Livre
pensar 11
Abstração
Tiro então o bode da sala. Minha vida é
melhor que esta paisagem. Olho no espelho, satisfeito comigo. Minha vida, em
espiral, intercala equilíbrios nos meus movimentos. Hoje melhor que ontem. Meu
humor é minha referência, me qualifica. O sorriso que esboço se faz espelho em
quem recebe.
Escolho um tanto quem sou. Minha vida é cada
canal que clico. Em cada momento decido o que vivo. Exercito o prazer, ganho
espaços, fujo dos chatos, estimulo os frágeis. Tudo funciona como reflexo de
mim. Sou responsável pelo que sou. Só posso reclamar ao espelho.
Como gente, reflexo tem de tudo. Retrata quem
está bem, mal, mais ou menos. Reproduz em duas dimensões a realidade. Abstraio
tudo acima. Cada um tem sua história, seu retrato, seu espelho. Abro a lente,
amplio.
Olho ao redor
Montes de pessoas. Alguns passam ao meu lado.
Um ou outro se sobressai. Na maioria, sérios. Uns tensos, outros calmos. Uns
assim, outros assado. No chão, largados, cada vez mais dois vezes dois.
Acostumo, nem vejo quando não quero. E crianças com aquele olhar e tom de voz: ei
tio, me dá? Isto aqui, em toda terra.
Nas favelas, uns sons de tiros, os silêncios
que inocentam quem não fala. Quem cala, não falha. Medo. Nem em mim mesmo
confio. Nos subúrbios, se não igual semelhante. Legal ou ilegal, a droga muda o
real. Se não droga, consumo. De tão conservador de tudo, incho, engordo.
Acumulo, enfezo.
Sem graça
As piadas denigrem alguém. Rio do outro, da
desgraça do outro. Pegadinhas são falsas delícias. Rio mesmo é de mim, não
lembro que o outro sou eu. Mais que tudo da programação da TV são filmes. A
maioria, violência pura. Bandido caça mocinho que caça bandido, como se em cada
um de nós não residisse um tanto de cada um.
Como no cinema, me divirto com a violência.
Maniqueísmo, coerente com visões de mundo limitadas. Venda e compra de produtos
e serviços desnecessários movimentam a economia. Alimentam ciclos viciosos,
ignorância como fonte de si própria. Aqui procuro suprir vazios que acumulei e
empanturro.
Retiro agora estes óculos escuros. Caio na
rede.
Luzes ao lado
Vejo, neste enorme palco, outras cenas. Que
que aquele pessoal está fazendo ali? Oba! É a turma do sim. Sim ao
que enleva, embevece, enobrece, engraça, estimula, acalma, acalenta, amorece.
Esboço um sorriso, recebo outro de volta. Me enredo. É outro o ciclo. Virtuoso?
Práticas
Redes se formam a partir de interesses
comuns.
Luiz Fernando Sarmento
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