uma vida
incomum como qualquer um 25
programa de tv
Imagino um. No palco, tudo muito simples. Pessoas em roda, vieram
pela oportunidade de compartilhar questões de todo dia. Falar, ouvir, sempre a
partir do que cada um viveu.
As frases, é
combinado, são na primeira pessoa, começam com Eu. A metodologia pode
ser, por exemplo, a da Terapia Comunitária. Como ela, há outras maneiras de
facilitar expressões mais profundas e estimular solidariedades. Isto acontece
todo dia e nós temos acesso.
Imagino outro.
Outro ambiente. Central do Brasil, por exemplo. Um palhaço faz a pergunta que deve
ser respondida em um minuto pelo passante. O que você pode fazer para
melhorar suas relações com sua família?
Esta pergunta – e
outras, diretas – estimulam respostas relacionadas a experiências pessoais. O
espectador, na medida em que se identifique com o relatado, tenderá a também se
questionar. E quando cai a ficha... muda a visão de mundo... e o mundo muda.
Dois câmeras
atentos a si e ao outro. Os sentimentos inesperados que afloram devem ser
suportados, focados, gravados. Para que os espectadores tenham também
possibilidades de se identificar com estes sentimentos, perceberem que não são só
seus, solidarizar-se com os que sentem. Nascem vínculos entre quem vê e sente e
quem originalmente vive e sente.
Toda semana, os
câmeras gravam, os espectadores interagem sentimentalmente. Ambos, além dos protagonistas,
podem se desenvolver a partir da consciência do que sentem, do que são.
E quando caem as
fichas – quando cada um se compreende um tanto, emocionalmente – espaços se
abrem para o entendimento de causas de comportamentos atuais. E, no tornar-se
consciente – a perda da inocência –, possibilidades de transformações.
Nenhuma velocidade
estonteante, são outras as sensações. O caminho é emocionante, pra quem se
permite, atento, sentir. Ao fim de cada encontro, cada um carrega consigo o que
sentiu, vivenciou. E, no cotidiano, sua memória emocional o acompanha, estimula
a consciência dos seus sentimentos, pensamentos, palavras, atos.
E aquele antes
espectador tende a desvendar caminhos, a dar passos como protagonista de sua
própria vida. Isto acontece todo dia. Faltam os câmeras e aqueles que realizam e
veiculam programas de TV.
Sonhei uma multidão - 400 pessoas? - disponível para uma brincadeira de
crescimento. Sugeri de imediato que cada um de nós, a partir deste momento, só
falássemos o que porventura fosse bom pra si mesmo, pra quem escutasse ou para
aqueles a quem a fala se referisse. E ofereci escolhessem.
Vivenciarmos juntos
uma sessão de terapia comunitária. Ou, divididos em grupos de até 40,
fizéssemos rodas onde cada um pudesse em 1 ou 2 minutos falar do que oferecia e
do que procurava aqui, agora. Eu poderia facilitar um encontro ou outro. Acordei.
Entrevistas O repórter, aqui, é produtor, observador. O
entrevistado é convidado a falar para outro, alguém que faz parte do público a
quem se destinam as informações que oferece. O entrevistador, agora, é leigo,
curioso. O inesperado: a entrevista se transforma em conversa, entrevistador e
entrevistado se alternam. O entrevistado encontra a linguagem do público. O
público agradece.
Focos nos conteúdos. Como convidada, aquela pessoa especial, cuja fala corresponde
às suas ações, ao que é. Como entrevistadora, aquela pessoa interessada. Estão
próximas, o que permite o tom de voz normal. A convidada fala diretamente para
quem a entrevista. No meio, atrás ou ligeiramente de lado, voltada para a convidada,
uma câmera ligada está esquecida, não há operador. No quadro, cabeça, ombros,
talvez os gestos das mãos. Microfone direcional, de lapela?
Quando reproduzida
na tela, a entrevistada estará olhando diretamente para os espectadores. Sensação
de proximidade. Quem ouve atento, se comove, compreende, internaliza novos
conhecimentos, se sente mais inteiro que antes.
Somos todos artistas? Aconteceu no Teatro Carlos Gomes. Quem esteve presente
nunca será o mesmo. Saiu mais vivo que entrou. Pura promoção de saúde. Bom negócio
pra todo mundo. Ficou gravado só nos corações. Pode acontecer toda semana?
Gravar também audiovisual, passar na televisão?
Assisti outro dia
um programa ganha-ganha. Criação coletiva, com dedos do Pontes, o Roberto – o
saber em todo ser. E de Vitor, o Pordeus, o médico-ator. O
artista-facilitador, Vitor, cede espaço para quem chega mais. Facilita,
estimula a expressão do outro.
No palco,
auxiliares são receptivos. Os músicos intercalam popular e clássico, vinhetas
criam climas. O público espelha o apresentador, acolhe e é acolhido. Palco e
plateia interagem, trocam de lugar naturalmente.
Na plateia, no
palco, roupas, chapéus, acessórios estão disponíveis, espalhados por todos
lugares, acessíveis a quem deseja, somos todos artistas. O público-artista,
na maioria, da periferia do Rio. Na programação, ciência e arte dialogam,
conversam como se fosse comigo. Na produção, tudo junto e misturado, pessoas
ativas de comunidades populares, de serviços públicos, de ONGs, voluntários.
Outro programa
assim, produzido por quem de espírito semelhante – Pordeus pensador ativo,
inclusive – foi o Loucura Total, no Instituto Nise da Silveira, Museu de
Imagens do Inconsciente. Até hoje não sei quem era público, quem era médico, doido
ou paciente. Música, letra e festa da melhor qualidade. Não ficou dúvida: somos
todos iguais.
Em programas assim,
o fim é o bem-estar. A forma e o conteúdo são meios. Quantos mais singela a
forma, menos chama a atenção sobre si. A forma, aqui, se torna mensagem.
Reafirma o fim, a função do próprio conteúdo. O pensamento, o sentimento é a
linguagem. O meio, a mensagem.
Luiz
Fernando Sarmento
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