segunda-feira, 3 de abril de 2017

Livre pensar 09 - Escuto você me escuta




Livre pensar 09

Escuto você me escuta


Muitas das metodologias de comunicações tradicionais dificultam comunicações. Palestras, por exemplo, poucos de nós têm paciência para só ouvir.

A interação parece ser uma chave. Quando todos têm oportunidade de se expressar individualmente – mesmo num tempo limitado pré-combinado – cada um se sente participante. Especialmente se o respeito pelo outro está presente.

Monólogos iniciais – de cada um, incluindo todos – facilitam diálogos posteriores, básicos para construções de parcerias. E quando mais de dois conversam entre si, as possibilidades de entendimento se multiplicam. O boca a boca espontâneo acompanha os desejos: entre os que têm desejos semelhantes, a comunicação é passo largo para construções coletivas...

Pressupostos

Permanecem mistérios quanto às primeiras origens – se é que existem – de tudo ou de cada objeto, ação, energia, pensamento... Como exemplo, quando vivenciadas, ausências ou abstrações de tempo e espaço mexem com visões de mundo e provocam decorrências, inclusive alterações de comportamentos. Quem vivenciou, sente, sabe.

Sabemos, quando permitimos a consciência, que a razão muitas vezes funciona como defesa em relação ao sentir. Inclinam, declinam, flutuam civilizações, permanecem as questões – de onde viemos, quem somos, para onde vamos? Donkivim, onkotô, pronkovô? E, sempre presente, ser ou não ser? Sou eu ou sou o outro? Em cada momento, estou ou não estou? O que você quer que eu queira, para eu querer?

Sou um mapa da minha vida. Sinto que dentro de mim tenho um tanto de quem senti, me identifiquei. Sou parte de meus filhos, meus pais, irmãs, irmão. Sou parte de quem convivo ou convivi intensamente. Socorro, Ana, Vânia, Vera, Regina, Carmen, Fátima, Juliana, Cláudia... Descubro em mim mamãe, papai, João Porphírio, Stella, Lina, Ló... Tanta gente hoje ainda interfere em mim, pelo que me tocou, pelo que me trouxe direta ou indiretamente. Mesmo que eventualmente me esqueça de mim mesmo ou de quem tive boas lembranças.

A consciência – quem vivencia, sabe – facilita mudanças. Enquanto isto, com todas minhas limitações, percebo em mim mesmo – quando me permito – que minhas ações são precedidas pelos meus sentimentos.

Parece claro que a emoção precede a razão. Que meu comportamento é influenciado por minhas emoções – atuais e passadas. E que o conhecer e o reconhecer causas de meu comportamento atual facilitam e estimulam minhas próprias transformações.

Livre associação

Se não me permito, a outros inibo. Só dou o que tenho, o que sou. Entre a intenção e o gesto, o que impede é mistério. Tantos caminhos, tantas as pessoas. Transformações sociais, somas de transformações individuais? O ser humano individual como base? Aqui o foco?

Pequenos prazeres – o arrepio, o frescor, este fogo, aquele olhar, ai-meu-deus-só-de-lembrar, a brincadeira, o insight, o descanso, o banho, a comida, encher o peito, pele macia, o afeto, solidariedade, o alívio. Pequenos prazeres, a gente esquece? Tão simples, tão perto, um gesto... Tão complexo, tão longe, uma paralisia.

Aparente bagunça

Desorganizado internamente, quero tudo certinho, limpinho, arrumadinho. Já alguma lucidez me traz compreensão. São fluxos: o caos precede a ordem que antecede o caos. Equilíbrios diferentes.

No tantra preservo o ching – o ki? –, interrompo um fluxo e internalizo outro. Nas redes de meus pensamentos se conectam lembranças. Ausentes espaços – se fundem com meu pulsar. E ausentes tempos – futuro, passado – agora se confundem: inexistem desordem e ordem.

E de novo tudo se inverte. Existe agora, existe lugar, já sou eu separado do mundo à procura de me reintegrar. Tudo isto, sinto-sei, é só outro ritmo de respirar.

Mas vamos parar com isto e fazer o que de mim meu redor espera. Se divago, sonho. Se sonho... Mas o sonhar não antecede toda realização?

Luiz Fernando Sarmento








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