terça-feira, 4 de abril de 2017

Livre pensar 10 - No quarto de brinquedos






Livre pensar 10

No quarto de brinquedos


É isto?

Gasto tanto tempo tentando mudar o comportamento do outro que me esqueço de mudar em mim este vício de querer mudar o outro.

No quarto de brinquedos

Quem beijou, beijou. Quem não beijou, beijará jamais? Beija! Beija! Beija! Beija já! Quando escolho o médico, escolho o tratamento. Se vou ao cirurgião, ele vai fazer o que? E o homeopata, o pai-de-santo, o psicanalista? E nós? Somos dos que cuidamos dos sintomas – e tome aspirina? Somos dos que cuidamos das causas?

De longe se vê mais tudo. De perto se vê mais fundo. De longe, um sistema. De perto, práticas. Vamos pela aparente ordem. Eu sou você.

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A história pessoal a gente imagina, se não conhece: anterior à fecundação, mistério. Já na gestação, o estado emocional da mãe interfere no estar do filho.

Do ponto de vista do feto, um maremoto antecipa o parto: o que me espera do outro lado deste inconsciente paraíso? Se cesária, é ferro. Se minha mãe se entregou aos reflexos, ao invés de dor, prazer. Se recepção afetuosa, pulo pro colo, volto ao meu mundo que conheço, nestes primeiros momentos em espaço estranho.

Se recepção neurótica, me viram de cabeça pra baixo, batem na minha bunda, espetam meu pé, me enrolam em panos, me isolam no berçário, vislumbro gente do outro lado da vitrine, sinto medo e medo e em defesa me contraio. E choro e choro e meu choro não é compreendido. Quero mamãe. Um vazio dentro de mim.

Nós

Se você, neste momento, não sou eu, parabéns pra você. Mas se você é comum, como eu, prepare-se. Intercalado aos prazeres – às vezes menos ou mais – a turma do não é bem maior. Eu cá tento. Aproveito os bons momentos: serão lembranças.

Eu

Mamo. Com o olhar procuro mamãe neste momento de prazer, mas mamãe não suporta, desvia a atenção. Olho então pro teto, estrabizo, me míopo. Entre poucos sins, minha família, os vizinhos, professores, patrões, meus colegas de infância-adolescência-trabalho – em gestos, palavras – me dizem não e não. Tudo que aprenderam a não se permitir, me ensinam. Não bote a mão aí, não chore, não grite, este prazer não. Outros vazios.

Cultura pesada

Mandamentos, leis normatizam o que devo ser. Se transgrido, o castigo – se não vier agora – virá depois da morte. Tento e tento cumprir as normas. Exame de consciência, arrependimento, confissão, penitência. Volto, em estado de graça, a ser comedido.

Associo prazer a castigo.
O prazer se torna insuportável.
A alegria se torna insuportável.
Não me permito o amor.

Consigo um pouco seguir as leis. Fraquejo, transgrido de novo e repito o ciclo. A moral – moralismo? – toma espaço da ética original. Internalizo a repressão. Meu corpo traduz o que estou. E, guerrilheiro de mim mesmo, como uns docinhos aqui, um prazer solitário ali – seriam substitutos de prazeres originais, válvulas de escape? E construo minhas verdades.

Supro meus vazios emocionais com os objetos que agora desejo. Me engano que gosto. Farinha pouca meu feijão primeiro. E, paralelo, se eu não posso, porque eles? Meu umbigo é do meu tamanho. Nada vejo em volta além de mim. Um tanto assim, mais ou menos, sou um homem comum. Quadro pintado preto, a realidade me salva com seus tons cinzas.


Luiz Fernando Sarmento









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