. Para a formação de autônomos, temos que
refletir.
Anotações
sobre a Autonomia
Nos últimos cinco anos tentei me
aproximar de assuntos ligados à relação corpo-mente, no ser humano. Acredito,
como outros observadores, que, via de regra, o corpo é um espelho da história
de cada um. A barriga, o olhar, o andar, o falar, são sinais da história de
cada um. A nuca que dói pode ser sintoma do músculo que endureceu de tanta
tensão provocada, por exemplo, pelo medo. A boca rigidamente fechada pode
refletir a raiva tão longamente contida.
Acredito também, pela observação e
alteração de mim mesmo, que a situação pode ser mudada. Um lado gratificante é
a ampliação da percepção, o acesso a novos olhares. Uma boa e honesta conversa,
também consigo mesmo. Parece, porém, ser indispensável tentar entender
profundamente o ser humano, para apoiá-lo no seu novo parto. Para ajudá-lo a
aprender a andar, pensar, agir, ser autônomos.
Antes, ou paralelamente, cada um por
si tentar perceber o próprio corpo, suas emoções, sua própria mente, acredito
ser mais do que necessário a todo aquele que tenta perceber os outros, orientar
a outros, dirigir. Desenferrujar-se, aprender a lubrificar-se, tornar-se
autônomo: um sonho possível de realizar-se.
Luiz Fernando Sarmento
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