Livre
pensar 09
Escuto você me escuta
Muitas das metodologias de comunicações
tradicionais dificultam comunicações. Palestras, por exemplo, poucos de nós têm
paciência para só ouvir.
A interação parece ser uma chave.
Quando todos têm oportunidade de se expressar individualmente – mesmo
num tempo limitado pré-combinado – cada um se sente participante.
Especialmente se o respeito pelo outro está presente.
Monólogos iniciais – de cada um, incluindo
todos – facilitam diálogos posteriores, básicos para construções de
parcerias. E quando mais de dois conversam entre si, as possibilidades de
entendimento se multiplicam. O boca a boca espontâneo acompanha os desejos:
entre os que têm desejos semelhantes, a comunicação é passo largo para
construções coletivas...
Pressupostos
Permanecem mistérios quanto às primeiras
origens – se é que existem – de tudo ou de cada objeto, ação, energia,
pensamento... Como exemplo, quando vivenciadas, ausências ou abstrações de
tempo e espaço mexem com visões de mundo e provocam decorrências,
inclusive alterações de comportamentos. Quem vivenciou, sente, sabe.
Sabemos, quando permitimos a consciência, que
a razão muitas vezes funciona como defesa em relação ao sentir.
Inclinam, declinam, flutuam civilizações, permanecem as questões – de onde
viemos, quem somos, para onde vamos? Donkivim, onkotô, pronkovô? E,
sempre presente, ser ou não ser? Sou eu ou sou o outro? Em cada momento,
estou ou não estou? O que você quer que eu queira, para eu querer?
Sou um mapa da minha vida. Sinto que dentro
de mim tenho um tanto de quem senti, me identifiquei. Sou parte de meus filhos,
meus pais, irmãs, irmão. Sou parte de quem convivo ou convivi intensamente.
Socorro, Ana, Vânia, Vera, Regina, Carmen, Fátima, Juliana, Cláudia... Descubro
em mim mamãe, papai, João Porphírio, Stella, Lina, Ló... Tanta gente hoje ainda
interfere em mim, pelo que me tocou, pelo que me trouxe direta ou
indiretamente. Mesmo que eventualmente me esqueça de mim mesmo ou de quem tive
boas lembranças.
A consciência – quem vivencia, sabe –
facilita mudanças. Enquanto isto, com todas minhas limitações, percebo
em mim mesmo – quando me permito – que minhas ações são precedidas pelos
meus sentimentos.
Parece claro que a emoção precede a razão.
Que meu comportamento é influenciado por minhas emoções – atuais e passadas. E
que o conhecer e o reconhecer causas de meu comportamento atual facilitam e
estimulam minhas próprias transformações.
Livre associação
Se não me permito, a outros inibo. Só
dou o que tenho, o que sou. Entre a intenção e o gesto, o que impede é
mistério. Tantos caminhos, tantas as pessoas. Transformações sociais, somas de
transformações individuais? O ser humano individual como base? Aqui o foco?
Pequenos prazeres – o arrepio, o frescor,
este fogo, aquele olhar, ai-meu-deus-só-de-lembrar, a brincadeira, o insight,
o descanso, o banho, a comida, encher o peito, pele macia, o afeto,
solidariedade, o alívio. Pequenos prazeres, a gente esquece? Tão simples, tão
perto, um gesto... Tão complexo, tão longe, uma paralisia.
Aparente bagunça
Desorganizado internamente, quero tudo
certinho, limpinho, arrumadinho. Já alguma lucidez me traz compreensão. São
fluxos: o caos precede a ordem que antecede o caos. Equilíbrios diferentes.
No tantra preservo o ching – o ki? –,
interrompo um fluxo e internalizo outro. Nas redes de meus pensamentos se
conectam lembranças. Ausentes espaços – se fundem com meu pulsar. E ausentes
tempos – futuro, passado – agora se confundem: inexistem desordem e ordem.
E de novo tudo se inverte. Existe agora,
existe lugar, já sou eu separado do mundo à procura de me reintegrar. Tudo
isto, sinto-sei, é só outro ritmo de respirar.
Mas vamos parar com isto e fazer o que de mim
meu redor espera. Se divago, sonho. Se sonho... Mas o sonhar não antecede toda
realização?
Luiz Fernando Sarmento
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