uma vida
incomum como qualquer um 31
juntomisturado
Cinema e vídeo
Na década de 70, operário de cinema, exerci
funções variadas. Como voluntário, no escritório dos Barreto, atento ao tudo
novo, bolei e pratiquei controles administrativos. Depois, em Perdida,
de Carlos Alberto Prates Correia, aprendi direção de produção. Generoso, Carlos
Alberto abriu portas e janelas. Pratiquei assistência de montagem com Amauri
Alves e Eduardo Escorel, no Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro. Cada
corte, muito trabalho manual.
Frequentei anos a Mapa, produtora de Zelito
Viana, desde os tempos da Urca. Na Embrafilme fiquei à disposição de Roberto
Farias e, no setor de rádio e televisão, sob o olhar da Martha Alencar, dirigi
– hoje sei, sem estar preparado – o Coisas Nossas, programa com exibição
de documentários veiculado pela TVE. Lá, por um ou poucos dias, fui assistente
de som do Jorge Amado, documentário de Glauber Rocha. Participei também
da sua montagem, também como assistente. Glauber chegava, orientava Carlos Cox
– o montador – e voltava depois.
Os neurônios da memória saltitam. Fiquei sem
voz ao dar de cara com Caetano no corredor. E, tão fã, ao invés de me aproximar
de Gil, fotografei.
Tive uma câmera VHS, daquelas ligadas por um
fio à unidade de gravação. Minhas mãos eram muitas para – simploriamente,
apaixonadamente, inocentemente? – produzir e gravar o que me atraia.
Cenas familiares, movimentos e, no campo psi, vivências, simpósios,
depoimentos, entrevistas.
Com dinheiro curto, me limitei ao possível.
Utilizava copiões – cópias para trabalho, feitas a partir das fitas originais –
para assistir repetidamente o que havia gravado. Selecionava, roteirizava.
Alguns documentários ficaram prontos. E cópias, feitas por empresas
especializadas. A capa, embalagem, distribuição, presenteios e vendas,
mão-a-mão apoiado por amigos. Um tanto assim até hoje.
Sempre me propus conteúdos atemporais.
Compreendi que qualidades técnicas contemporâneas estavam fora do meu alcance.
As formas, as mais simples. Câmera na mão ou fixa. Cortes secos, fades out e
in.
Comprei uma Canon 16mm, emprestei. Roubada no
local da filmagem, fui ressarcido em prestações mensais. De outra vez pedi a um
amigo que estava vendendo sua própria câmera que também vendesse a minha SHVS.
Um comprador se interessou, propôs depositar o valor. Voltou com o recibo do
banco, levou a câmera. O cheque depositado era roubado... Sonhos interrompidos.
Tempo passado, mergulho na terapia comunitária.
Horas e horas de gravação, agora com uma HDV Canon pequeninha, sugerida pelo
Elizeu Ewald, pioneiro em tecnologias virtuais. Medos semelhantes aos de trinta
anos atrás se aproximam de mim. Mas aprendi que prazos me angustiam... e já não
me imponho datas nem sociedades. Está quase se tornando um prazer, o fazer.
Aprendo.
Junto e misturado, desconfio que estou amando quando desejo para o
outro o que, lá no meu profundo, desejo pra mim. Se é assim o amor, meu amor é
nosso amor.
Meu amor é como um
reflexo. Sou espelho do que recebo e percebo. Sou amado pelo que ofereço.
Talvez eu saiba o que o amor não é. Não possuo nem sou possuído. Não limito nem
sou limitado.
Meu amor não é
excludente. Amo um e uma e amo outros. Amo a mim, amo aqueles que desejam pra
mim o que desejam – lá nos seus profundos– pra si mesmos.
Só amo outro quando
amo a mim. Só dou o que tenho.
Anos depois, leio
Contardo Caligaris e me identifico:
“Eu não tenho ciúme.
Se alguém que eu amo me deixa por outro, eu me desespero como todo mundo. Mas
se alguém que eu amo, sei lá, está viajando, continua me amando, mas tem a
oportunidade de se divertir com outro parceiro por um par de dias ou de semanas,
eu fico feliz por ela.”.
Pergunta que, sei, só
devo fazer ao espelho: Que você quer que eu queira, para eu querer?
Alguém já disse que o
escultor, pra realizar sua obra, vai retirando do objeto bruto o que está em
excesso. Constrói pela retirada.
Disseram também que escrever
é cortar palavras. Tentei. E foram tantos cortes que a prosa tomou forma de
poesia.
A poesia, cortada,
virou o que? Haicai? Mas se enxuto este que imagino haicai, sobra
o silêncio.
Agora tento de novo,
cortando menos, na esperança que cada leitor edite. Assim como acontece comigo,
fico de cada leitura somente com o que me toca.
O que posso me dizer?
Quanto mais maduro, melhor me sinto. Sou centro do meu universo. A vida é um
fluxo variado. Cuido de mim. Meu humor é um indicador. Quanto mais faço o que
quero, melhor pra todos. Ando cheio de sabedoria. Quando tropeço, duvido. Se
atento, aprendo. Desatento, tropeço de novo...
Luiz
Fernando Sarmento
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