uma vida
incomum como qualquer um 26
piripaco
Mais passado. Outro dia. Sinto o lábio superior, à direita, como
que levemente anestesiado. Mesmo estranho, não esquento. Uma e outra vez o olho
direito embaça, lacrimeja.
Dois ou três dias
assim, estou num almoço amigo, uma amiga me fala que um lado do meu rosto está diferente
do outro. Os presentes se ligam. Cláudia insiste, vamos à emergência do
hospital São Lucas. Sala de espera cheia, receio de AVC ou algo assim,
priorizam meu atendimento.
A médica me examina
em pé, solicita ali mesmo exames. Já sentado, uma auxiliar retira meu sangue, instala
o pinga-pinga do soro. Próximo passo, tomografia.
É tarde de domingo,
movimento crescente na emergência. Um dedo quebrado, o excepcional em crise, um
letárgico em cadeira de rodas, outro que já chega morto, uma idosa à procura de
escuta, todos em busca de cuidados e afetos, os nove boxes cheios, os espaços
de espera também.
A médica me
diagnostica, talvez paralisia parcial periférica. Causas ainda indefinidas. Receita
o que considera necessário, me orienta para um neurologista. Anoitece, saio
confortado com o atendimento, me senti cuidado.
Na segunda, no
lusco-fusco da madrugada relembro e faço, como exercícios, movimentos com os
olhos e músculos. Telefono pros bem próximos, tranquilizo, me emociono,
agradeço acompanhamentos, disposições e disponibilidades.
Já com os
resultados da tomografia e do sangue, neurologista. Sangue bom – todos os indicadores
de acordo com as referências. Resultados normais, reflexos também. Aventa
causas possíveis. Meu plano de saúde facilita, o médico solicita outros exames.
Chegou a noite. Tomo um açaí na lanchonete, vou pra casa.
Terça, enquanto
marco exames, me fortaleço. Auto-hemoterapia, 5 milímetros retirados do meu braço
e aplicados imediatamente na nádega. Jun, acupuntor amigo, pesquisa oriente e
ocidente, traz informações, também aventa causas, me faz perguntas. Faz
sentido: um choque térmico talvez tenha sido provocado por aquele vento forte
do ventilador novo que mantive ligado ao meu lado direito enquanto utilizo em
casa o computador.
Jun define uns
poucos pontos, aplica. Na terceira agulha durmo profundamente. Acordo uma hora depois,
sonolento, vou com ele à portaria, regresso direto pra cama.
Quarta, cedinho,
experimento... e já consigo fazer o que antes não conseguia. O olho direito
abre e fecha, sozinho, ao meu comando. O sorriso agora menos torto. Terceiro e
último dia da minha licença, escondo minha agenda e, um tanto culpado, aprendo
relaxar.
Alguma certeza,
mais que os remédios receitados e – lidas as bulas – criticamente não
acolhidos, redescubro, meu melhor remédio sou eu. Quero saúde, me cuido.
Quinta e sexta pela
manhã a bioenergética facial agora diária, a saudação ao sol – ioga singela. Pra
movimentar a área da boca mastigo chicletes como nunca desde terça. A
alimentação permanece saudável. Água – que tomo pouco diariamente – agora um
litro e meio.
Eu, que me orgulho
de não ter comprimidos em casa – nem mercúrio cromo – procurei semana passada
um gastroenterologista, atraído pelas orientações que deu ao meu filho mais
novo e em busca de mais informações sobre minha já incorporada prisão de ventre
(associo: mau-humor, enfezado, fezes).
Dr. Hélio me falou
da água, das fibras. Pressão 11x7, batimentos 60. Tudo bem pros meus quase 63
anos. Quando soube que fumei brabo dos 10 aos 50, sugeriu exames: raios-x, sangue,
ultrassonografia prostática.
Os resultados dizem
que está tudo certinho. Também tenho me cuidado, especialmente com o que
aprendi com mamãe, Ana, Regina e Romel. Alimentação leve, bebidas – álcool,
refrigerantes – só eventualmente. Todo dia, ou quase, 15 minutos de ioga,
respiração mais funda, movimentos bioenergéticos, alguns quarteirões a pé. Mas
se subo escadas, arfo: sequelas da Souza Cruz, a que fabrica morte por meio de
cigarros.
Falo pra mim: moral
da história, a vida é curta, curta a vida, tento curtir a vida. Maior
obstáculo, as culpas sem sentido.
Luiz
Fernando Sarmento
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