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Compus este texto a partir de uma solicitação de George Cleber,
o Binho, do Centro Cultural A História que Eu Conto, de Vila Aliança, subúrbio
do Rio de Janeiro. Talvez aqui repita o que já antes escrevi.
Mistura, desejos e gestos
Há uma criança que vive em mim. Como em outros. Há um lugar na
minha memória infantil que poderia ter sido Vila Aliança. Descubro que um
quanto de tudo acontece um tanto ao mesmo tempo. Quando lembro A História que
Eu Conto surgem lembranças paralelas, de alguma maneira relacionadas àquele
espaço e movimento. Como se estivessem repousando na mesma caixa daquele tempo.
Pra mim é a vida inesperada como acontece. Parece confuso e é.
Lembranças
Anoto pra não esquecer. Corro o risco de me enganar. Curto minha
memória, que hoje vive de livres associações. Minha memória é curta. E filtra
um tanto o que porventura me incomode, me angustie. Uma face amiga que não
revejo há tempos não é reconhecida claramente pelos meus chips. Os nomes se
perdem. Se me comprometo, anoto, agendo no papel, no computador, no celular.
Tenho vivido bem assim. O amadurecimento acompanha meu prazer em viver.
Paradoxo, a memória afetiva permanece, selecionada nem sei como.
Admiro a inteligência do outro. Pressuponho o leitor – você –
como editor, me permito escrever fora de ordem. Certeza mesmo não tenho. Arrisco
contar o que me vem. Tudo misturado, nos mesmos tempos. Assim, esta é a
história que eu conto.
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Em mim como em todos, ou quase, tudo começa em casa. Mamãe
professora, eu quarto filho, uma terra com sal, Salinas. O sol das tardes, a
feira e os cheiros, feijão, farinha, rapadura. O Vale do Jequitinhonha. Os
barros, as botijas, os boizinhos. Requeijão e melado. Boas lembranças, difusas,
de uma infância ali. Pra mim não havia pobreza nem riqueza. Os afetos me
supriam. Havia os medos. Mas meu mundo era ali, aquele, não mais. E este mundo
ficou em mim, mesmo depois que me tornei cidadão de outros mundos.
Estas lembranças facilitam identificações, hoje e talvez sempre,
com mundos de algum jeito semelhantes ao meu mundo original. Minha Salinas tem
um tanto de Vila Aliança. E o Centro Cultural lembra quem sou.
Sementes
Sabe aquela imagem que você viu no Jornal Nacional da TV Globo?
Aquela filmada de dentro de um helicóptero, ratátá-ratátá-ratátá de balas
saindo à procura de jovens alvos humanos lá embaixo? Foi lá, em Vila Aliança.
Os alvos correm, zigzagueiam, as balas alcançam, os corpos caem, pronto, missão
cumprida.
Naquele dia, há muito, Samuel Muniz de Araújo, o Samuca, já
tinha saído da prisão. Cumprira pena por sequestro. Condenação de 15 anos.
Passam-se sete, reflete, tem conversas com a psicóloga, insights. Resolve
redirecionar sua sabedoria. Cuidará de jovens da sua terra.
Uma escola pública, em Vila Aliança, é desativada pela
Prefeitura. Samuca sabe – através do Binho – que prédios públicos abandonados
podem ser ocupados em benefício da população. Já juntos com Jeferson Cora – o
Jê – tomam de baldes, vassouras e limpam a área. Está pronta a semente física
do Centro Cultural a História que Eu Conto. O sonho brota.
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Binho já acumulava livros em casa, embrião de biblioteca
comunitária. Jê fazia arte, grafite. Samuca, música. Imagino conversas e
conversas com um e uma, outra e outro. Oscar, Ana, Bartolomeu, Néti, Luiz
Fernando Pinto, Nena, Thamires, Grasiela, Andressa, Thiago, Moisés, Cínthia,
Viviane... Vínculos se reforçam, desejos se encontram, mais interessados chegam
mais. A turma aumenta. Mulheres, homens, jovens, crianças. Mais gente que minha
memória.
Sei que nesta época eu trabalhava para o Sesc Rio, com Gilberto
Fugimoto. Um conselheiro, Adriano Londres, encontra-se com Samuca, se
interessa, fala com o Dionino Colaneri, então diretor geral. Dionino fala com
Gilberto. Gilberto e eu vamos lá. Sugerimos que pesquisem, mapeiem quem tem
interesse em contribuir para a melhora de Vila Aliança. E convidem a eles e a
nós pr’uma reunião.
Mais de 40 pessoas na hora marcada. Curiosidades e desejos
presentes. Uma roda, duas perguntas pra cada um: em relação à Vila Aliança, o
que você oferece? O que você procura? Dois minutos pra responder, por favor.
Pra facilitar, escreva suas respostas, inclua seu nome, telefone, email.
Cada fala, uma surpresa. Ofertas e procuras cruzam os ares. Um
recreio, um lanche, as conversas rolam, aproximações, confianças estimuladas,
parcerias aventadas, germinam vínculos. Depois, as ofertas e procuras são
digitadas e compartilhadas com quem esteve no encontro e com quem não esteve.
Ainda tímida, a rede se espalha. O tal do capital social mostra a cara. A
inteligência coletiva fica clara.
Em outros encontros, vêm mais pessoas. Instituições se
interessam, chegam. Não sei como foi no detalhe, mas a cada ida a Vila Aliança,
novidades. As pessoas se movimentam, se encontram, pensam, propõem, planejam,
projetam, buscam e somam recursos, agem, realizam. A biblioteca se expande, o
teatro atua, cursos e oficinas se experimentam.
No dia a dia, imagino, diferentes visões de mundo geraram
discussões, conflitos. Mas alguma coisa, não sei exatamente o que, era
diferente ali. Talvez a expressão dos afetos e dos desejos. Algo impalpável.
Ética? Solidariedade? Delicadeza? Sei que este algo me mobilizava para me
deslocar e estar volta e meia lá, com o que estava ao meu alcance.
O Jean Engel Martinez, antes de Gilberto Fugimoto e eu, já
atuava junto. Antes ainda, muita gente da região deu as mãos. Depois, outras pessoas
se interessaram, colaboraram voluntariamente ou como instituições. Vieram
inteiros. Da zona sul, lembro de Pedro Cláudio Cunca Bocayuva, Alex Vargas,
Cláudia Pfeiffer, Caio Silveira, Luciana Phebo, Paulo Magalhães, Márcia dos
Anjos, Carolina Pellegrino, Lídia Nobre, Michel Robin, Armênio Graça, Bel Lobo,
Vitor Pordeus, Roberto Pontes, Marcos Alvito, Júlio Ludemir, Marcos André,...
Menos de 3 anos depois veio o prefeito, assina autorização formal para uso do
espaço. Antes, pelo Ministério da Cultura, o Centro é feito Ponto de Cultura.
Primeira vez
Vila Aliança faz, pra mim, juz ao nome. Gosto dos afetos que lá
rolam. Gentileza gera gentileza, eu sei. Ali mais me aliei a outros amigos.
Chutando, fui a Vila Aliança umas 20, 30 vezes. Uma hora de
viagem, se trânsito bom. Já nas primeiras ruas abaixávamos o vidro do carro,
expondo quem dentro. Na primeira vez que fui, tudo novo pra mim, sentei na
frente com quem dirigia e liguei minha câmera, direto, num plano sequência
quase sem fim. Gravei o que via na frente, virava pro lado, voltava. Quando
paramos o carro na porta do Centro Cultural, num átimo, freou também um carrão
potente. E da janela do motorista surgiu uma mão e voz firmes: me dá a câmera! Ingênuo,
recusei, fala tranquila: não vou dar meu brinquedo não. A voz, com autoridade,
repetiu: me dá esta câmera!
Caiu minha ficha. Abri a porta do carro e quando levantei vi no
colo dos dois homens armas pesadas – fuzis, metralhadoras? Entreguei a câmera.
Justo neste intervalo surgiu Samuca e se apresentou calmamente,
digno mas respeitoso, aos dois homens. A câmera e a voz voltaram pra mim: vê
lá, coroa, o que está filmando!
Agradeci a compreensão. Já dentro do Centro, soube da tensão
presente no bairro com uma esperada invasão inimiga.
Livres associações
Adoro livre associação. Quando encontro um amigo que há muito
não vejo, proponho logo: cada um de nós faz seu monólogo, o outro só escuta e
anota o que deseja falar. Depois dos monólogos, diálogos. Dá certinho. Em 10,
15, 20 minutos no máximo, tomo conhecimento de tudo que me fala, num fluxo
ininterrupto, anoto o que associo livremente. Agora minha vez. Aí sou ouvido.
As anotações me guiam, minha história se insere na minha fala, conto tudo que
desejo, nos saciamos de informações e falas e escutas.
Alegre, descubro que este processo monólogos-diálogos é uma
metodologia. De vez em quando ampliamos para monólogos-triágolos, tetrálogos,
polígolos quando mais gente estamos juntos. Facilita o fluxo de emoções e,
surpresa, facilita a objetividade.
Quanto à objetividade, utilizo também outra metodologia,
simples. Quando desejo, só ou com parceiros, realizar algo, proponho, como
ponto de partida, sintetizar em 1, 2 ou 3 linhas o que nos propomos. Em seguida
rabisco um quadro com 5 colunas: tarefas, responsáveis, custos, até que dia,
observações. À medida em que conversamos, descobrimos e anotamos as tarefas
decorrentes do que nos propomos. Definimos quem se dispõe responsável pela sua
realização ou coordenação. Calculamos, limitamos os custos de cada tarefa, se
existentes. E o prazo para sua finalização. Na coluna observações anotamos
livremente o que consideramos necessário. Ao final, revisamos tudo e
reordenamos de acordo com as datas. Funciona.
Consigo participar paralelamente de vários projetos e
movimentos. E é interessante porque imprevistos acontecem, um anda mais rápido,
outro mais lento. E eu tento me adaptar à realidade e funciono de acordo com o
andamento de cada um. Aliás, tem um amigo, o Sérgio Mello, que lembra bem: os
planos funcionam. Difícil é o cronograma.
Ética e Afeto
Os afetos são berços da ética. A ética nasce do amor. Sinto – Winnicott
tem razão: tudo começa em casa. Uma criança cuidada afetuosamente se relaciona
com o mundo como aprendeu. Mas, se carrega em si vazios que desconhece, poderá
passar a vida tentando suprir estes buracos com objetos, poderes ou lá o que
seja.
Eu só posso dar o que tenho. Se carrego vazios, dou vazios.
Nestes momentos não posso cuidar do outro, se não consigo cuidar nem de mim.
Como me faz bem, desejo que – como eventualmente eu – pessoas que dirigem
pessoas reflitam sobre suas reais condições de assumir esta direção. Quando não
cuidam de si, muitas vezes têm até boas intenções, são eficientes. Mas não
eficazes: pensam estar indo à praia mas dirigem pra dentro do incêndio. E
dentro do incêndio só vêem chamas. As saídas, escondidas.
Sinto que a ausência de ética permeia boa parte dos problemas da
humanidade. E cada vez mais percebo que a internalização da ética está ligada
profundamente à vivência de afetos, especialmente nos primeiros anos de vida.
John Lennon tinha razão: all we need is love.
De maneira geral, nossos pais eram neuróticos, tinham seus
motivos para ser. Como lembra Frinéa Brandão, a psicoterapeuta, no mínimo,
sabendo ou não, sofreram as dores e decorrências das guerras. Hoje, cada vez
mais, conhecemos pessoas que agem sem culpa, sem considerar sentimentos
alheios. Não há aqui compaixão. Tenho me perguntado se e quando ajo assim. Não
quero. Desconfio de mim quando percebo em outros atitudes frias. Só reconheço
no outro o que conheço em mim? Em busca de classificação, do que entendi, agir
sem culpa é característica de psicopatia. Psicopata age sem culpa. Mente, passa
pra trás, rouba, trai, engana e, no extremo, mata. Não vive a alegria dos
afetos. Sofre sem consciência, foge do próprio sofrimento? Merece compaixão.
Mas psicopatas não devem comandar pessoas, é perigoso para todos. Quando um
comandado, pra se manter no emprego, internaliza a ideologia do dirigente,
passa a ter também comportamento similar. Psicopatia gera psicopatia?
Ausência de afetos é comum em atitudes desumanas. Quem rouba,
quem mata, quem atua numa empresa ou num governo sem considerar o outro vive o
frio. Talvez nem consiga falar ao filho o que faz. Se envergonha? Nas veias,
parece, não corre alegria. Não sabe porque, dorme mal, tem mau humor, adoece,
perde o sentido da vida. Quer mais e mais, em busca do preenchimento do vazio
que tem, e não sabe.
Sorte quando encontra o insight,
se dá conta...
E se aproxima de si mesmo.
*
Saiba mais:
Este texto é parte de um dos
capítulos
- Movimentos
Relacionados –
do livro que escrevi,
com a intenção de contribuir com
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para movimentos sociais e
individuais.
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