sábado, 27 de maio de 2017

ficção, desarrumações - uma vida incomum como qualquer um 36

    



uma vida incomum como qualquer um 36

ficção, desarrumações


Falo das qualidades do produto, desperto seu desejo. Omito quanto ganharei de você pelo que agora lhe vendo. Sou esperto, mais ainda porque lucro muito. E você ainda me valoriza pelo que acumulo. Deseja ser rico como eu.

Já nem preciso de tanto. Gasto muito de mim na conservação do que estoco. Nem tenho prestado atenção nestas contradições que o excesso me provoca. Ser rico dá trabalho. Fico de olho em outros que agirão como eu se tiverem oportunidade. Gente que volta e meia muda as regras. Ou transgride.

Eu mesmo tomo minhas providências, quando a lei não é suficiente. Não tenho muitas dúvidas. Insônia, gastrite, hipertensão, estas dores é que me atrapalham. E os pesadelos, os sobressaltos? Não tenho podido usufruir do que possuo.

Tanta gente próxima pelo que tenho, que já nem sei quem me ama pelo que sou. Minha prática em mentir nos negócios é que me protege um pouco: reconheço logo quem também mente. Mas não tenho amado, desaprendi reconhecer quem me ama.

Tem também estas coisas que acontecem e não entendo. Lembro uns pedaços do que sonhei esta noite. Uma mistura de quente e frio, vendavais, maremotos, calmarias. Túneis, desertos. Névoas e sol a pino. Ora era eu o ator, ora desconhecidos. Minha mulher me disse que suei, gritei, chorei e ri. Tinha pela frente uma encruzilhada quando acordei com o toque dela. Ficou esta dúvida do que fazer com minha vida. Ai que saudades de minha inocência.


Luiz Fernando Sarmento















Nenhum comentário:

Postar um comentário